O Brasil já soma mais de 20 mil casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) causados por vírus respiratórios em 2026. Não o bastante, com o outono
instaurado e o inverno se aproximando, gripes e resfriados tendem a aumentar ainda mais esses números.
Nesse cenário, para tentar afugentar as viroses, muita gente recorre a chás milagrosos, vitaminas efervescentes e até ao clássico "evitar friagem".
Mas essas estratégias populares, em geral, não têm muito efeito (nem para evitar as doenças, nem para impedir que se agravem).
Assim, a principal barreira continua sendo a vacinação. Mas uma boa proteção respiratória também pode ser encontrada em uma prática que remonta a milhares de anos: a lavagem nasal.
E não é exagero. Acredita-se que o conceito tenha sido introduzido como parte do Ayurveda, um sistema de medicina alternativa que nasceu na Índia há mais de cinco mil anos.
Agora, a ciência moderna começa a demonstrar que essa prática ancestral realmente funciona contra infecções respiratórias e reduz o agravamento de doenças. Inclusive, alguns estudos avaliam até mesmo o seu potencial antiviral.
“Lavar o nariz não é um cuidado excessivo. É uma forma muito simples de ajudar o próprio sistema respiratório a fazer o seu trabalho, que é deixar o corpo livre de substâncias nocivas”, comenta o infectologista Alexandre Naime, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
O que diz a ciência
A lavagem, ou irrigação, nasal consiste em um conjunto de técnicas que tem o objetivo de limpar, hidratar as mucosas e desobstruir as vias aéreas, removendo o excesso de muco, poeira ou outras impurezas.
Ela pode ser feita com conta-gotas, seringas, garrafinhas compressíveis, sprays, entre outros dispositivos, que possibilitam diferentes técnicas e resultados.
Em 2024, um estudo com quase 14.000 pessoas, financiado pelo Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Cuidados do Reino Unido, concluiu que o uso de um spray nasal simples à base de solução salina, de três a seis vezes ao dia, ao primeiro sinal de infecção, reduziu a duração de resfriados em cerca de 20%, bem como diminuiu a necessidade de uso de antibiótico nesses casos.
Os indivíduos elegíveis tinham 18 anos ou mais e apresentavam pelo menos uma comorbidade ou fator de risco para desfechos adversos decorrentes de infecções respiratórias; mais de 65 anos; ou histórico de pelo menos três infecções do trato respiratório em um ano.
Outra pesquisa parecida, publicada no ano passado, relatou benefícios semelhantes. Os cientistas dividiram os participantes em dois grupos, nos quais um adotou cuidados habituais em casos de resfriado, enquanto o outro usou spray nasal (tanto o antiviral quanto o apenas salino).
O grupo que fez a irrigação nasal somou ficou, em média, 18 dias doente ao longo ano, quatro dias a menos do que a média turma que seguiu com outros cuidados típicos. Quem usou a técnica também apresentou sintomas mais leves quando adoeceu.
Por que é tão bom lavar o nariz?
"Ao realizar a lavagem nasal, juntamente com o excesso de muco são removidos também vírus, bactérias e alguns alérgenos, reduzindo assim a carga de organismos patológicos capazes de provocarem infecções", explica Kamila Tolomei, pneumologista do Hospital Alvorada Moema, da Rede Américas.
A prática também acaba auxiliando a mucosa nasal à realizar uma das suas funções: a higiene das cavidades por meio dos movimentos dos cílios nasais, minúsculos pelinhos presentes no nariz.
"Com a melhora dos batimentos ciliares, o corpo se torna mais eficaz na sua resposta às infecções, além de limpar mecanicamente os possíveis patógenos", aponta.
Isso é especialmente importante nessa época do ano. O ar seco, a inflamação e infecções ressequem esse muco, deixando-o espesso e pegajoso. Daí, os cílios ficam presos, a limpeza trava e os vírus têm caminho livre.
“O nariz não é apenas a porta de entrada do ar. Ele filtra, aquece e lubrifica o ar inspirado. Por isso, tem um papel muito importante do ponto de vista imunológico, porque é a primeira linha de defesa contra vírus, bactérias e outras partículas ambientais”, reforça Naime.
Quando a mucosa nasal está muito ressecada ou inflamada, ela não funciona como barreira. "Então, a solução salina ajuda a restaurar esse ambiente mais úmido, e mais favorável para a defesa local", explica o médico.
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Além disso, com o uso de soluções hipertônicas (versões salinas mais concentradas), você pode ter um efeito ainda melhor, puxando a água para a superfície da mucosa e ajudando, inclusive, a descongestionar.
Lavagem não faz milagre
Naime faz ressalvas: "cientificamente, não podemos dizer que a lavagem nasal evita gripe e resfriado de maneira direta". E nem que ela em si mata os vírus.
O médico lembra que alguns estudos até sugerem que a solução salina pode estimular a produção de substâncias com potencial antiviral e dificultar a replicação dos vírus em uma mucosa bem hidratada, mas, por enquanto, tudo é apenas hipótese.
"São mecanismos em estudos experimentais, sem evidência clínica em seres humanos", afirma.
Ainda assim, ela continua útil. "Auxilia demais, principalmente como medida de alívio sintomático e redução da duração da intensidade de algumas infecções respiratórias altas", afirma o médico.
"A solução salina reduz a carga de secreção, melhora a limpeza nasal e torna a infecção respiratória menos sintomática em grande parte das pessoas", resume.
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Como fazer lavagem nasal
Em primeiro lugar, embora a população recorra mais a sprays e gotas, os métodos de alto volume tendem a ser mais eficazes.
“Jato contínuo, seringa e dispositivos como as garrafinhas promovem uma limpeza mais ampla da cavidade nasal, principalmente quando há secreção ou obstrução importante”, explica Naime.
A exceção são os bebês pequenos, para quem conta-gotas e sprays são mais recomendados. De todo modo, os médicos destacam que o melhor método é sempre aquele que o paciente consegue fazer corretamente e com segurança.
A recomendação é iniciar a lavagem nasal logo nos primeiros sinais de sintomas, como resfriado, congestão nasal, coriza ou irritação.
E o ideal é utilizar soro fisiológico 0,9% em temperatura ambiente ou levemente morna. Soluções geladas devem ser evitadas, pois podem causar desconforto.
Durante o procedimento, deve-se inclinar o corpo para frente, com a cabeça levemente inclinada para baixo ou para o lado, sobre uma pia, mantendo a boca aberta.
Em geral, recomenda-se o uso de cerca de 60 a 120 ml por narina. Por fim, após a lavagem, é melhor evitar assoar o nariz imediatamente.
Um método amigo
Depois de aprender mais sobre o método, vale pensá-lo como um aliado do cotidiano. "A lavagem nasal não é indicada apenas na presença de infecções. Trata-se de um procedimento que pode ser incorporado à rotina para ajudar na prevenção de problemas respiratórios”, conclui Tolomei.
Apesar disso, os médicos reforçam também que a lavagem nasal não substitui vacinas como método de prevenção de doenças.
Segundo Naime, também se deve considerar que seguem importantes a higiene das mãos, uso da máscara e a ventilação de ambientes em caso de circulação de vírus, além de, obviamente, a avaliação médica.
“Então, fica bastante claro que a lavagem com soro fisiológico não é uma cura milagrosa, mas ela é plausível e bastante útil no dia a dia. É uma intervenção de baixo custo, baixo risco e extremamente fácil de fazer”, destaca o médico.












