Preguiçoso, irritável, equilibrado, desregulado. O intestino tem personalidade própria — e não é para menos. Ele é o protagonista de uma rede de cerca
de 500 milhões de neurônios responsáveis por controlar os movimentos e as sensações em meio à digestão, à absorção de nutrientes e à excreção do que sobrou.
“É o sistema nervoso entérico, uma malha independente mas também intimamente ligada ao sistema nervoso central, que estabelece uma comunicação contínua entre o intestino e o cérebro”, retrata o gastroenterologista Jaime Gil, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. Não à toa, o órgão foi apelidado de “segundo cérebro”.
Mas nem tudo são flores. Como em qualquer relacionamento, as partes podem se desentender. E é nesses conflitos que surge uma dor abdominal ali, uma má digestão acolá — mesmo sem motivo aparente.
“São os distúrbios da interação intestino-cérebro, um conjunto de doenças relacionadas, principalmente, a problemas na motilidade e na hipersensibilidade do aparelho digestivo, e explicadas por alterações na percepção do sistema nervoso”, define Maria do Carmo Friche Passos, ex-presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG).
À primeira vista, o nome pode parecer nebuloso, mas você certamente já deparou com alguns dos diagnósticos desse grupo ou conhece alguém que convive com eles.
No rol estão a síndrome do intestino irritável, a constipação crônica, a dispepsia funcional (popularmente conhecida como gastrite nervosa), a doença do refluxo gastroesofágico, entre outros.
Nos últimos anos, médicos e cientistas têm feito avanços significativos na compreensão dessas condições e de outros fatores que influenciam a dupla dinâmica intestino-cérebro.
Nesta reportagem, você vai ler sobre:
- Classificação atualizada
- Não é coisa da sua cabeça
- Novas (velhas) formas de diagnosticar
- Microbiota no auge
- Tratamentos para o eixo intestino-cérebro
- Para melhorar o fluxo
- Síndrome do intestino irritável (SII)
- Constipação crônica
- Dispepsia funcional
- Doença do refluxo gastroesofágico
- Inchaço Abdominal Funcional
- Migrânea abdominal
+ Leia também: O eixo intestino-cérebro: uma rota fascinante de descobertas
Classificação atualizada
Coroando essa investida, acabam de ser publicados os Critérios de Roma V, a quinta edição do documento que orienta especialistas a diagnosticar o que aflige milhões de pessoas que chegam aos consultórios todos os dias com queixas como dor abdominal, azia, constipação, diarreia e excesso de gases — sem nenhuma infecção, lesão ou presença de tumores associados.
“Essa é uma característica essencial dos distúrbios da interação intestino-cérebro: a ausência de traumas ou de patógenos como causa clara dos sintomas”, destaca Gil.
Muitas vezes, os pacientes sofrem com desconfortos frequentes e limitantes, mas, ao realizar exames como endoscopia ou colonoscopia, não há achados que expliquem as queixas.
“Isso não quer dizer que as dores são ‘coisa da cabeça da pessoa’ ou um problema emocional e que não precisam de atenção”, ressalta o médico, que atua também na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “São desordens na forma como os estímulos são percebidos, mas ainda não temos a tecnologia para determinar como isso acontece.”
Até lá, novas definições nos ajudam a entender essa complexa relação.
Não é coisa da sua cabeça
Uma das principais novidades do Roma V é o abandono da classificação de “funcional” para essa lista de problemas — reflexo de um maior entendimento sobre a conexão entre intestino e cérebro.
“O termo ‘funcional’ passou a ser associado a algo ‘não orgânico’, psiquiátrico ou até mesmo ilegítimo”, justificam os autores da diretriz.
Por muito tempo, essas condições foram chamadas de distúrbios gastrointestinais funcionais — até que, há uma década, foram rebatizadas com atenção ao papel do sistema nervoso. E esse processo ainda não acabou.
Na publicação deste ano, a constipação mudou de sobrenome: agora é crônica, e não mais funcional.
Por outro lado, a dispepsia, outro diagnóstico muito comum, que aflige o estômago, continua na família dos “funcionais”.
Novas (velhas) formas de diagnosticar
O que muda, em linhas gerais, é que, agora, os pacientes não precisarão passar por uma extensa bateria de exames para excluir outras causas para os desconfortos, caso não tenham nenhum sinal de alerta, como sangramentos e perda de peso inexplicada.
