Claude Monet é lembrado por suas pinturas de jardins, lagos e paisagens iluminadas por diferentes tonalidades. Considerado um dos principais nomes do impressionismo, o artista francês dedicou grande parte
de sua trajetória a registrar as transformações da luz e das cores. Nos últimos anos de vida, porém, uma doença ocular passou a interferir diretamente na maneira como ele enxergava o mundo: a catarata.
Diagnosticado em 1912, aos 72 anos, Monet começou a enfrentar dificuldades para distinguir detalhes e perceber as cores com a mesma intensidade de antes. O pintor descreveu as alterações em cartas, nas quais demonstrava frustração com a perda progressiva da visão. O problema não afetava apenas sua rotina, mas também sua relação com a pintura, atividade que continuou exercendo mesmo diante das limitações.
Segundo reportagem de Larissa Beani, publicada pela Veja Saúde, o artista relatava que enxergava as paisagens como se estivessem encobertas por uma névoa. Com o agravamento da doença, as cores perderam intensidade e determinados tons se tornaram mais difíceis de reconhecer. Estudos posteriores sobre sua produção artística investigaram como essas mudanças podem ter influenciado a aparência de suas telas.
A doença que modificou a percepção das cores
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Water Lilies ou Nymphéas De Claude Monet. - Créditos: Wikimedia Commons/domínio público[/caption]
A catarata é uma condição ocular caracterizada pela perda de transparência do cristalino, estrutura responsável por ajudar a focalizar a luz que entra no olho. Quando essa região se torna opaca, a visão pode ficar embaçada, como se a pessoa estivesse olhando através de um vidro nublado. A doença também pode prejudicar a percepção das cores e dos contrastes.
No caso de Monet, a deterioração visual foi progressiva. Em suas correspondências, o artista relatou dificuldades para reconhecer os detalhes das paisagens e demonstrou preocupação com a maneira como a doença interferia em seu trabalho. A mudança na percepção cromática era especialmente problemática para um pintor cuja produção artística dependia da observação cuidadosa da luz e das tonalidades.
Em um dos relatos reproduzidos pela Veja Saúde, Monet descreveu sua visão como uma espécie de névoa. Em outros registros, reclamou que as cores já não apresentavam a mesma intensidade. Tons que antes conseguia diferenciar passaram a parecer semelhantes, dificultando a escolha dos pigmentos e a reprodução das paisagens que pretendia representar.
Um estudo publicado em 2019 na Revista Brasileira de Oftalmologia, intitulado Cataract and chromatic expression in Monet’s work, examinou a relação entre a doença ocular e as mudanças cromáticas observadas na produção do artista. A pesquisa reuniu aspectos da história de vida de Monet e de suas pinturas para discutir como a deterioração da visão pode ter repercutido em sua expressão artística.
A questão é importante porque Monet não pintava apenas objetos e lugares: buscava representar como a luz transformava a aparência de cada cenário. Quando sua visão começou a falhar, a observação direta tornou-se mais difícil. A doença, portanto, criou um obstáculo para um artista que dependia justamente da capacidade de distinguir nuances.
Cirurgia trouxe novos desafios para o pintor
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Apesar das dificuldades, Monet continuou trabalhando. Durante anos, resistiu à possibilidade de uma cirurgia, procedimento que, naquele período, envolvia riscos consideráveis. A preocupação não era infundada: para alguém que dependia da visão para pintar, uma intervenção malsucedida poderia comprometer ainda mais sua capacidade de continuar produzindo.
Em 1923, quando já apresentava uma perda visual severa, o artista finalmente passou por uma operação para retirar a catarata do olho direito. A recuperação foi lenta e o resultado inicial ficou aquém de suas expectativas. Ainda naquele ano, ele foi submetido a um segundo procedimento.
A intervenção trouxe uma mudança inesperada: Monet passou a reclamar que enxergava tudo azulado e tinha dificuldade para perceber tons vermelhos e amarelos. A alteração provocou grande insatisfação. Em uma o pintor expressou tristeza e irritação por não conseguir enxergar as cores que sabia estarem presentes ao seu redor.
A experiência ajuda a compreender por que a cirurgia não representou uma solução imediata para o artista. Embora a retirada da catarata pudesse melhorar determinados aspectos da visão, a adaptação posterior também trouxe dificuldades. O contraste entre o que Monet esperava recuperar e o que efetivamente conseguia enxergar aumentou sua frustração.
Em 1924, ele procurou outro oftalmologista, que desenvolveu óculos com lentes verdes e amarelas para ajudá-lo a lidar com as alterações visuais. Os registros do período mostram uma mudança no humor do pintor depois que começou a utilizar os óculos. Ele afirmou ter recuperado sua visão habitual e voltou a demonstrar entusiasmo com o trabalho.
A experiência de Monet também é discutida em estudos médicos sobre a relação entre doenças oculares e produção artística. Um artigo publicado no JAMA Ophthalmology, por exemplo, analisou simulações dos efeitos da catarata nas pinturas do francês e de alterações visuais em obras de Edgar Degas. Pesquisas desse tipo ajudam a investigar como determinadas condições podem modificar a percepção de formas, contrastes e cores.
Como a catarata aparece nas pinturas de Monet?
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Agapanthus De Claude Monet. - Créditos: Wikimedia Commons/domínio público[/caption]
As mudanças na visão de Monet despertaram o interesse de pesquisadores que comparam suas obras de diferentes períodos. Em telas realizadas nos últimos anos de vida, é possível observar alterações na maneira como as cores e as formas aparecem organizadas. Algumas pinturas apresentam tonalidades mais intensas, contrastes diferentes e contornos menos definidos do que os encontrados em trabalhos anteriores.
Essas características, entretanto, precisam ser interpretadas com cuidado. Embora a catarata seja uma explicação importante para parte das mudanças observadas, não é possível afirmar que todas as diferenças entre as pinturas tenham sido causadas exclusivamente pela doença. A relação entre a visão do artista e suas escolhas estéticas continua sendo objeto de investigação.
O estudo publicado na Revista Brasileira de Oftalmologia aborda justamente a possível influência da deterioração visual sobre a expressão cromática de Monet. Já a análise publicada no JAMA Ophthalmology explora como os efeitos da catarata poderiam alterar a aparência de determinadas cenas quando observadas pelo artista.
A comparação entre as obras permite levantar hipóteses sobre o que Monet conseguia enxergar enquanto pintava. Com a progressão da doença, a perda de nitidez e as alterações na percepção cromática podem ter dificultado a identificação de diferenças sutis entre tons próximos. Isso não significa, porém, que o pintor tenha deixado de fazer escolhas deliberadas ou que suas telas tardias possam ser explicadas apenas por uma limitação física.
A história também revela a importância que a visão tinha para sua identidade artística. Monet continuou pintando apesar dos obstáculos e procurou alternativas para recuperar a capacidade de distinguir as cores. A busca por tratamento demonstra que ele não encarava a deterioração visual como uma mudança indiferente: tratava-se de uma dificuldade que interferia profundamente em sua relação com a arte.
A trajetória do impressionista mostra, assim, como uma condição de saúde pode afetar a experiência de um artista sem apagar a complexidade de sua produção. A catarata modificou a maneira como Monet enxergava as paisagens e pode ter influenciado suas pinturas, mas suas obras tardias não se resumem aos efeitos da doença.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli











