No início do mês, 45 mil oncologistas do mundo se reuniram para o encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês).
O congresso, considerado o maior evento sobre câncer do mundo, apresentou possíveis novos tratamentos para diversos tipos da doença.
O grande destaque foi o daraxonrasibe, medicamento que dobrou a sobrevivência de pessoas com câncer de pâncreas, considerado um dos mais difíceis de tratar. “É interessante pois ele abre perspectivas não só para o pâncreas, mas para pulmão, intestino e outros tumores”, comenta o oncologista Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or.
Também ganharam os holofotes trabalhos sobre canetas emagrecedoras e diminuição do risco de metástases, avanços em câncer de pulmão, biópsia líquida e novos paradigmas que podem evitar tratamentos desgastantes em mulheres com câncer de mama.
A seguir, saiba mais sobre essas descobertas.
O estudo com câncer de pâncreas que foi aplaudido de pé
A pesquisa que mais chamou a atenção, de longe, foi o estudo de fase 3 do daraxonrasibe, nova terapia-alvo contra o câncer de pâncreas. No trabalho, voluntários em estágio avançado que receberam o medicamento tiveram uma sobrevida de pouco mais de 13 meses enquanto os que receberam apenas o tratamento padrão viveram cerca de 6 meses.
É um feito inédito para esse tipo de tumor, que é de difícil tratamento. O interessante aqui é que esse fármaco resolve um desafio antigo da oncologia, que era desenvolver terapias eficazes contra uma proteína chamada RAS, envolvida em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Existem muitas mutações da RAS associadas ao câncer, mas poucas delas eram tratáveis até então. O daraxonrasibe, em estudos, demonstrou uma ação “pan”-RAS – isto é, parece efetivo contra várias dessas possíveis vias moleculares.
“Além do resultado expressivo na sobrevida destes pacientes, o estudo aponta que rompemos definitivamente a dificuldade de ‘drogar’ o RAS”, aponta Hoff. E vale reforçar que a RAS não é um problema só nos tumores de pâncreas, mas intestino, pulmão e diversos outros.
Não à toa, o estudo foi aplaudido de pé e alguns médicos na plateia ficaram com os olhos cheios de lágrimas.
Canetas emagrecedoras reduzem risco de metástase?
Este estudo não foi apresentado na sessão principal do encontro da Asco, mas roubou a cena. Trata-se de uma pesquisa feita com dados de mais de 12 mil pessoas diagnosticadas com tumores relacionados à obesidade – como mama, pulmão e colorretal, entre outros – e fazendo tratamento para obesidade ou diabetes.
Os voluntários foram divididos em dois grupos: pessoas que tomaram os agonistas de GLP-1 – as populares canetas emagrecedoras – e as que receberam outra classe de medicamentos para diabetes. E aí os cientistas acompanharam a evolução do tumor entre eles.
No fim da análise, os resultados surpreenderam: a incidência de metástases – quando o câncer se agrava e se espalha para fora de seu local de origem – foi menor entre quem tomava as canetas. No caso do câncer de pulmão, o risco caiu pela metade. Para mama, redução de 43%, e, nos tumores de fígado e intestino, 38% e 31%, respectivamente.
Mas ainda é preciso investigar melhor tal efeito. Primeiro, porque o trabalho é retrospectivo: ou seja, apenas observou dados que já haviam sido coletados, o que pode reduz a confiabilidade do achado. Segundo, falta entender os mecanismos por trás de tal benefício.
“Não sabemos se a proteção ocorre pelo emagrecimento e redução da insulina circulante, que também estimula o crescimento tumoral, ou se a medicação tem algum efeito direto”, pontua Hoff.
Novidades para o câncer de pulmão
O câncer que mais mata no Brasil – e é também a quinta maior causa de morte no mundo – tem passado por uma revolução no seu tratamento.
À medida em que mutações genéticas e características moleculares associadas a ele são descobertas, o câncer de pulmão ganha nome e sobrenome, bem como terapias desenvolvidas para cada uma dessas alterações.
Na Asco, dois estudos se destacaram neste sentido. O primeiro avaliou o selpercatinibe, uma terapia-alvo para tumores com uma alteração específica no gene RET, ligado a diversos tipos da doença. Neste trabalho, foram analisados indivíduos com essa mutação e diagnóstico de câncer de pulmão em estágio inicial.
