Três pessoas — um casal holandês e um turista alemão — morreram a bordo do cruzeiro MV Hondius, que seguia da Argentina até Cabo Verde, na África, infectados
com o hantavírus. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), à frente das investigações sobre os casos, ao menos outros quatro passageiros estão sendo investigados por suspeita de hantavirose.
Segundo a OMS, considerando o período de incubação do hantavírus, é provável que os passageiros tenham sido infectados fora do navio. Por isso, a entidade avalia a possibilidade de um surto associado à transmissão de pessoa para pessoa.
Mas o que é o hantavírus?
Os hantavírus são vírus zoonóticos (agentes infecciosos que passam naturalmente de animais para pessoas) que circulam, principalmente, entre roedores silvestres. Eles são vírus de RNA e pertencem à família Hantaviridae, no gênero Orthohantavirus.
Uma vez infectada, a pessoa pode desenvolver sintomas como febre, dor de cabeça, dores musculares e sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, náuseas ou vômitos.
Em quadros mais graves, algumas cepas do patógeno provocam quadros que progridem para falta de ar ou insuficiência renal.
Apesar disso, de maneira geral, embora muitas espécies de hantavírus tenham sido identificadas em todo o mundo, apenas um número limitado delas é conhecido por causar doenças em humanos.
Como ocorre a transmissão?
Para que humanos sejam atingidos, é necessário que haja o contato com urina, fezes ou saliva contaminadas de animais infectados. Além disso, a infecção pode ocorrer, embora com menor frequência, por meio de mordidas dos animais.
Há, ainda, relatos, embora raríssimos, de transmissões ocorridas de uma pessoa infectada para outra, por meio do contato muito próximo.
Além disso, apenas um dos subtipos dessa família, o chamado vírus Andes, é conhecido como capaz de causar transmissão limitada de pessoa para pessoa. Essa cepa foi confirmada em um dos passageiros do navio. Casos desse tipo de virose foram registrados principalmente na Argentina e no Chile.
Quando ocorre, a transmissão entre pessoas tem sido associada a contato próximo e prolongado, particularmente entre membros da mesma família ou parceiros íntimos, e parece ser mais provável durante a fase inicial da doença, quando o vírus é mais transmissível.
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Essa doença é comum?
Os quadros são relativamente incomuns em todo o mundo. No entanto, podem causar doenças graves e morte, sendo associados a uma taxa de letalidade de até 50% nas Américas.
Ao todo, estima-se que ocorram de 10.000 a mais de 100.000 infecções por ano em todo o mundo.
O quadro é grave?
Apesar de não causar doenças em humanos com frequência, existem dezenas de variantes de hantavírus no mundo e o quadro provocado pela doença é diferente em cada região.
Portanto, as manifestações clínicas variam de acordo com o tipo de vírus e a localização geográfica. Por exemplo, nas Américas, a infecção é conhecida por causar a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), uma condição de rápida progressão que afeta os pulmões e o coração.
Apesar da menor incidência, essa síndrome apresenta uma alta taxa de letalidade, geralmente entre 20% e 40%, o que a torna uma doença de grande preocupação para a saúde pública, segundo a OMS.
Já os hantavírus típicos da Europa e da Ásia podem causar síndrome hemorrágica com insuficiência renal (SHIR), que pode incluir pressão arterial baixa, distúrbios hemorrágicos e insuficiência renal.
O que se sabe sobre o vírus Andes?
O vírus Andes ganhou atenção internacional nos anos 1990 após surtos na Argentina e no Chile levantarem suspeitas de transmissão de hantavírus entre pessoas.
O primeiro grande episódio documentado ocorreu entre setembro e dezembro de 1996 em El Bolsón, cidade turística da Cordilheira dos Andes, na Argentina. Na época, ao todo, 18 pessoas adoeceram com síndrome cardiopulmonar por hantavírus.
A suspeita de transmissão interpessoal surgiu porque, entre os infectados, estavam três médicos que atenderam pacientes do surto e posteriormente desenvolveram a doença.
Até então, nenhum outro hantavírus conhecido no mundo havia demonstrado capacidade de transmissão entre humanos.
Pouco depois, o Chile também enfrentou episódios importantes da doença. Entre 1997 e 1998, a região de Aysén registrou 25 casos, incluindo dois 'surtos' dentro de famílias, o que reforçou a suspeita de transmissão entre pessoas próximas.
