A influência humana sobre a vida selvagem pode ir muito além do desmatamento, da construção de estradas ou de outras transformações físicas da paisagem. Um novo estudo publicado no dia 21 de maio na revista
Science sugere que a simples presença de pessoas já é suficiente para para alterar o comportamento de diversas espécies animais.
A pesquisa analisou dados coletados antes e durante os bloqueios da covid-19, período que ficou conhecido entre os cientistas como "antropausa" devido à drástica redução da mobilidade humana. Os resultados indicam que a atividade modificou a forma como a maioria das 37 espécies estudadas interagiu com o ambiente ao redor.
Pandemia criou uma oportunidade rara
O trabalho faz parte da iniciativa da Bio-Logging Covid-19, um esforço internacional criado para investigar como as restrições impostas durante a pandemia afetaram a vida selvagem.
Para isso, pesquisadores compararam dados de rastreamento por GPS de mais de 4.500 animais individuais, incluindo 22 espécies de aves e 15 espécies de mamíferos, com dados anônimos de localização de celulares nos Estados Unidos. O estudo avaliou informações coletadas entre janeiro e agosto de 2019 e de 2020.
Além de medir o espaço percorrido pelos animais, os cientistas também analisaram a diversidade da habitats ocupados por cada espécie. Paralelamente, utilizaram dados de telefonia móvel para estimar quantas pessoas estavam presentes em diferentes regiões do país.
Reações distintas
Os resultados mostram que cerca de dois terços das espécies analisadas alteram o tamanho da área utilizada ou modificaram seu nicho ambiental durante os períodos avaliados.
As respostas porém, variaram bastante entre os animais. Segundo o estudo, a presença levou os corvos comuns a expandirem sua área de atuação em cerca de dez milhas por semana para cada indivíduo monitorado. Já os coiotes apresentaram o comportamento oposto, reduzindo seu alcance em aproximadamente quatro milhas quadradas.
Os pesquisadores também observaram diferenças na forma como as espécies utilizavam os habitats disponíveis. Enquanto os corvos diminuíram suas interações com diferentes ambientes e recursos em cerca de 46% , os pumas ampliaram as suas em aproximadamente 10%.
Impactos maiores da presença humana
Outro resultado chamou atenção dos cientistas. Os efeitos da presença da raça humana foram mais intensos em ambientes menos alterados, como parques nacionais, e menores em áreas mais urbanizadas e desenvolvidas.
Segundo os autores, isso pode indicar que animais que vivem em regiões mais naturais são mais sensíveis à presença humana ou que espécies habituadas a ambientes modificados já ajustaram seus comportamentos ao longo do tempo.
Embora os pesquisadores ainda não saibam se essas mudanças representam uma adaptação bem sucedida ou uma resposta a pressões causadas pelos seres humanos, eles defendem que futuros planos de conservação consideram não apenas as alterações físicas na paisagem, mas também a simples presença de pessoas. Para os autores, compreender os dois fatores é essencial para entender o impacto humano sobre a vida selvagem.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes











