Pesquisas recentes demonstram como as mudanças climáticas estão empurrando regiões produtoras de arroz para temperaturas jamais enfrentadas pela cultura ao longo de seus cerca de 9 mil anos de domesticação
pela humanidade.
Segundo um novo estudo, o aquecimento global está acontecendo em uma velocidade aproximadamente 5 mil vezes maior do que a capacidade evolutiva histórica do arroz . Isso sugere que a planta pode estar se aproximando de seu chamado "limite térmico", ponto em que a adaptação ao aumento das temperaturas se torna cada vez mais difícil.
A pesquisa alerta que, embora humanos possam desenvolver variedades mais resistentes ao calor ou transferir plantações para novas áreas, o avanço do aquecimento global tende a provocar impactos severos para mais de um bilhão de pessoas que dependem diretamente do cultivo do arroz para sobreviver.
Segundo o portal Live Science, o principal autor do estudo, o antropólogo e geógrafo Nicolas Gauthier, do Museu de História Natural da Flórida, afirmou que a capacidade humana de adaptação não deve ser subestimada, mas ressaltou: "também queremos reconhecer que essas adaptações já ocorreram e, em alguns casos, podemos estar mais próximos dos limites do que podemos razoavelmente nos adaptar nesse período."
Um alimento fundamental
O arroz é um alimento básico para mais da metade da população mundial, e cerca de 90% da produção global ocorre na Ásia. Diversas regiões produtoras já enfrentam ondas de calor intensas que vêm reduzindo a produtividade das lavouras, segundo análises do Fórum Econômico Mundial.
Apesar de ser uma cultura adaptada ao calor, o arroz possui limites biológicos importantes. A fotossíntese da planta praticamente para quando as temperaturas chegam perto de 40 °C. Além disso, o calor excessivo compromete a viabilidade do pólen e o desenvolvimento dos grãos.
Outro problema é a grande dependência de água. Alterações nos ciclos de chuva e seca dificultam o cultivo, enquanto o aumento do nível do mar ameaça arrozais localizados em áreas baixas, que podem ser invadidos por água salgada capaz de destruir as plantações.
Analisando dados
Para compreender como o arroz respondeu às mudanças climáticas ao longo da história, Gauthier e sua equipe analisaram dados climáticos de antigos sítios arqueológicos onde há evidências de cultivo da planta ao longo de milhares de anos.
Os pesquisadores descobriram que o arroz conseguiu se expandir historicamente para regiões mais frias graças ao desenvolvimento de variedades tolerantes ao frio e à adaptação das técnicas agrícolas humanas. No entanto, o limite máximo de temperatura suportado pela cultura praticamente não mudou desde o início de sua domesticação.
De acordo com o estudo publicado na revista científica Communications Earth & Environment, o cultivo do arroz historicamente permaneceu restrito a regiões onde a temperatura média anual fica abaixo de 28 °C e onde as máximas médias da estação quente não ultrapassam 33 °C.
Os cientistas afirmam que algumas áreas atualmente frias demais para o cultivo poderão se tornar adequadas no futuro, permitindo uma migração geográfica das plantações. Ainda assim, eles destacam que a mudança não seria simples. Afinal, os arrozais foram construídos ao longo de séculos e dependem de infraestrutura complexa, sistemas de irrigação e conhecimentos agrícolas profundamente ligados às comunidades locais. Logo, transferir toda essa produção para novas regiões exigiria enormes investimentos e provocaria grandes consequências econômicas e sociais.
Como destaca Gauthier, até seria possível manter a produção global de arroz em níveis semelhantes por meio dessa redistribuição geográfica, mas isso não resolveria os impactos enfrentados pelas populações do Sul da Ásia, onde o arroz é a base da alimentação e da subsistência de milhões de famílias.