“É o que chamamos de diagnóstico positivo, feito com a escuta atenta dos sintomas e do histórico do paciente, além do exame clínico. Tudo realizado na própria consulta, de forma assertiva, e evitando testes desnecessários que não mudarão a conduta de tratamento — o que não quer dizer que exames complementares não poderão ser solicitados quando o caso sugerir maior gravidade”, esclarece Gustavo Drügg Hahn, gastroenterologista do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
Para Maria do Carmo Passos, será preciso superar a cultura dos exames em excesso.
“As pessoas pensam que o médico que não pede uma longa lista de exames não se importa com o caso, quando, na verdade, ocorre o oposto. O diagnóstico de inclusão requer atenção plena ao paciente: um exame físico muito bem executado e uma história altamente detalhada para garantir, com precisão, que não existe nenhuma outra patologia mascarada por trás dos sintomas.”
Segundo a gastro, membro da Academia Mineira de Medicina, essa via de raciocínio permite acertar o diagnóstico em 98% das vezes.
Microbiota no auge
A microbiota intestinal também ganhou notoriedade no documento, que foi elaborado por mais de 140 especialistas de 27 países.
“Estudos apontam que alterações na flora intestinal e nas moléculas que ela produz — como os ácidos graxos de cadeia curta, que têm um efeito positivo — influenciam diretamente a movimentação, o funcionamento e as respostas imunológicas do aparelho digestivo”, relata Hahn.
Por isso, desequilíbrios na nossa comunidade de micro-organismos podem ser gatilho para várias doenças. “O desequilíbrio enfraquece as defesas locais: pode reduzir a produção de muco intestinal, comprometer a barreira protetora, permitir a entrada de patógenos agressores e alimentar inflamações crônicas”, detalha o médico.
Tratamentos para o eixo intestino-cérebro
Em relação ao tratamento, as orientações estão mantidas: o uso de medicamentos prescritos precisa ser acompanhada por mudanças de hábitos, como adesão a uma alimentação mais saudável e prática regular de atividade física.
“Antiespasmódicos, inibidores de bomba de prótons, antieméticos e até alguns antidepressivos, usados como neuromoduladores, estão entre as classes que podem ser indicadas para o tratamento da síndrome do intestino irritável e de outros distúrbios da interação intestino-cérebro”, conta o coloproctologista Lucas Araújo Horcel, membro da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e da Sociedade Americana de Cirurgiões Colorretais.
No capítulo da dieta, sempre é importante manter um menu diversificado, rico em fibras e alimentos in natura ou pouco processados.
Também para quem tem um intestino irritável e está investigando a síndrome, pode-se tentar a exclusão temporária dos FODMAPs, acrônimo para uma série de açúcares e carboidratos fermentáveis que podem cutucar um intestino sensível demais.
“Mas isso é um processo periodizado, com início, meio e fim”, ressalta o nutricionista Caio Victor Coutinho, membro do Conselho Federal de Nutrição (CFN).
O objetivo é testar a tolerância individual e descobrir exatamente qual tipo de carboidrato desata os sintomas. “Após identificados, eles ficam restritos ou são consumidos em menor quantidade. Nada de restrições severas para sempre”, avisa o profissional.
Esse tipo de dieta, porém, não é indicado para qualquer problema gastrointestinal. Por isso, como prega o novo consenso, o acompanhamento individualizado é o que faz toda a diferença para o aparelho digestivo entrar no eixo.
Para melhorar o fluxo
Além do uso de medicamentos prescritos, bons hábitos aliviam a vida do sistema digestivo
Fibras no prato
Elas ajudam a aumentar o volume e melhorar a consistência das fezes. Aliadas contra a constipação.
Ultraprocessados
Evite produtos com muito açúcar, gordura e aditivos. As substâncias podem alterar a flora intestinal e se tornar gatilho para incômodos.
Exercícios físicos
Manter o corpo em movimento tem efeito anti-inflamatório no eixo intestino-cérebro. Melhora a motilidade e a microbiota.
Higiene do sono
Noites maldormidas atrapalham a produção de neurotransmissores dos dois sistemas nervosos, além de piorar a alimentação.
Hidratação em dia
Tomar, no mínimo, 2 litros de água diariamente ajuda a manter o trânsito intestinal e evita desequilíbrios.
