"Todas as famílias felizes são parecidas, cada família infeliz é infeliz a seu próprio modo.” A famosa frase, do escritor russo Liev Tolstói, abre o clássico
Anna Kariênina, de 1878. Para escrever o romance, Tolstói se inspirou em uma história real: seu parceiro de caçadas, Bíbikov, tinha uma amante, Anna. Um dia, ele a abandona para viver apenas com a mãe de seus filhos. Desesperada, Anna tira a própria vida. “Você é o meu assassino!”, despediu-se ela em um bilhete.
Em casa, o grande prosador russo também enfrentava seus demônios. Durante a escrita da obra-prima, que durou de 1873 a 1877, três de seus filhos — Piotr, Nikolai e Varvara — morreram ainda bebês. “O livro tem fortes elementos autobiográficos”, afirma Irineu Franco Perpétuo, tradutor de Anna Kariênina (Editora 34 - Clique para comprar). “O protagonista é uma espécie de alter ego do autor.”
A primeira frase do romance é uma das favoritas de Marcela Debiagi, criadora de um grupo sobre famílias tóxicas nas redes sociais. “Toda família tem os seus problemas. O que diferencia a feliz da infeliz é a forma de resolvê-los”, reflete.
Desde pequena, ela desconfiava de que havia algo de errado na sua. Cansou de ouvir a mãe repetir: “Você estragou a minha vida!” e “Por que você não some?” Aos 16 anos, resolveu seguir o conselho materno. Depois de algum tempo, voltou para casa. Encontrou tudo igual. “Minha mãe foi minha pior algoz”, declara Debiagi. “Quando ela tentou me agredir mais uma vez sem motivo, senti que era hora de dar um basta.”
Foi quando a administradora de imóveis fundou, em 2019, o grupo Famílias Tóxicas no Facebook, hoje com mais de 37 mil membros. “A toxicidade familiar afeta cada vítima de um jeito diferente. Mas nenhuma escapa ilesa”, afirma Debiagi.
Nesta matéria, você vai conferir:
- O estrago que uma família tóxica pode fazer
- Como escapar de um relacionamento familiar ruim?
- As mil faces da maternidade e da paternidade
- Nova família brasileira
- O poder da adoção
O estrago que uma família tóxica pode fazer
O escritor e editor Eamon Dolan concorda em gênero, número e grau com Debiagi. Autor de A Coragem de Dizer Adeus (Paidós), ele explica que sobreviventes de famílias desestruturadas e agressivas apresentam diferentes sequelas. Uns querem agradar a todos. Outros se irritam com facilidade. Uns sofrem de anorexia. Outros estão acima do peso.
Quase todos têm algum nível de estresse pós-traumático. “É um efeito colateral potencialmente vitalício”, adverte. O próprio Dolan se considera um sobrevivente. Durante a infância, sua mãe lhe dava surras, em média, três vezes por semana. “Muitas vezes, eu não fazia ideia do motivo pelo qual estava apanhando.”
Essa atmosfera não passa batida: pesquisas mostram que crianças que sofrem abusos na infância — físicos, sexuais ou psicológicos — correm um maior risco de desenvolver quadros tão distintos como alcoolismo, obesidade e câncer quando adultas.
Por essas e outras, o terapeuta Renato Caminha batizou seu novo livro de Um Labirinto Chamado Família (L&PM). “Como encontrar a saída?”, ele se pergunta no último capítulo. Nos dias de hoje, uma das grandes assombrações nesse labirinto é aquela representada pelo conceito de “família tóxica”. “Um relacionamento pode ser considerado tóxico quando há baixo nível de empatia e alto de sofrimento”, resume Caminha.
Muitas vezes, a rusga é sutil; em outras, gritante. A toxicidade pode vir, por exemplo, quando pais não aceitam a escolha profissional ou a orientação sexual dos filhos.
Como escapar de um relacionamento familiar ruim?
Como escapar dos grilhões dentro do que supostamente deveria ser um lar, doce lar? “Dando um tempo”, responde Caminha. O distanciamento pode ser, dependendo da situação, temporário ou definitivo. Em alguns casos, o indivíduo precisa vestir um “macacão de amianto” para lidar com os genitores. “Quando a coisa começa a esquentar, é melhor ir embora. E só voltar quando quiser”, aconselha o psicólogo.
