Mais de 900 cartas escritas pelo negociante de antiguidades Ibrahim Elias Gejou estão ajudando a reconstruir uma parte esquecida da história da arqueologia no Iraque. Os documentos revelam que moradores
locais já escavavam a antiga cidade de Kish antes do início das missões estrangeiras consideradas oficiais, além de registrarem o comércio e o contrabando de artefatos destinados a instituições internacionais.
O estudo, publicado na revista Iraq, foi desenvolvido por Nadia Ait Said-Ghanem, pesquisadora associada de pós-doutorado no University College London. Segundo a investigação, a participação dos iraquianos nas descobertas arqueológicas foi apagada de narrativas que tradicionalmente destacavam pesquisadores ocidentais.
Cartas revelam escavações antes das missões oficiais
Localizada em um monte conhecido como Tell Uhaimir, no centro do Iraque, a antiga cidade de Kish teve sua história arqueológica marcada por lacunas. Após algumas escavações no século 19, as atividades oficiais francesas começaram em 1912, sob a liderança de Henri de Genouillac. Posteriormente, uma equipe britânico-americana retomou os trabalhos entre 1923 e 1933.
As correspondências de Gejou, nascido em Bagdá em 1868, ajudam a preencher o período pouco documentado. Em 1909, ele escreveu ao Museu Britânico oferecendo 124 tábuas provenientes de um novo local identificado como Kish.
Nos anos seguintes, suas cartas registraram o manuseio de centenas de peças descobertas durante escavações realizadas por iraquianos, posteriormente classificadas como clandestinas.
Para Ait Said-Ghanem, essa narrativa desconsidera o conhecimento que as populações locais possuíam sobre o próprio patrimônio. Segundo a pesquisadora, os moradores orientavam os estrangeiros, compartilhavam informações e contribuíam para as descobertas.
Negociantes ajudaram a retirar artefatos do Iraque
Em 1912, Genouillac chegou ao Iraque para iniciar escavações em Kish. De acordo com o estudo, como não tinha autorização para exportar os achados, recorreu a negociantes de Bagdá, incluindo Alexander Messayeh, Antone Samhiry e George Khayat, além de Gejou, que estava em Paris.
O esquema envolvia o envio das peças escolhidas pelo arqueólogo a Messayeh, que as encaminhava clandestinamente a Gejou na França. Em uma carta, Messayeh afirmou que Genouillac conseguia retirar praticamente tudo o que considerava valioso sem que os funcionários otomanos percebessem.
As escavações terminaram abruptamente menos de três meses depois, após Genouillac chicotear um condutor de mula que trabalhava para o inspetor. Mesmo com o retorno do arqueólogo a Paris, as cartas indicam que o contrabando de peças de Kish continuou.
Os documentos mostram que negociantes locais não eram apenas intermediários ocasionais: alguns chegaram a administrar recursos e missões estrangeiras, posição que lhes dava acesso a artefatos e oportunidades comerciais.
História da arqueologia é colocada em debate
O estudo também questiona a distinção tradicional entre escavações locais consideradas ilegais e expedições estrangeiras tratadas como legítimas. Na época, as atividades ocorreram sob domínio otomano ou durante o período colonial britânico, levantando dúvidas sobre os critérios utilizados para definir a legalidade dos trabalhos.
Das 853 tábuas de Kish mencionadas nas correspondências, os registros dos museus identificam apenas 279 como adquiridas no mercado. A pesquisadora considera possível que outras peças permaneçam em coleções sem identificação de sua origem, segundo a revista Phys.
Para Ait Said-Ghanem, reconhecer a participação dos iraquianos é essencial para reconstruir a história da arqueologia no país e evitar que gerações de estudantes aprendam uma narrativa que minimize o envolvimento de seus antepassados na descoberta e na circulação desses objetos.
*Sob supervisão de Éric Moreira











