As populares “canetas emagrecedoras” têm eficácia inegável. Mas a perda de peso rápida e intensa promovida pelos agonistas de GLP-1 podem resultar em deficiências
nutricionais — e, em casos extremos, até desnutrição. É isso que aponta um novo estudo publicado na revista científica Obesity Pillars.
A investigação analisou dados de 461 mil adultos que começaram a usar agonistas de GLP-1 entre 2017 e 2021 e não tinham diagnóstico de deficiência nutricional. A maioria tinha diabetes tipo 2, com idade média de 53 anos.
O objetivo era entender se, após o início do tratamento, surgiriam deficiências de vitaminas e minerais, complicações associadas à má nutrição ou perda de massa muscular.
Resultado: 12,7% dos pacientes desenvolveram alguma deficiência nutricional em 6 meses, e 22,4% em 1 ano. As moléculas utilizadas pelos pacientes foram a semaglutida (Ozempic e WeGovy), a liraglutida (Saxenda ou Victoza) e a dulaglutida (Trulicity).
"Se o uso de tirzepatida estivesse incluído na análise, talvez os dados até pudessem ser maiores em relação à prevalência de deficiência vitamínica", aponta o médico endocrinologista Fernando Valente, diretor do Departamento de Diabetes Mellitus da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
"A perda de peso, mesmo quando desejada, pode vir acompanhada de deficiências nutricionais importantes, o que compromete funções metabólicas, imunológicas e musculares", explica a nutricionista Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN).
Mas, afinal, por que isso acontece? A resposta está na forma como esses medicamentos agem no organismo.
+Leia Também: OMS lança primeira diretriz sobre canetas emagrecedoras contra obesidade
Análogos de GLP-1 induzem menor ingestão de comida
No estudo, os autores sugerem três mecanismos prováveis para explicar as deficiências nutricionais que surgiram: redução do apetite, esvaziamento gástrico mais lento e possíveis alterações na dinâmica de absorção intestinal.
Isso ocorre pois os remédios aumentam saciedade e reduzem fome, então a pessoa realmente come menos. Estima-se que a redução seja na ordem de 40%.
"De forma bastante consistente, fibras, água e proteínas costumam ser os primeiros componentes a serem reduzidos", explica Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN). "Esses elementos promovem maior sensação de saciedade e retardam a digestão, o que faz com que o paciente evite seu consumo", explica a especialista.
Além disso, o GLP-1 desacelera a saída do alimento do estômago, prolongando a sensação de estômago cheio, o que pode gerar empachamentos e enjoos.
"Isso leva as pessoas a não comer determinados alimentos, texturas e volumes", aponta a nutricionista. "Muitas vezes, o cardápio fica limitado, repetitivo e nutricionalmente incompleto", completa.
E é justamente nesse contexto que podem surgir os prejuízos.
"Mesmo quando a alimentação parece adequada do ponto de vista da qualidade, a alteração na absorção pode aumentar o risco de deficiências nutricionais com repercussões sistêmicas", aponta Dolinsky.
+Leia Também: Mas qual o problema de comer uma besteirinha de vez em quando?
Deficiências vitamínicas são as mais presentes
A deficiência de vitamina D foi a mais comum na pesquisa, com incidência de 7,5% em 6 meses e 13,6% em 12 meses. O ferro e as vitaminas do complexo B também tiveram redução.
A nutricionista Manuela Dolinsky explica que isso ocorre pois alimentos ricos em ferro, vitaminas do complexo B e fontes alimentares de vitamina D geralmente exigem volumes maiores ou maior frequência de consumo para atender às necessidades diárias.
"Quando a ingestão global cai, geralmente a ingestão desses nutrientes fica abaixo do recomendado", explica a presidente do CFN.
O médico endocrinologista Fernando Valente acrescenta que as deficiências vitamínicas são até comuns em pessoas com obesidade de diabetes tipo 2.
"E os análogos não são os únicos medicamentos que podem gerar esses déficits. A metformina, muito utilizada no tratamento do diabetes tipo 2, tem uma associação com diminuição da vitamina B12, o que precisa ser monitorado e suplementando em alguns casos", acrescenta o especialista.
+Leia Também: Glifage no diabetes tipo 2: o que dizem as novas diretrizes americanas
Perda de peso também pode custar músculo
No estudo, dentre o grupo total de usuários de GLP-1, 1,5% recebeu diagnóstico de perda muscular em 6 meses e 3% em 12 meses.
Estudos citados pelos autores sugerem que a perda de peso induzida pelos análogos de GLP-1 pode reduzir a massa magra em até 20–50% em alguns indivíduos, especialmente sem intervenções de estilo de vida, como exercício físico.
"A maior parte da perda de peso nos indivíduos que usam agonistas o GLP-1 ou GLP-1-Gip é de massa gorda, pelo menos dois terços", afirma Valente.
"Há, sim, redução de massa magra, inclusive de músculos, mas estudos atuais apontam que a maior perda é da gordura que fica interna ao músculo, não da fibra em si", ressalta o endocrinologista.
Cabe ressaltar que qualquer perda de peso sem exercícios concomitantes pode gerar perda muscular, isso não é exclusivo das canetas.
+Leia Também: Músculo é vida: agora ele é considerado um órgão decisivo para a longevidade
O papel central do nutricionista
A pesquisa mostrou um dado curioso: deficiências nutricionais ou complicações relacionadas foram mais frequentes em pacientes que tiveram consulta com nutricionista nos primeiros 6 meses de tratamento, em comparação com os que não tiveram.
Ora, então a culpa é do nutricionista? Não, na verdade, esses pacientes tiveram maior rastreamento e diagnóstico das deficiências.
"O acompanhamento nutricional é essencial para identificar precocemente essas deficiências, avaliar a ingestão real, identificar lacunas nutricionais e orientar ajustes possíveis dentro das limitações impostas pelo tratamento farmacológico", afirma a presidente do CFN.
É preciso lembrar que o uso de medicação não substitui a necessidade de mudança de hábitos e de um plano alimentar estruturado.
Cabe ao nutricionista ajudar no manejo dos efeitos colaterais, na prevenção de deficiências, na preservação da massa muscular e na adaptação da alimentação às respostas individuais de cada paciente. Excluir esse acompanhamento fragiliza o tratamento e prejudica a busca por saúde.
"Em situações mais extremas de deficiência, pode-se chegar a quadros de desnutrição, que são tão preocupantes quanto a obesidade. Trocar um problema pelo outro não faz sentido do ponto de vista da saúde", finaliza Dolinsky.