Em outros, porém, o rompimento precisa ser total. “Senão nossa saúde mental começa a arder em chamas.” Manter distância, concorda Dolan, pode funcionar. Mas, antes de uma decisão tão crítica como a de dizer adeus, o escritor recomenda que a gente imponha limites. “Se o agressor respeitar as regras, a redenção é possível. Caso contrário, sintamo-nos no direito de cortar os laços”, encoraja.
A psicanalista Vera Iaconelli, autora da obra autobiográfica Análise (Zahar), considera a hipótese de “salvar a família” uma “fantasia onipotente”. “O outro pediu para ser salvo? Há que se saber”, provoca.
A situação ganha ares dramáticos, especialmente do ponto de vista do bem-estar emocional, quando a vítima do meio tóxico é uma criança. Nesse caso, o pequeno não pode dar um tempo ou mudar as regras... Então é obrigação do seio familiar, da comunidade e das instituições zelar por ele.
“Se a criança está inserida numa sociedade que normaliza a violência, como ela vai aprender que aquilo que está vivendo em casa está errado?”, questiona a psicanalista Thaís Basile, autora de Atravessando o Deserto Emocional (Paidós). “Muitos adultos só se dão conta de que foram criados em um lar danoso e adoecedor quando encontram outro, saudável e protetor.”
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As mil faces da paternidade e da maternidade
Com medo de ladrão, o pai botou um cadeado no portão. Com pavor de barata, a mãe jogou inseticida pela casa. Enquanto isso, a filha quer fugir de casa e o neném abre o berreiro. Em 1986, quando os Titãs gravaram Família, o Brasil tinha, em média, 4,51 moradores por domicílio. Hoje, são 2,79.
Pela primeira vez, as famílias formadas por casais com filhos deixaram de ser a maioria. Segundo o Censo de 2022, o índice é de 42% (ou 24,3 milhões). No período, o percentual de casais sem filhos cresceu. Passou de 13% em 2000 para 24,1% em 2022 (13,9 milhões). Houve aumento, também, nas famílias monoparentais, aquelas formadas por apenas um dos responsáveis e seu(s) filho(s).
A proporção de mulheres com prole e sem cônjuge, como a designer Thaiz Leão, de 36 anos, é de 13,5% (7,8 milhões), e a de homens, como o publicitário Ton Kohler, de 45,2% (1,2 milhão).
Quando Thaiz, então com 23 anos, soube que estava grávida de Vicente, hoje com 12, se alistou numa “guerra” sem querer. “Entendo quem não quer lutar. Mas só com muita luta vamos conseguir mudar o mundo em que vivemos”, afirma a autora de O Exército de uma Mulher Só (Belas Letras).
“O que torna essa guerra menos árdua é saber que não estou sozinha”, diz. Se Thaiz é mãe solo porque o namorado não arcou com as responsabilidades, Kohler é “papai em dobro” porque a mulher sofreu um infarto fulminante em 2019.
Quando chegou à academia onde ela treinava muay thai, encontrou o corpo no tatame, coberto por um lençol. “Houve quem sugerisse que eu deixasse os avós cuidarem dos netos. Mas cuidar não é masculino ou feminino. É humano”, afirma o autor de Como Ser uma Família Extraordinária? (Gente).
Nova família brasileira
Não é apenas a configuração da família brasileira que mudou. O significado também sofreu transformações. Depois de analisar mais de 3 mil sugestões, o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa mudou o verbete. De “Grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto (especificamente o pai, a mãe e os filhos)” para “Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantêm entre si uma relação solidária”.
“Dizer que as famílias são todas iguais, só mudam de nome e de endereço, é uma simplificação equivocada”, diz o pediatra e psicanalista Paulo Schiller, autor de A Paixão pela Mentira (Todavia). “As histórias familiares são únicas e produzem sujeitos que terão características únicas. Cada história será diferente mesmo entre irmãos. Afinal, eles nasceram em momentos diferentes e seus pais terão projetos diferentes para cada um.”
O poder da adoção
Em 1954, Vinicius de Moraes publicou O Poema Enjoadinho. Os primeiros quatro versos dizem:
Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
À época, o poeta tinha três herdeiros. Depois, vieram mais dois.
