O Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África (Africa CDC) emitiu nota, nesta segunda-feira (18), declarando oficialmente o surto da variante Bundibugyo,
do vírus ebola, que afeta diferentes países da região, como uma Emergência de Saúde Pública de Segurança Continental (PHECS).
De acordo com a atualização da entidade, até o momento, foram relatados cerca de 395 casos suspeitos e 106 óbitos associados ao vírus na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda, onde foram relatados dois casos, com um evoluindo ao óbito até agora.
O número pode ser ainda maior, já que, segundo declarou o centro, existem mortes que ocorrem fora dos sistemas formais de saúde.
"O Africa CDC está profundamente preocupado com o alto risco de disseminação regional", disse a entidade, em nota.
Os motivos para o receio seriam a intensa movimentação populacional transfronteiriça, a mobilidade relacionada à mineração, além de insegurança nas áreas afetadas, que carecem de medidas de prevenção e controle de infecções.
No final de semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia atestado que a situação se enquadrava como um alerta internacional, em razão dos casos na República Democrática do Congo. Até então, haviam sido confirmadas 80 mortes suspeitas.
Nesta terça-feira (19), em coletiva de imprensa, o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, também afirmou estar “profundamente preocupado com a escala e a velocidade da epidemia”, em razão do avanço acelerado do surto.
Para a instituição, a situação atual é extraordinário porque o tipo de ebola envolvido é o chamado vírus Bundibugyo, que impõe desafios extras às autoridades sanitárias: apesar de já ter sido identificado em surtos anteriores, em 2007 e 2012, ele ainda é menos conhecido do que outras variantes do ebola.
"[é] uma variante de vírus ebola para a qual não existem vacinas ou tratamentos", lamentou Tedros, ao justificar as razões pelas quais a epidemia atual chama a atenção.
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O que se sabe sobre o surto
A maior parte dos casos observados até aqui está concentrada na República Democrática do Congo, com foco na província de Ituri.
A preocupação tem sido acentuada desde o registro de quatro mortes suspeitas entre profissionais de saúde, o que pode indicar um cenário de transmissão em hospitais.
Como visto, o ebola Bundibugyo não conta com vacina nem tratamento aprovado e, nos episódios vistos anteriormente, a letalidade conhecida ficou em 30% dos pacientes identificados.
Além do foco principal no Congo, há casos também na vizinha Uganda, embora bem menos numerosos.
Ainda assim, a detecção de pacientes com o Bundibugyo nesse outro país em um curto intervalo de tempo sugere a possibilidade de uma rápida disseminação internacional.
Dois dos casos na capital Kampala, de Uganda, tiveram menos de 24 horas de diferença (confirmados nos dias 15 e 16 de maio). E os doentes não tinham ligação aparente entre si. Um deles morreu.
Por que o surto atual é "extraordinário", segundo a OMS
A OMS acendeu o alerta para o surto atual em função das características do vírus envolvido e da aparente disseminação veloz dos contágios.
Como a doença já foi identificada até mesmo em um grande centro urbano como Kampala - uma cidade de 1,6 milhão de habitantes - e em pacientes que não pareciam ter relação entre si, há grande chance de subnotificação, com o número de casos reais sendo muito maior do que o identificado até o momento.
Ainda que a maioria dos casos seja tratada como "suspeita" em função da falta de recursos para testes laboratoriais mais rápidos, também há uma alta positividade nas amostras que já foram efetivamente testadas: 8 casos confirmados em 13 amostras coletadas em várias áreas, o equivalente a 61,5%.
O fato de o surto estar relacionado ao vírus Bundibugyo também torna mais difícil o manejo da doença, já que não existem vacinas ou tratamentos específicos aprovados, diferente do que ocorre com a cepa Zaire do ebola.
Segundo a OMS, o risco para os países imediatamente ao redor do Congo é acentuado devido ao contexto permanente de crise humanitária na região, que dificulta a vigilância epidemiológica e o acesso ao tratamento médico, além de provocar deslocamentos populacionais sem o devido controle fronteiriço, que podem levar a um espalhamento maior da doença.
O que é o ebola
O ebola é uma doença viral que pode ser contraída pelo contato com carne, órgãos ou sangue de animais infectados, mas também pode ser transmitido de pessoa para pessoa a partir do contato com fluidos corporais de um indivíduo infectado. Na natureza, seus principais hospedeiros são morcegos, mas outros animais também podem carregar os vírus causadores do ebola, como macacos e gorilas.
Nos estágios iniciais, os sintomas podem ser confundidos com aqueles de uma virose mais comum, como uma gripe. No entanto, a chance de agravamento é elevada, especialmente nas áreas endêmicas da África onde o acesso a serviços de saúde é mais difícil.
Em alguns surtos anteriores, a letalidade conhecida chegou a 90% dos casos identificados. Quando progride até ameaçar a vida, a doença geralmente leva a uma febre hemorrágica.
Alguns tratamentos com anticorpos monoclonais estão disponíveis para o ebola causado pelo vírus Zaire. No entanto, a cepa envolvida no surto atual, a Bundibugyo, não conta com qualquer tipo de abordagem específica aprovada até o momento. Também não há vacina.
Nessas situações, o tratamento busca conter os sintomas (por exemplo, com reposição de fluidos e suplementação de oxigênio, além de analgésicos), na esperança de que o corpo vença a infecção com o tempo.











