A Organização Mundial da Saúde (OMS) voltou a declarar uma emergência internacional de saúde pública após identificar um novo surto de ebola na região
central da África. A maioria dos casos está concentrada na República Democrática do Congo, mas também há dois contágios já confirmados em Kampala, capital da vizinha Uganda.
Até a última atualização desse texto, o Congo tinha 246 casos suspeitos (8 confirmados) e 80 mortes suspeitas para a doença. Em Uganda, eram dois casos, com uma morte.
O retorno periódico do ebola ao noticiário, sempre acompanhado de temores de que a crise deixe de ser localizada nas áreas onde o vírus é endêmico, fez muita gente se questionar: por que surtos dessa doença tão grave parecem comuns?
Fatores ambientais, sociais e econômicos ajudam a explicar o motivo desse vírus reaparecer nas manchetes de tempos em tempos.
Um histórico de surtos e epidemias
Primeiro, é bom entender há quanto tempo a humanidade se preocupa com o ebola. O vírus foi identificado pela primeira vez há 50 anos, quando um surto da doença começou a ser registrado na região equatorial do país então conhecido como Zaire (hoje chamado de República Democrática do Congo, o mesmo lugar onde a emergência sanitária atual está em andamento).
No Zaire, o surto original de 1976 teve 318 casos confirmados, com 280 mortes, uma letalidade altíssima, de 88%. Naquele mesmo ano, também foi registrado um surto no Sudão, com 284 casos e 151 mortes (letalidade de 53%), além de um caso isolado no Reino Unido, causado por uma inoculação acidental em laboratório - a pessoa envolvida sobreviveu.
De lá para cá, ao menos uma vez por década novos casos de ebola vêm sendo registrados, com a grande maioria dos surtos graves se concentrando em países da região central e ocidental da África. A República Democrática do Congo continua a ser o epicentro de boa parte das epidemias, que por vezes também têm números significativos de casos em vizinhos como Uganda e Sudão.
O surto mais grave registrado até hoje, porém, ocorreu no oeste africano entre 2014 e 2016, afetando os territórios de Guiné, Libéria e Serra Leoa. Se nos demais episódios da doença que tomaram o noticiário os casos costumavam ser contados às centenas, na epidemia encerrada uma década atrás atrás foram 28,6 mil casos identificados nos três países, com 11,3 mil mortes associadas à crise, uma letalidade de 39%.
A maioria dos episódios de ebola costumam ser associados ao chamado vírus Zaire, aquele considerado o mais letal, mas também o único para o qual já existe um tratamento aprovado, com medicamentos à base de anticorpos monoclonais. Na crise atual no Congo, o problema está sendo causado pelo vírus Bundibugyo, uma cepa diferente e sem tratamento específico.
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Mas, afinal, o que torna o ebola tão recorrente?
Os vírus que causam o ebola têm em animais silvestres da África seus reservatórios naturais. Morcegos costumam ser o principal hospedeiro desse patógeno, mas ele também pode ser encontrado em primatas, como gorilas, macacos e chimpanzés. Seres humanos podem contrair a doença ao consumir carne contaminada ou entrar em contato com fluidos infectados desses animais.
Uma vez presente em um humano, o vírus pode ser transmitido de pessoa para pessoa, com um alto risco de contágio, aumentando o potencial epidêmico. Nessa situação, a infecção se dá através do contato com sangue, secreções e outros fluidos corporais de uma pessoa doente, seguindo uma lógica semelhante a outras doenças virais.
Nas últimas décadas, o avanço de povoamentos humanos sobre áreas desmatadas aumentou a chance de contato com animais que podem carregar o ebola. Ao mesmo tempo, uma maior facilidade de deslocamento vem propiciando que o vírus se espalhe mais rapidamente para além das áreas onde o surto começou originalmente, em geral nas zonas fronteiriças.
Fatores sociais e econômicos também acabam contribuindo para a persistência e letalidade dos surtos: em geral, as crises sanitárias com potencial epidêmico costumam estourar em áreas empobrecidas e por vezes envolvidas em conflitos armados, o que dificulta a vigilância epidemiológica para monitorar e barrar o avanço do vírus - e inviabiliza o acesso a serviços de saúde que poderiam frear os sintomas antes que o caso se torne mais grave e capaz de matar.
Paradoxalmente, o relativo isolamento dessas áreas endêmicas ainda dificulta que o ebola se espalhe rapidamente para outras regiões do mundo. No entanto, o risco de que isso venha a ocorrer um dia faz com que a OMS acenda os alertas sempre que há sinal de um novo surto nessa parte do mundo.