Os casais Fernanda e Maurício, de Indaiatuba (SP), e Geninho e Duda, de Balneário Camboriú (SC), também não tinham filhos. Mas resolveram tê-los. Fernanda Fabris, de 38 anos, e seu marido, Maurício, de 43, sempre sonharam com isso. Mas, depois de 11 anos tentando, o casal não conseguiu engravidar.
Certa ocasião, ela chegou a ouvir de uma amiga: “Você não sabe fazer filho?” Não à toa, enfrentou três crises de depressão. Em 2019, os dois resolveram adotar quatro irmãos biológicos: Flávio, 11; Flávia, 9; Fabrício, 6; e Arthur, 3. Em 2022, assumiram a guarda de Natália, e, em 2024, de Emanuel, ambos de 17 anos.
Que família! A despeito de ter ou não laços biológicos. “Falar de adoção é estimular a adoção, porque esse é um tema ainda muito romantizado”, diz Fabris. “Você pensa que vai chegar ao abrigo e encontrar uma criança de braços abertos. Isso, na maioria das vezes, não acontece. Mas ser mãe é uma decisão que tem o poder de transformar vidas”, explica a autora de Mãe por Amor (BestSeller). “Se eu mudaria algo no fato de ser mãe de seis? Jamais! Daria a minha vida só para ser a mãe deles de novo!”
Em outra casa deste país, Geninho Góes, de 60, e Eduardo Domingos, 49, não pensavam em ter filhos. Mas mudaram de ideia ao conhecer Maria, de 8 anos, em 2016. Seis anos depois, a família estava prestes a viajar para a Índia quando o telefone tocou.
Do outro lado da linha, a assistente social avisava que os quatro irmãos biológicos de Maria, então com 14 anos, também esperavam por adoção. Ellen, Wellington, Allyson e Rayane tinham 12, 8, 5 e 1 anos, respectivamente. Família reunida! “Não importa se os filhos são biológicos ou adotivos. Os desafios são os mesmos”, crava Góes, autor de Paiciência (Gente).
“No livro, eu cito as quatro leis indianas da espiritualidade: a pessoa que chega é a pessoa certa, o que aconteceu é a única coisa que poderia ter acontecido, qualquer momento em que algo se inicia é o momento certo, e, quando algo termina, termina. Não dá para mudar o passado. Mas dá para melhorar o presente”, reflete.
O Brasil tem hoje 5 560 crianças e adolescentes à espera de adoção. E 32 364 famílias à procura de um filho. Por que essa conta não fecha? Simples. Enquanto 26 196 pais procuram filhos de até 6 anos, 2 695 jovens têm mais de 12.
+Leia também: A adoção como opção
Como saber se a família não vai bem
Em uma crônica do livro Família É Tudo (Bertrand Brasil), o escritor Fabricio Carpinejar fala da vez em que levou o pai, o poeta Carlos Nejar, ao hospital. Enquanto um era atendido com hipertensão, o outro preenchia um prontuário.
Tipo sanguíneo? “Não sei”, pensou o filho. Alergia? “Não faço ideia.” Realizou alguma cirurgia? “Muito menos.” Usa medicação? “Idem.” “Eu percebi que não conhecia meu pai”, admitiu o autor, constrangido. “Deixei o teste em branco e terminei reprovado. O prontuário médico tornou-se o meu obituário filial.”
Assim que o pai recebeu alta, Carpinejar repetiu as perguntas e descobriu as respostas. Até então, deu-se conta, se conformara em ser um filho, nunca um amigo.
Muitas vezes, conhecemos melhor quem está do outro lado da tela do que quem mora conosco, uma distorção alimentada pelas redes sociais. “No Instagram, as famílias são sempre perfeitas. Os pais são amorosos e as mães, incansáveis. A rede social é o novo comercial de margarina”, ironiza o psicanalista Thiago Queiroz, autor de O Poder do Afeto (Fontanar). “Precisamos nos conectar menos com a internet e mais com a nossa família”, prescreve.
