A arte rupestre produzida por humanos que viveram há dezenas de milhares de anos ainda gera questionamentos. Quem, como e para qual finalidade foram feitas, são alguns dos questionamentos mais frequentes
quando nos deparamos com essas impressionantes representações encontradas em cavernas ao redor do mundo. Na Espanha, por exemplo, há a famosa caverna de El Castillo, localizada no norte do país, e na qual aproximadamente 13 mil e 41 mil anos atrás, artistas produziram desenhos, gravuras e estênceis de mãos em suas paredes. A arqueologia apontou que, para chegar às câmaras mais profundas, onde a luz natural não alcançava, eles dependiam de tochas e lâmpadas rudimentares. Além disso, precisavam lidar com uma outra questão importante: a possibilidade de se deparar com ursos-das-cavernas, animais de grande porte cujas garras poderiam causar ferimentos graves.
A espécie foi extinta há 24 mil anos, mas um conjunto de aproximadamente 3 mil representações, entre as quais estão discos vermelhos, contornos de animais, marcas de mãos e padrões geométricos, segue identificável em El Castillo. Como, em meados do século passado, o local recebeu a instalação de escadas e iluminação elétrica, a exploração da caverna é considerada bem menos arriscada nos dias de hoje. Mesmo assim, é importante dizer que a preservação das pinturas exige cuidados rigorosos. Por isso, há uma regra fundamental no interior da estrutura: é proibido tocar nas superfícies decoradas.
Ben Crair, em artigo publicado na revista Smithsonian, destaca como um dos pontos mais impressionantes da região o chamado Painel Policromado, também conhecido como Painel das Superposições. Nele, diferentes artistas acrescentaram representações ao longo de milhares de anos, criando uma composição que apresenta desde impressões de mãos a contornos de animais feitos com carvão preto e mesmo pigmentos em tons de vermelho, laranja e marrom, em diferentes níveis de conservação.
Para o arqueólogo Diego Garate, professor da Universidade da Cantábria, a relação dos artistas paleolíticos com as paredes era muito mais próxima do que a dos pesquisadores e visitantes atuais. Enquanto a preservação exige que ninguém toque nas pinturas, os antigos habitantes aparentemente utilizavam as próprias superfícies rochosas como parte de sua experiência.
O que significam?
Desde que as pinturas da caverna de Altamira, também localizada no norte da Espanha, foram descobertas em 1879, estudiosos tentam compreender por que os seres humanos se aventuravam em locais tão escuros para produzir arte. Ao longo dos anos, diferentes hipóteses foram propostas. Algumas interpretações associavam os animais representados a símbolos de grupos sociais, outras relacionavam as imagens à fertilidade ou a práticas de xamãs em estados alterados de consciência. Mas há ainda a perspectiva que considera a arte rupestre um marco no desenvolvimento do pensamento simbólico e abstrato do Homo sapiens. Nessa interpretação, a capacidade de criar representações artísticas estaria relacionada à chamada modernidade comportamental humana.
Entretanto, ao estudar cavernas na Espanha e na França, Garate passou a se interessar não apenas pelas intenções dos artistas, mas também pelas experiências que esses ambientes proporcionavam. Uma visita a uma caverna próxima de uma praia movimentada no País Basco contribuiu para essa mudança de perspectiva. Por lá, o pesquisador percebeu empiricamente que explorar o espaço à luz de uma tocha produzia uma experiência bastante diferente daquela proporcionada por uma lanterna elétrica. Se a chama iluminava apenas uma parte limitada da caverna, a luz avermelhada oscilava e projetava sombras em movimento sobre as paredes. A percepção das formas mudava constantemente, fazendo com que o ambiente parecesse mais dinâmico. Garate então concluiu que a arte rupestre não deveria ser entendida simplesmente como uma imagem estática fixada em uma superfície.
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Seria necessário, portanto, considerar aspectos como iluminação, acústica, localização das figuras e contato físico com as rochas.
Nada de aleatório
A disposição das marcas de mãos oferece pistas sobre a maneira como os artistas utilizavam as cavernas. Uma pesquisa conduzida pelo arqueólogo britânico Paul Pettitt e seus colegas identificou que os estênceis não estavam distribuídos aleatoriamente. Na verdade, muitas impressões apareciam perto de fissuras, ondulações e reentrâncias nas paredes, frequentemente em posições que permitiam apoiar ou segurar as mãos. Por isso, os pesquisadores sugeriram que essas marcas poderiam estar relacionadas à necessidade de estabilização durante a exploração dos ambientes subterrâneos.
A mesma relação pode ser observada nas representações de animais. Em El Castillo, Garate e Palacio Pérez utilizaram um ponteiro laser para identificar figuras parcialmente apagadas pelo tempo. Algumas imagens pareciam acompanhar as saliências naturais das paredes, como ocorre com um bisão cuja aparência musculosa é acentuada pelo relevo da rocha.
Em outras cavernas, rachaduras foram incorporadas às representações para completar chifres ou sugerir o contorno das costas de cavalos. Assim, as irregularidades das superfícies podiam contribuir diretamente para a aparência das figuras.
Uma hipótese apresentada por Pettitt e pelo arqueólogo Derek Hodgson sugere que os caçadores paleolíticos desenvolveram uma capacidade visual particularmente sensível à identificação de animais parcialmente escondidos. Essa habilidade poderia ter favorecido o reconhecimento de formas familiares em rochas irregulares e ambientes pouco iluminados. Em 2023, a arqueóloga Izzy Wisher, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e seus colegas também discutiram como estímulos ambíguos podem ser percebidos como objetos, animais ou rostos conhecidos.
Sob essa perspectiva, os artistas talvez não procurassem apenas superfícies vazias para desenhar: as formas naturais das cavernas poderiam inspirar as próprias representações.
Sombras e figuras tridimensionais
Outro exemplo dessa relação aparece em uma câmara de El Castillo, onde uma estalagmite apresenta a figura conhecida como homem-bisão. Incomum para uma imagem paleolítica, a representação em questão combina características tanto de humanos quanto de animais, de modo que o bisão aparenta caminhar sobre as patas traseiras. Não há consenso, mas alguns estudiosos sugerem que a figura poderia representar um xamã utilizando uma pele de animal.
Vale destacar que o artista também trabalhou a textura tridimensional da pedra para destacar partes do corpo, como joelhos e coxas. Inclusive, há pesquisadores que acreditam que o topo da estalagmite tenha sido modificado para intensificar o efeito visual. Ao acender uma lanterna no interior da caverna, é possível ver uma sombra semelhante à silhueta de um bisão erguido sobre as patas traseiras. Ao movimentar a luz, nota-se uma figura que aparenta caminhar. Logo, estudiosos levantaram a possibilidade de que os antigos artistas tenham explorado intencionalmente esse jogo de luz e sombras.
A hipótese ainda não foi comprovada, mas, recentemente, estudos com realidade virtual foram utilizados para reproduzir a iluminação de tochas em outra caverna da região, chamada Las Monedas. Embora as motivações exatas desses povos ainda não sejam claras, o estudo dos espaços onde as imagens foram produzidas pode auxiliar os especialistas a compreender como esses grupos antigos percebiam o mundo ao seu redor.











