As temperaturas na cidade de São Paulo estão subindo em um ritmo muito superior à média global, segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo. Dados analisados ao longo dos últimos 125 anos mostram
que tanto as mínimas quanto as máximas registradas na capital paulista aumentaram de forma acelerada, impulsionadas principalmente pelo crescimento urbano e pela redução da cobertura vegetal.
Enquanto a temperatura média global subiu cerca de 1,2 °C desde 1900 e a superfície terrestre aqueceu aproximadamente 2 °C, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em São Paulo a situação é ainda mais intensa. A temperatura máxima diária, normalmente observada por volta das 13h, aumentou 2,4 °C desde o início do século 20, com aceleração mais evidente após a década de 1950. Já a temperatura mínima diária, geralmente registrada nas primeiras horas da manhã, apresentou elevação de 2,8 °C.
As conclusões foram apresentadas pelo professor Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, durante o encontro "Eventos extremos de calor e água: Mitigando os efeitos adversos das mudanças climáticas na saúde das cidades", promovido pela FAPESP em parceria com a Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica. As informações são do portal Galileu.
Ilha de calor
Os pesquisadores relacionam esse aquecimento intenso ao fenômeno conhecido como ilha de calor urbana. Ele ocorre quando áreas cobertas por vegetação são substituídas por asfalto, concreto e construções, materiais que absorvem e retêm mais calor. Como consequência, regiões altamente urbanizadas acabam registrando temperaturas significativamente superiores às áreas verdes.
Em um estudo recente, cientistas ligados ao Centro para Segurança Hídrica e Alimentar em Zonas Críticas analisaram 70 cidades paulistas utilizando imagens de satélite do programa Landsat, referentes ao período entre 2013 e 2025. As análises revelaram contrastes extremos de temperatura na Grande São Paulo. Durante o verão, áreas urbanizadas mais críticas chegaram a registrar até 60 °C na superfície, temperatura semelhante à encontrada em grandes galpões industriais. Em contrapartida, regiões com maior presença de árvores e corpos d’água mantiveram temperaturas próximas de 25 °C.
O levantamento também mostrou que, durante os meses mais quentes, as áreas urbanizadas registraram temperaturas entre 7 °C e 12 °C superiores às regiões mais arborizadas. Segundo Rocha, o fenômeno não se limita às metrópoles. Pequenas cidades do interior paulista também apresentam ilhas de calor consolidadas.
Os pesquisadores observaram ainda que as áreas mais críticas se concentram no nordeste do Estado de São Paulo, região marcada pela expansão do cultivo de cana-de-açúcar, além de zonas densamente povoadas da Região Metropolitana de São Paulo.
Para compreender melhor os impactos das ondas de calor no cotidiano da população, os cientistas iniciaram um novo projeto em parceria com o programa municipal "Sampa Adapta", coordenado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. A iniciativa monitora a temperatura do ar em escala regional e local, incluindo medições feitas em ruas, residências e escolas.
O trabalho utiliza dados coletados por 25 estações meteorológicas instaladas ao nível da rua e em ambientes internos, além de dezenas de equipamentos operados pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Defesa Civil paulista.
As medições indicam que, nos últimos 15 anos, as ondas de calor passaram a provocar tardes com temperaturas entre 30 °C e 34 °C em diversos pontos da Região Metropolitana. À noite, por volta das 22h, os termômetros frequentemente ainda marcam cerca de 28 °C.
Cenário preocupa
Segundo Rocha, o cenário observado é especialmente preocupante porque coincide com o período de descanso da população. Em muitas residências, a sensação térmica se torna ainda pior devido à falta de isolamento adequado. Após dias consecutivos de calor intenso, as construções acumulam calor durante o dia e permanecem aquecidas à noite, funcionando como "pequenos fornos", nas palavras do pesquisador.
Os estudos também reforçam a importância das chamadas soluções baseadas na natureza para reduzir o aquecimento urbano. Experimentos realizados pelos pesquisadores mostram que ruas arborizadas podem registrar temperaturas até 7 °C menores do que áreas totalmente urbanizadas, criando o chamado "efeito oásis".
Para os cientistas, a ampliação da cobertura vegetal representa uma estratégia viável e eficiente para enfrentar eventos extremos de calor na capital e em outras cidades paulistas. Além de reduzir as temperaturas, a presença de árvores melhora a qualidade do ar, aumenta a retenção de água e contribui para o bem-estar da população. Durante o encontro promovido pela FAPESP, especialistas também destacaram a necessidade de preparar as cidades para cenários climáticos cada vez mais severos.