Se o corpo emite sinais quando adoece, será que uma família tem sintomas quando não está bem? “Sim, muitos”, avisa o psiquiatra Daniel Martins de Barros, que lançou Sofrimento Não É Doença (Sextante). O primeiro é o distanciamento. Depois, vem a hostilidade. Por fim, chega a indiferença. “É o último estágio do adoecimento familiar. Você nem se importa mais com o outro.”
Mais do que captar os sinais, é preciso saber interpretá-los. Uma toalha molhada em cima da cama, por exemplo. Indício de crise no casamento? Não, pode ser só a evidência de uma rotina desgastante. De quem é a culpa? Não importa. “Família saudável não é aquela que nunca erra. É aquela que cuida uns dos outros e compartilha responsabilidades”, diz a pedagoga Raquel Petersen, autora de Educar com Jogo de Cintura (Rocco).
Hoje, sobram conexão virtual e distração, falta conversa real. Até porque conflitos sempre vão existir. “Mas ele é diferente de violência. Enquanto o conflito se resolve com diálogo, a violência leva à barbárie”, distingue o psicólogo Hugo Monteiro Ferreira, que assina Agora o Meu Chão São as Nuvens (Autêntica).
Quando e como encarar os desafios dentro de casa? Quanto antes. “Nossa tarefa não é fazer a autópsia. É fazer a biópsia”, aconselha o filósofo Mario Sergio Cortella, autor de Família – Urgências e Turbulências (Cortez). “Na biópsia, pegamos uma estrutura viva, identificamos o problema e ajudamos a corrigi-lo.” É assim que se cura uma doença — e também, quem sabe, uma família.
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Mãe solo
Foi numa noite de insônia que Thaiz Leão, de 36 anos, teve a ideia de transformar os apuros da maternidade em ilustrações bem-humoradas. Autora do projeto Mãe Solo e fundadora do Instituto Casa Mãe, ela tinha 23 anos quando engravidou de Vicente.
Nos livros, compartilha desde comentários batidos como “Você é forte! Vai dar conta de tudo…” ou “Um filho é uma benção!” até rompantes machistas como “Cansada de quê?” ou “Minha ex é uma louca”. Nas redes sociais, onde contabiliza 137 mil seguidores, segue firme publicando reflexões: “Chega de chamar cansaço de preguiça” ou “Toda mãe guerreira esconde um pai ausente”.
“Se tem uma fala que me incomoda é ‘Ah, mas homem é assim mesmo…’ Se é, deixa de ser”, protesta. “É um jogo ruim de jogar. No fim, todos saem perdendo. Perde a mulher que fica sobrecarregada. E perde o homem que não vive a paternidade.”
Pai em dobro
Até hoje, Ton Kohler, de 46 anos, não sabe dizer por que a mulher, Renata, então com 36, sofreu uma parada cardíaca. “Não tem explicação. Ela sempre praticou esporte. No dia em que morreu, eu virei o papai em dobro”, afirma. Com 110 mil seguidores, o publicitário admite que os homens de sua geração têm pouca (ou nenhuma) referência de pais cuidadores. Em sua maioria, eram provedores, e só.
“Se você pergunta a um pai desses quanto o filho dele calça, qual é o nome de sua professora ou quantos quilos o garoto tem, é bastante provável que ele não saiba responder”, expõe. Pai do Pedro e da Mariana, hoje com 11 e 8 anos, Kohler cita um exemplo que ilustra a disparidade entre homens e mulheres.
“Quando um pai falta ao trabalho porque levou o filho ao médico, é parabenizado pelos colegas. Quando uma mãe chega atrasada pelo mesmo motivo, leva bronca do patrão.”
Mãe e... mãe
Como um casal de mulheres faz para engravidar? Essa foi a primeira das muitas perguntas da escritora Marcela Tiboni, de 43 anos, e da arquiteta Melanie Graille, de 37.
Em pouco tempo, surgiram outras: Qual das duas vai carregar o bebê no ventre? Como funciona um banco de sêmen? E o registro de nascimento? Logo, saíram à procura de um livro sobre o tema. Não encontraram. Foi quando Tiboni resolveu redigir a obra que ela gostaria de ler: Mama – Um Relato de Maternidade Homoafetiva (Dita).
