Durante décadas, a saúde cardiovascular feminina foi analisada sob parâmetros predominantemente masculinos. Hoje sabemos que essa abordagem é insuficiente,
especialmente quando falamos do climatério e da menopausa, fases que marcam uma profunda transição metabólica e hormonal na vida da mulher.
O Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher reforça essa mudança de paradigma ao reconhecer que a menopausa representa um ponto de inflexão no risco cardiovascular feminino.
O alerta é relevante: as doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte entre mulheres no Brasil e no mundo, respondendo por cerca de um terço dos óbitos femininos. Além disso, dados citados no documento mostram que fatores como hipertensão, obesidade abdominal, resistência à insulina e dislipidemia tornam-se mais frequentes após a transição menopausal.
A queda dos níveis de estrogênio não impacta apenas sintomas conhecidos, como fogachos ou alterações do sono. Ela também influencia diretamente o funcionamento dos vasos sanguíneos, o metabolismo da glicose e a distribuição da gordura corporal, favorecendo o acúmulo visceral e acelerando processos relacionados à aterosclerose.
Diante desse cenário, uma pergunta se tornou comum nos consultórios: a reposição hormonal protege o coração?
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Terapia hormonal: eficaz para sintomas, não para prevenção
O Posicionamento, assim como artigos de relevância publicados recentemente na revista científica Journal of The American Medical Association (JAMA), trazem uma resposta equilibrada e baseada em evidências.
A terapia hormonal da menopausa continua sendo considerada o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores moderados a intensos e para o impacto da menopausa na qualidade de vida. No entanto, o documento e os artigos são claros: ela não deve ser indicada com o objetivo de prevenir doenças cardiovasculares.
Isso não significa que os hormônios sejam prejudiciais ao coração quando corretamente prescritos. Estudos analisados mostram que, em mulheres selecionadas, a terapia pode apresentar efeitos metabólicos favoráveis, como melhora do perfil lipídico e da sensibilidade à insulina. O ponto central está no contexto clínico.
Os melhores resultados de segurança ocorrem quando a terapia é iniciada em mulheres com menos de 60 anos ou até cerca de dez anos após o início da menopausa, sempre após avaliação individualizada do risco cardiovascular. É a chamada "janela de oportunidade", quando a reposição hormonal deve ser encarada como tratamento sintomático e personalizado, nunca como estratégia preventiva universal.
É essencial reconhecer que a menopausa é uma fase crítica para a saúde cardiovascular da mulher e, nesse período, observa-se aumento da rigidez arterial, piora da função endotelial (camada que reveste os vasos em sua parte interior), maior prevalência de síndrome metabólica e crescimento progressivo do risco cardiovascular ao longo dos anos seguintes.
Essa mudança ajuda a explicar por que a incidência de infarto e acidente vascular cerebral nas mulheres aumenta significativamente após os 50 anos.
Assim, mais do que discutir apenas hormônios, é importante enfatizar a relevância de estratégias amplas de prevenção: controle da pressão arterial, atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado e acompanhamento médico contínuo.
Testosterona feminina: cautela baseada em evidências
Outro ponto de destaque do Posicionamento e de inúmeros trabalhos científicos internacionais, como a Declaração de Consenso Global sobre o Uso da Terapia com Testosterona em Mulheres, é a abordagem do uso de testosterona em mulheres, tema que ganhou popularidade recente, muitas vezes associado a promessas de rejuvenescimento, melhora metabólica ou aumento de energia.
Não há evidências científicas suficientes para recomendar testosterona com finalidade cardiometabólica. A terapia não deve ser utilizada para prevenção cardiovascular, melhora do metabolismo, tratamento de sintomas da menopausa, ganho de massa muscular ou bem-estar geral.
Isso vale também para o uso de implantes hormonais, popularmente conhecidos como "chips da beleza", destacando a ausência de dados robustos sobre segurança cardiovascular e possíveis riscos ainda não completamente esclarecidos.
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A saúde cardiovascular feminina exige abordagem individualizada e baseada em ciência, não soluções simplificadas, uma mensagem importante para esse Dia Nacional de Conscientização das Doenças Cardiovasculares na Mulher, celebrado em 14 de maio.
A menopausa não deve ser vista como uma doença, mas como uma fase natural que exige maior atenção preventiva. Em vez de buscar respostas únicas em terapias hormonais, o cuidado cardiovascular da mulher passa pela avaliação global de riscos e pela adoção precoce de hábitos saudáveis.
Porque cuidar do coração feminino começa, acima de tudo, por compreender suas diferenças em relação ao coração do homem.
*Ieda Jatene e Salete Nacif são cardiologistas e coordenadoras do Socesp Mulher da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.











