Baleias-piloto que vivem no chamado Estreito de Gibraltar estão aumentando o volume de suas vocalizações para tentar se ouvir em meio ao ruído de navios que circulam pela região. Mas o que um novo estudo
apontou é que talvez esse esforço não seja suficiente para compensar os altos níveis de poluição sonora nesta que é uma das rotas marítimas mais movimentadas do planeta. Os pesquisadores envolvidos também destacam que tal comportamento é prejudicial para os animais, uma vez que a referida espécie é um tipo de golfinho extremamente social, que se comunica por meio de cliques, assobios e vocalizações.
O estudo, publicado no último dia 7 na revista Journal of Experimental Biology, contou com a participação de cientistas da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e de instituições da Espanha, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos.
Efeito Lombard
Segundo os autores do estudo, as baleias-piloto-de-barbatana-longa (Globicephala melas) analisadas apresentam um comportamento conhecido como “Efeito Lombard”. Também observado em humanos, esse é o fenômeno no qual os indivíduos falam mais alto para serem ouvidos em ambientes barulhentos.
De acordo com informações do portal Galileu, a equipe monitorou, entre os anos de 2012 e 2015, a atividade de 23 animais, por meio do uso de gravadores presos aos mamíferos com ventosas. Ao todo, os dispositivos registraram mais de 1.400 sons emitidos pelas baleias. Desses, 1.336 vocalizações de 18 indivíduos foram aproveitadas na pesquisa, que as dividiu em quatro categorias. São elas: sons de baixa frequência, sons de pulsos curtos, sons de alta frequência e sons de dois componentes.
Os pesquisadores também analisaram o ruído ambiente provocado pelos navios que passam pela região do Estreito de Gibraltar e constataram que estes variavam entre 79 e 144 decibéis, o equivalente a ruídos que vão desde o ambiente de um restaurante barulhento até o som de um aspirador de pó.
O estudo destaca que as baleias-piloto costumam emitir vocalizações que variam entre 94 e 160 decibéis. São bastante intensas, mas nem sempre conseguem superar o barulho dos navios. Os profissionais envolvidos na pesquisa também observaram que os mamíferos tentavam compensar a poluição sonora aumentando a intensidade de alguns sons. Esse comportamento, contudo, só foi identificado nos chamados de alta frequência e de pulsos curtos, que são mais suaves.
Chamados de baixa frequência
A fonte explica que, em contrapartida, os chamados de baixa frequência e os sons compostos por dois componentes não apresentaram aumento de volume. Segundo os pesquisadores, essas vocalizações conseguem percorrer distâncias maiores e parecem desempenhar um papel essencial para que as baleias reencontrem integrantes do grupo após mergulhos profundos em busca de alimento. Isso indica que esses animais possivelmente já estariam emitindo sons no limite máximo de intensidade para conseguir se comunicar.
Em comunicado, Frants H. Jensen, coautor do estudo, afirmou que “o aumento do ruído diminui o alcance efetivo da comunicação”. Dessa forma, explicou ele, as baleias-piloto precisam permanecer mais próximas umas das outras para conseguirem se ouvir.
A revista Discover destaca ainda que, durante a pesquisa, os cientistas observaram que as baleias vocalizam com menor frequência em períodos de maior barulho provocado por embarcações. Como não havia dados suficientes para aprofundar a análise desse comportamento, os pesquisadores levantam a hipótese de que os animais optem por evitar a emissão de sons em situações de ruído extremo.
Os autores do estudo concluem que as baleias-piloto conseguem se adaptar apenas parcialmente ao aumento da poluição sonora causada pelos navios e destacam que compreender melhor os impactos ecológicos desse fenômeno será essencial para reduzir os prejuízos que o excesso de ruído provoca na comunicação desses animais.