Os indivíduos que receberam o novo medicamento tivram uma sobrevida livre de eventos como progressão, recidiva ou morte de 94%, versus 70% no grupo que tomou um placebo. “É uma melhora substancial, mostrando que, com essas subdivisões moleculares, poderemos aumentar o número de pacientes curados”, destaca Hoff.
Outro trabalho avaliou a terapia alvo lorlatinibe contra o câncer de pulmão ALK-positivo (ALK é outra mutação genética) já com metástases.
Com um tempo de acompanhamento mais longo, os dados mostraram que mais da metade (55%) dos indivíduos tratados seguiram com a doença controlada após sete anos. No grupo que recebeu outro medicamento, a taxa foi de 3%. É um resultado inédito na oncologia.
+Leia também: Câncer de pulmão: a metamorfose de uma doença
Evitando tratamentos desnecessários no câncer de mama
Seguindo uma tendência já observada há alguns anos, dois novos achados reforçaram que nem toda mulher com câncer de mama precisa de terapias mais ostensivas.
A pesquisa Optima testou os efeitos de um teste genético que avalia se a paciente diagnosticada com a doença se beneficia ou não da quimioterapia. Mais de 4 mil voluntárias foram incluídas, e elas foram acompanhadas em média por quatro anos.
O exame avalia genes envolvidos no risco da doença voltar, e foi aplicado em mulheres consideradas de alto risco clínico e com subtipos específicos da doença. Quem tinha um resultado considerado mais seguro no teste genético pôde fazer somente o tratamento hormonal.
No fim da análise, as taxas de sobrevivência foram as mesmas entre as que receberam a indicação da químio com base no novo exame e nas que deixaram de fazer esse tratamento por serem consideradas de baixo risco genético.
Na mesma linha, uma pesquisa avaliou cerca de 2 mil mulheres com metástase nos linfonodos sentinela – glândulas próximas à axila que podem ser atingidas pelo câncer de mama – por cinco anos.
Nesse cenário, geralmente a mulher faz uma cirurgia para retirar os nódulos, o que acaba deixando sequelas prejudiciais ao funcionamento do braço. A pesquisa avaliou o que acontecia ao deixar de fazer o procedimento. Ao fim de 5 anos, as taxas de mortalidade foram as mesmas em quem foi ou não operada.
Avanços (e um revés) na biópsia líquida
A biópsia líquida é uma estratégia muito cobiçada pela medicina, pois permite acompanhar o câncer pelo sangue. Seja o já diagnosticado ou o que ainda nem deu sinais gritantes de vida.
Há alguns anos, o Reino Unido anunciou que testaria um exame deste tipo, capaz de flagrar sinais de dezenas de tipos de câncer. A ideia era fazer um rastreamento em massa da população para agilizar diagnósticos e encontrar tumores anos antes de eles se manifestarem.
Pois, no encontro da Asco, foram apresentados os primeiros resultados dessa empreitada, no estudo. E o teste falhou em seu objetivo de mudar a taxa de diagnósticos tadios. Não se trata, contudo, de um balde de água fria.
“Mas a pesquisa mostrou que a plataforma consegue identificar os sinais de câncer. Não é uma eficácia de 100%, mas a sensibilidade pode beirar os 60%. É uma assertividade interessante para rastreamento”, pondera Pedro Uson, oncologista do Einstein Hospital Israelita.
O congresso também trouxe avaliações de biópsias líquidas para verificar se pessoas que operaram de um câncer de intestino ainda têm resquícios da doença mesmo com exames de imagem negativos. Neste caso, se busca o DNA tumoral circulante (material genético do tumor que escapa para a corrente sanguínea).
Aqui, as notícias são melhores. Dois estudos mostraram que pacientes com esse marcador tinham um risco muito alto de a doença voltar pós-cirurgia. “Então você conseguiu reduzir o risco da recidiva aplicando a quimioterapia neste grupo”, diz Uson.
Outras pesquisas apresentaram resultados positivos com essa estratégia para acompanhar a evolução do câncer em estágio avançado. “Ela indicou resposta ao tratamento ou progressão até meses antes dos exames de imagem acusarem alguma coisa”, explica Uson.
Algumas biópsias líquidas já estão disponíveis no mercado, mas ainda há muitas perguntas a serem respondidas antes que elas entrem de forma rotineira na prática clínica.