Síndrome do intestino irritável (SII)
O que é:
Distúrbio marcado por desconforto abdominal, alterações do hábito intestinal, sensação de que não houve esvaziamento completo após evacuar, inchaço na barriga, excesso de gases, entre outros sintomas — tudo sem apresentar lesões ou inflamações no intestino.
O que mudou:
O desconforto abdominal voltou a fazer parte dos critérios diagnósticos. Além disso, o incômodo deve aparecer por pelo menos três dias no mês, ao longo de um trimestre — antes era uma vez por semana no mesmo período.
Outra mudança é que o desconforto abdominal deve ser recorrente, mas não contínuo. A continuidade é uma característica de outra condição, a dor abdominal mediada centralmente.
Constipação crônica
O que é:
Condição caracterizada pela dificuldade de fazer cocô. Pode ser acompanhada de fezes muito duras, sensação de bloqueio na área do reto e de evacuação incompleta, além da necessidade do uso de laxantes. Ao contrário da SII, não é muito comum que haja dor abdominal.
O que mudou:
O nome foi alterado. Até a quarta edição dos Critérios de Roma, a condição era chamada de constipação funcional. O termo “funcional”, no entanto, está caindo em desuso entre gastros e coloproctologistas.
Isso porque, historicamente, eram chamadas de doenças funcionais aquelas que teriam uma causa psicológica — o que não é o caso dos distúrbios da interação intestino-cérebro, influenciados por vários fatores.
Dispepsia funcional
O que é:
Popularmente chamada de “gastrite nervosa”, a doença inclui sintomas como dor de estômago, queimação, empachamento e gases.
É dividida entre síndrome do desconforto pós-prandial (sensação de barriga cheia após as refeições) e síndrome da dor epigástrica (dor ou queimação).
O que mudou:
Apesar de ainda manter o termo “funcional” no nome, a forma de diagnosticá-la mudou. Agora, não é mais necessário fazer endoscopia caso o paciente não apresente sinais de risco, sendo possível determinar o quadro com uma boa anamnese e exame físico.
Caso seja necessário fazer o procedimento, a pesquisa pela Helicobacter pylori, bactéria que aumenta o risco de úlcera e câncer gástrico, é recomendada.
Doença do refluxo gastroesofágico
O que é:
Quem sente muita azia após as refeições provavelmente já ouviu falar dessa condição. Ela ocorre quando o ácido produzido no estômago chega ao esôfago, causando queimação, mau hálito, dor e irritação no tubo. É uma condição crônica.
O que mudou:
Os Critérios de Roma, principal instrumento diagnóstico para distúrbios da interação intestino-cérebro, se alinhou com outros consensos internacionais e sugeriu novos exames e métricas complementares para investigação e acompanhamento.
Para os pacientes, o tratamento não muda: é baseado no uso de medicações para diminuição do refluxo e da inflamação, junto com mudanças de hábitos.
Inchaço Abdominal Funcional
O que é:
É aquele estufamento que você sente quando se empanturra de comida — ou não. O inchaço pode vir até mesmo quando o indivíduo consome poucos alimentos. Ele pode ser uma percepção subjetiva, uma sensação de estar cheio ou um aumento visível do abdômen.
O que mudou:
O inchaço se uniu à distensão abdominal. Isso porque ambos os fenômenos ocorrem pelos mesmos mecanismos: a falta de coordenação entre o diafragma, principal músculo da respiração, e os músculos da parede abdominal.
Sem sincronia, eles não conseguem relaxar corretamente e provocam o efeito visível a olho nu, que é piorado pela presença de gases na barriga. Mastigar bem, evitar certos alimentos e fazer atividade física ajuda a melhorar.
Migrânea Abdominal
O que é:
A “enxaqueca da barriga” é um distúrbio de dor gastrointestinal mediado centralmente. Isso quer dizer que o incômodo é causado por uma alteração no processamento da dor pelo sistema nervoso.
A doença gera cólicas fortes e repentinas próximas à região do umbigo, principalmente.
O que mudou:
A condição já é caracterizada na pediatria e, agora, passa a ser também um distúrbio reconhecido entre adultos.
Segundo a quinta edição dos Critérios de Roma, tem uma “caracterização bem reconhecida de dor abdominal episódica com intervalos livres de sintomas e ausência de disfunção intestinal”.
Isto é, crianças e adultos enfrentam as crises sem necessariamente ter o hábito de ir ao banheiro comprometido.
Texto: Larissa Beani | Design: Laura Luduvig | Foto: Acervo Abril