O casal teve gêmeos: Bernardo e Iolanda, hoje com 7 anos. Segundo o Censo de 2022, lares com casais do mesmo sexo chegam a 391,1 mil no país. “Somos todos iguais? Não gosto dessa ideia. Prefiro ‘Respeite as diferenças’. Afinal, somos todos diferentes. Uma família nunca é igual a outra”, afirma a também autora de Nossa Família Cabe Nessa Escola? (Jandaíra).
Família reunida
Os empresários Geninho Góes, de 60 anos, e Eduardo Domingos, de 49, se conheceram no dia 8 de abril de 2008, numa sala de bate-papo online. Cinco anos depois, se casaram. Geninho não está exagerando quando diz que, do dia para a noite, ele e o marido se tornaram especialistas “da fralda ao absorvente”.
O momento em que a primogênita da família, Maria, de 14 anos, descobre que passaria a viver com os quatro irmãos, todos adotados pelo casal, viralizou nas redes sociais. Daquele dia em diante, Geninho e Duda viraram pais de cinco irmãos biológicos, com idade de 1 a 14 anos. “Família é onde há afeto, acolhida e aceitação”, resume o autor de Paiciência.
“Fizemos o melhor que pudemos, com o conhecimento que tínhamos. Descobrimos que erramos. Mas foram esses erros que nos levaram a novos acertos. Isso faz a gente evoluir”, acredita Góes.
Éramos dois, agora somos oito
Em 2019, quando bateu os olhos na foto de quatro irmãos no site Adote um Boa-Noite, do Tribunal de Justiça de São Paulo, a bióloga Fernanda Fabris, de 38 anos, não teve dúvidas: “São meus filhos!”, exclamou. Na mesma hora, tirou um print da tela e mandou para o marido, Maurício.
A reação: “Ficou maluca, mulher? A gente não tem condições!” Maluco ou não, o casal adotou os quatro e depois outros dois. “Adoção não é plano B ou prêmio de consolação. É um desejo real”, afirma Fabris.
“O processo, em geral, é difícil. Não estou falando de burocracia. Estou falando de vínculo. Quando você adota uma criança, adota também a história de vida dela. Se fosse hoje, agiria diferente. Seria mais acolhedora. Mas eu também estava aprendendo a ser mãe”, relata.
Pais pretos presentes
O professor Humberto Baltar, de 44 anos, não esquece o dia em que descobriu que seria pai. Foi em 2018, na véspera do Dia dos Pais, que a engenheira química Thainá, de 37, lhe contou a novidade. “A única forma de ser o pai que eu desejava era enfrentando meus medos. Sabia que precisaria de ajuda. A cultura africana ensina que o jeito mais inteligente de conseguir algo é dando o que se busca”, relata.
Passado o baque, Baltar se perguntou: como criar uma criança negra no Brasil? Nas redes sociais, queria tirar dúvidas sobre paternidade preta. Foi quando resolveu fundar, ao lado de Thainá, o coletivo Pais Pretos Presentes, que oferece de rede de apoio a educação parental.
“A ideia de que família é tudo igual pressupõe uma igualdade inexistente. Mas família é um ecossistema de cuidado mútuo. Nessa perspectiva, ninguém está só ou abandonado”, afirma o pai do pequeno Apolo.
Autismo em família
A fisioterapeuta Thaís Cardoso, de 44 anos, levou um susto ao descobrir que o filho Eric, então com 6, tinha sido agredido na escola onde estudava, em Malta. Indignada, foi investigar o que aconteceu e apurou que ele sofria bullying por ser considerado “esquisito”.
Entre outros movimentos repetitivos, Eric agitava as mãos como se quisesse voar. A mãe o levou a um especialista e o garoto foi diagnosticado com autismo. Não é o único da família. A própria Thaís recebeu o diagnóstico com 39 anos, e Mia, a irmã de Eric, também, aos 5 anos.
“É como se tivéssemos caído de paraquedas num mundo que não foi feito para nós”, descreve a autora de O Fone Que Não Toca Música (Editora Conto com Você), livro infantil que trata de autismo, bullying e inclusão. “Nós, atípicos, temos que nos adaptar ao mundo em que vivemos. Mas às vezes me sinto como uma alienígena vivendo no planeta Terra.”











