Era início de tarde e o céu estava limpo quando a torre de controle do aeroporto de Kahului, na ilha havaiana de Maui, recebeu um chamado de "mayday". Do outro lado do rádio, um avião da Aloha Airlines
declarava emergência. Naquele momento, os controladores ainda não sabiam, mas estavam prestes a testemunhar um dos episódios mais marcantes da história da aviação.
A aeronave em questão era um Boeing 737-200 que operava voos curtos entre as ilhas do Havaí diariamente e que, naquele 28 de abril de 1988, já havia pousado e decolado de Maui minutos antes. A comunicação com a cabine, vale destacar, era difícil, já que o ruído era intenso e a copiloto relatou uma despressurização súbita, possivelmente causada pela abertura de uma porta.
Sem compreender totalmente a gravidade da situação, a torre autorizou prioridade para o pouso do voo 243. Inicialmente, o controlador sequer julgou necessário acionar equipes de emergência. Ainda assim, havia sinais de que algo mais sério estava acontecendo: a tripulação solicitou apoio médico e alertou para a possibilidade de um pouso sem o trem de pouso dianteiro, cuja indicação no painel não havia acendido.
Nada, porém, preparou quem estava em solo para o que viria a seguir. Ao tocar a pista, o avião revelou um cenário extremo: cerca de 35 metros quadrados da fuselagem haviam sido arrancados, abrindo um rasgo de mais de cinco metros ao longo da cabine. Passageiros estavam presos apenas pelos cintos, expostos. Nunca uma aeronave comercial havia pousado com um dano estrutural tão severo.
Em solo
No solo, a dimensão do incidente ficou clara. Dos 94 ocupantes, 65 estavam feridos, sendo oito em estado grave, mas a maioria permanecia consciente. De acordo com o portal G1, todos os presentes haviam sobrevivido. Havia, contudo, um detalhe inquietante: o avião decolara com 95 pessoas a bordo.
Antes do acidente, poucos indícios apontavam para um problema. Uma inspeção havia sido feita ainda de madrugada, sem detectar falhas. Na época, não havia exigência de checagens visuais antes de cada voo, e esse procedimento não era rotina da companhia.
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A aeronave em 28 de abril de 1988 - Crédito: Wikimedia Commons/Juerg Schmid[/caption]
O 737 da Aloha Airlines era um dos mais antigos em operação e havia sido entregue em 1969. Com quase 90 mil ciclos de decolagem e pouso, acumulava um desgaste elevado, especialmente por operar em voos curtos e frequentes, sob condições de calor e umidade.
Naquele dia, a aeronave já havia realizado diversos trechos antes do voo entre Hilo e Honolulu, com duração prevista de cerca de 50 minutos. Durante o embarque, uma passageira chegou a notar sinais de corrosão na fuselagem, detalhe que mais tarde se mostraria crucial.
Pouco após atingir a altitude de cruzeiro, a cerca de 7.300 metros, um estrondo rasgou o ar. Em segundos, ocorreu uma descompressão explosiva que arrancou parte do teto e das laterais do avião. Subitamente, um vendaval tomou conta da cabine, lançando objetos, bagagens e detritos. O barulho era ensurdecedor, e a comunicação se tornou quase impossível.
Momentos desesperadores
Entre os passageiros, o choque foi imediato. Uma comissária foi arremessada ao chão e socorrida. Outra tentava ajudar enquanto se agarrava às poltronas. A terceira, chamada Clarabelle Lansing, desapareceu. Ela foi ejetada da aeronave e nunca foi encontrada.
Na cabine de comando, os pilotos agiram com precisão. Sem conseguir se comunicar verbalmente, recorreram a gestos. O comandante assumiu o controle e iniciou uma descida rápida para uma altitude segura, onde fosse possível respirar. As máscaras de oxigênio dos passageiros, destaca a fonte, nem mesmo chegaram a funcionar, já que os cabos haviam sido danificados.
Apesar do risco de agravar os danos estruturais, o comandante optou por uma descida mais veloz, priorizando o pouso imediato. A decisão contrariava protocolos, mas naquele cenário se mostrou crucial.
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Com a aeronave instável, um dos motores acabou falhando e havia incerteza sobre o trem de pouso dianteiro. Pouco antes do toque na pista, porém, a torre confirmou visualmente que o trem estava baixado.
Treze minutos após a explosão, o avião pousou em Kahului. Foi um feito extraordinário.
Uma série de fatores
Uma investigação realizada posteriormente revelou uma combinação de fatores, tais como fadiga estrutural, corrosão agravada pelo ambiente e mesmo falhas de manutenção, que teriam provocado o incidente. Além disso, nos primeiros modelos do 737, um tipo específico de adesivo nas junções da fuselagem podia se deteriorar, especialmente em condições adversas, o que contribuiu para o rompimento. No fim, o caso trouxe mudanças importantes para a aviação e reforçou a necessidade de inspeções mais rigorosas e atenção ao envelhecimento das aeronaves.
Ainda assim, a sobrevivência da maioria a bordo envolveu uma série de circunstâncias improváveis: a primeira delas se constituiu no fato de que a descompressão se deu em um momento em que os passageiros ainda usavam cintos, o que ajudou a mantê-los na aeronave. Outro ponto foi que, apesar dos danos, os pilotos mantiveram controle suficiente para manobrar. Mesmo a rápida ação do comandante Schornstheimer, que arriscou ao descer rapidamente, foi fundamental, já que a alta velocidade poderia ter desintegrado o avião, segundo a NTSB. Além disso, também deve-se destacar que o acionamento do trem de pouso dianteiro foi importantíssimo e evitou um pouso mais perigoso. Por fim, as condições climáticas ajudaram: afinal, naquele momento, não havia os ventos instáveis comuns na pista de Kahului.
O episódio ficou conhecido mundialmente como um "pouso milagroso", título que inspirou, inclusive, um filme lançado poucos anos depois.