Ainda assim, especialistas destacam que a principal forma de infecção continua sendo o contato com secreções de roedores silvestres. Casos de transmissão entre humanos seguem sendo incomuns e praticamente restritos ao vírus Andes.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico precoce da infecção por hantavírus pode ser desafiador, pois os sintomas iniciais são comuns a outras doenças febris ou respiratórias. Por isso, ao ouvir o relato de sintomas, o médico deve considerar especial à possível exposição a roedores, riscos ocupacionais e histórico de viagens.
A confirmação laboratorial depende de testes sorológicos para detectar anticorpos IgM específicos para hantavírus, bem como de métodos moleculares, como a reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT-PCR).
Para tratamento, não existe antiviral específico ou vacina. Portanto, os cuidados se concentram no controle dos sintomas e atenção às complicações respiratórias, cardíacas e renais.
Hantavírus no Brasil
Os casos de hantavirose são raros no mundo. No Brasil, a taxa de letalidade média da doença é de 46,5% e a maioria dos pacientes necessita de assistência hospitalar.
Segundo o Ministério da Saúde, entre 1993 e março de 2026, o Brasil registrou cerca de 2,4 mil casos de hantaviroses, dos quais cerca de 960 culminaram em óbitos.
Os anos de 2004 a 2011 foram os que registraram mais casos, com números que flutuaram entre 182 e 116 notificações anuais. Nessa época, houve anos em que a letalidade chegou a 53%.
Já o ano em que houve mais casos que culminaram em mortes foi 1999, quando 14 pessoas adoeceram, mas 12 morreram – 85% de taxa de letalidade.
Ainda de acordo com a pasta, apesar de a doença ser registrada em todas as regiões brasileiras, Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram o maior percentual de casos confirmados.
Das 27 unidades federativas do país, 16 já documentaram quadros de síndrome cardiopulmonar por hantavírus: Pará, Rondônia, Amazonas, Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Maranhão, Rio Grande do Norte, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul.
Ainda assim, por aqui, os registros não são associados à transmissão entre pessoas, mas ao contato com os animais.
A maioria dos casos ocorrem em áreas rurais, em situações ocupacionais relacionadas à agricultura, sendo o sexo masculino com faixa etária de 20 a 39 anos o grupo mais acometido.
De acordo com o MS, a maior parte dos casos está ligada a ações como desmatamento e aragem de terra, contato direto com roeador e limpeza de galpões.
Hantavírus pode se espalhar?
“É bem improvável que a hantavirose se dissemine”, considera o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP) e colunista da VEJA SAÚDE.
Isso porque para que um vírus tenha uma disseminação ampla, especialmente ao ponto de gerar epidemias ou, até, pandemias, é preciso que ela seja facilmente transmissível de humanos para humanos.
“Por exemplo, o coronavírus, que levou à pandemia de covid-19, se transmite bem entre humanos. Mas esse vírus não”, diz o médico.
Segundo o especialista, embora Brasil tenha os reservatórios silvestres (isto é, roedores que carregam o vírus) em sua fauna, a vigilância epidemiológica tem agido de forma eficaz diante de infecções ao longo das décadas.
Por isso, ele destaca que, especialmente para os brasileiros, essa doença é de “baixíssima importância, em termos de ocorrência em saúde pública”, diz. Entretanto, reforça que os casos são graves quando ocorrem e, por isso, a prevenção individual continua sendo importante.
Como se prevenir
A prevenção da infecção por hantavírus depende principalmente da redução do contato entre pessoas e roedores. Segundo a OMS, medidas eficazes incluem:
- Manter casas e locais de trabalho limpos;
- Selar as aberturas que permitem a entrada de roedores nos edifícios;
- Armazenar alimentos com segurança;
- Utilizar práticas de limpeza seguras em áreas contaminadas por roedores;
- Evitar varrer ou aspirar fezes de roedores a seco;
- Umedecimento das áreas contaminadas antes da limpeza;
- Reforçar as práticas de higiene das mãos.
Já durante surtos ou quando há suspeita de casos, a identificação e o isolamento precoces dos infectados e o monitoramento dos contatos próximos são importantes para limitar a propagação.
Segundo a OMS, as evidências disponíveis indicam que o risco de transmissão de hantavírus é muito baixo quando medidas adequadas de prevenção e controle de infecções são aplicadas.











