Antes mesmo dos espanhóis chegarem às Américas, por volta do ano 1.000 a 1.400, o Reino de Chincha era uma das principais potências da América. Ali, na costa Sul do Peru, um acúmulo de fezes de aves possibilitou
um comércio inesperado.
O material acumulado ao longo do tempo, nomeado de guano, em português: adubo, rico em nitrogênio e fósforo, era peça fundamental na agricultura andina da primeira metade do segundo milênio .
A composição
Primeiramente é necessário compreender o que é o guano, do quéchua wánu, que significa “adubo”, e a razão de sua importância para os Chicha. Antes de tudo, é um material composto pelos dejetos de aves-marinhas nas Ilhas Chincha, localizadas a 25 quilômetros da costa peruana.
Assim, desde colônias de pelicanos, corvos marinhos guanay, pinguins até gaivotas compartilhavam o espaço e depositavam, naquela instância, suas fezes. Devido a variedade de animais e de suas fontes de alimentação, as fezes continham uma grande diversidade de nutrientes bons para o solo.
Conforme o estudo lançado na revista científica PLOS One, o acúmulo durante milhares de anos possibilitou a ‘construção’ de verdadeiras montanhas de fezes. Tal qual os sambaquis brasileiros.
Esse material acumulado, mais rico em fósforo e nitrogênio do que os adubos terrestres, foi peça chave para impulsionar a produção agrícola, o comércio e a posição estratégica da sociedade chincha dentro do Império Inca.
Em uma entrevista ao The Conversation, os autores do estudo dizem:
Graças ao clima seco e quase sem chuva, o guano das aves marinhas não se desfaz, mas continua se acumulando até alcançar vários metros de altura”
O Reino de Chincha
A cultura, desenvolvida antes mesmo do Império Inca, baseou-se na ligação dos homens com a agricultura e a natureza. Dessa forma, os homens daquele tempo sabiam as épocas adequadas para a extração do material do solo.
Em épocas de nidificação, em que os pássaros constroem seus ninhos, era acusado de pena de morte aqueles que coletassem o material indevidamente. Dessa forma, o ciclo humano e o ciclo da natureza andavam lado a lado.
Conforme os relatos de Francisco Pizarro, colonizador espanhol responsável pela região andina, os líderes dos Chinchas eram da mais alta classe dentro do Império Inca. Desse modo, súditos se organizavam para transportar o líder nos braços.
Sob o mesmo ponto de vista, Jacob Bongers, da Universidade de Sydney, um dos autores do artigo, em pronunciamento comentou:
O acesso privilegiado a um recurso crucial é um caminho para o poder, algo que neste caso o Reino de Chincha possuía, e o Império Inca não. [...] A mudança social pode ter surgido de uma fonte surpreendente: os excrementos de aves. É uma história fascinante.”
Ademais, os arqueólogos e historiadores sobre o assunto, afirmam que provavelmente, agricultores, pescadores e comerciantes locais dependiam do material há mais de 800 anos.
Assim, devido à alta fonte de material orgânico e, consequentemente, alimento, o vale de Chincha chegou a ter mais de 100 mil pessoas. Desse modo, a quantidade de pessoas e alimentos possibilitou que os Chinchas alcançassem altas posições sociais no Império Inca.
Vale destacar que essas informações só puderam chegar até nós através da preservação da cultura material peruana. Vestidos, tapetes, placas de metal, construções e demais itens foram essenciais para os historiadores reconstruírem esse momento histórico há muito apagado.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes











