Um surto incomum de hantavírus registrado a bordo do navio de expedição polar M.V. Hondius chamou a atenção das autoridades de saúde internacionais nas últimas semanas. O caso vem sendo acompanhado de perto
por especialistas, em especial da Organização Mundial da Saúde, que levantou questões sobre o potencial de disseminação da doença e reacendeu o temor de uma nova ameaça epidêmica global.
Até o momento, oito casos ligados ao navio foram identificados, sendo que três resultaram em morte. Como a própria OMS destaca, o vírus envolvido no surto é o chamado vírus Andes, uma variante rara do hantavírus.
Mas afinal: o que é esse vírus? Existe risco real de pandemia? E por que os cientistas estão monitorando esse episódio com tanta atenção?
O que é hantavírus?
De acordo com uma matéria do portal National Geographic, o hantavírus pertence à família Hantaviridae, formada por vírus transmitidos principalmente por roedores. Os animais infectados normalmente não adoecem, mas eliminam o vírus pela urina, fezes e saliva.
A infecção humana geralmente acontece quando partículas contaminadas são inaladas. Isso pode ocorrer durante limpezas de locais fechados, celeiros, depósitos, áreas rurais ou ambientes com presença de ratos. Também há risco ao tocar superfícies contaminadas e depois levar a mão aos olhos, nariz ou boca.
Vale destacar que existem mais de 40 tipos conhecidos de hantavírus no mundo, os quais são divididos em dois grandes grupos: os do "Velho Mundo", comuns na Europa e Ásia, e os do "Novo Mundo", encontrados nas Américas. As variantes europeias e asiáticas costumam provocar problemas renais e hemorragias. Já as americanas frequentemente causam uma forma grave de síndrome pulmonar, levando ao acúmulo de líquido nos pulmões.
Mas os casos não ocorrem de maneira uniforme ao redor do planeta. Estima-se que entre 1 mil e 100 mil infecções sejam registradas anualmente, com a maior parte concentrada na Ásia e na Europa. Já nas Américas, os números são bem menores: cerca de 150 a 300 casos por ano, principalmente na Argentina, Brasil, Chile e Bolívia.
Como começou o surto?
O alerta internacional começou após casos surgirem entre passageiros do M.V. Hondius, embarcação de expedição polar que viajava da Argentina para as Ilhas Canárias.
Os pacientes apresentaram inicialmente febre e sintomas gastrointestinais, mas alguns evoluíram rapidamente para pneumonia grave e colapso cardiovascular. Entre os oito casos confirmados até agora, três pessoas morreram e uma permanece em estado crítico.
O navio acabou ficando retido depois de ter autorização de desembarque negada em Cabo Verde. Passageiros seguem confinados em cabines enquanto as autoridades investigam a cadeia de transmissão.
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Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images[/caption]
O episódio chamou atenção porque surtos de hantavírus associados a navios de cruzeiro são extremamente raros. Especialistas, inclusive, afirmam que nunca haviam visto algo semelhante envolvendo esse tipo de embarcação.
O vírus pode ser transmitido entre humanos?
Na maioria das vezes, não.
Grande parte dos hantavírus só consegue passar dos roedores para seres humanos. Porém, o vírus Andes, identificado no surto atual, representa uma exceção importante. Surpreendentemente, essa variante, presente sobretudo na Argentina, Chile e Uruguai, consegue se espalhar entre pessoas em determinadas circunstâncias.
Segundo pesquisadores, o vírus não se comporta como doenças altamente contagiosas, como COVID-19 ou sarampo. Ele não permanece suspenso no ar por longos períodos. Na verdade, a transmissão normalmente ocorre entre parceiros, familiares próximos ou pessoas que compartilham ambientes.
"Quando há pessoas a dormir na mesma cama, ou parceiros sexuais, ou pessoas a partilhar comida, o vírus pode transmitir-se dessa forma. Mas não se transmite a grandes grupos de indivíduos", afirma o imunologista Steven Bradfute, pesquisador da Universidade do Novo México.
Existe risco de pandemia?
Por enquanto, especialistas consideram o risco baixo.
A própria OMS afirmou recentemente que a ameaça ao público geral permanece limitada. Isso acontece porque o hantavírus, mesmo na variante Andes, apresenta baixa eficiência de transmissão entre humanos. Como destaca Bradfute, o vírus "se transmite muito mal", apesar de ser perigoso.
Os cientistas também observam que regiões com alta circulação do vírus entre roedores continuam registrando relativamente poucos casos humanos todos os anos. Em partes do sudoeste dos Estados Unidos, por exemplo, cerca de um quarto dos roedores analisados carregam hantavírus, mas apenas alguns casos humanos são registrados anualmente.
E quanto à taxa de mortalidade?
Embora não seja facilmente transmissível, o hantavírus preocupa pela gravidade dos quadros clínicos.
Nas variantes europeias e asiáticas, a taxa de mortalidade costuma variar entre 1% e 15%. Já nas Américas, especialmente nas formas pulmonares causadas por variantes do Novo Mundo, aproximadamente metade dos casos pode ser fatal.
Os sintomas iniciais geralmente incluem:
- febre;
- dores musculares;
- fadiga;
- náusea;
- vômitos;
- diarreia.
Nos casos mais graves, o quadro evolui rapidamente para dificuldade respiratória, pneumonia e até mesmo falência cardiovascular.
Por que os cientistas seguem atentos?
Mesmo sem sinais de uma pandemia iminente, o surto atual despertou preocupação porque envolve uma cepa rara, transmissível entre humanos e registrada em um ambiente fechado, com grande circulação de pessoas.
Além disso, o vírus Andes ainda é pouco compreendido e os pesquisadores seguem determinados a descobrir por que ele consegue escapar das barreiras naturais presentes na saliva humana que normalmente impedem outros hantavírus de se espalhar entre pessoas.
Por enquanto, autoridades internacionais reforçam que o risco permanece controlado.












