É comum ouvir pais dizendo que seus filhos “vivem grudados no celular”. A preocupação faz sentido. O aumento do tempo de tela tem sido associado a pior
qualidade do sono, sedentarismo, dificuldades de concentração e maior exposição a conteúdos potencialmente prejudiciais.
Mas uma pergunta importante vem ganhando espaço na psiquiatria: e se, em muitos casos, a tela não for a causa do problema, mas um sintoma
?A ciência mostra que a relação entre saúde mental e uso do celular é muito mais complexa do que parece.
Nem todo adolescente que passa muitas horas conectado desenvolve um transtorno psicológico. Por outro lado, jovens que já enfrentam ansiedade, depressão, solidão ou dificuldades emocionais costumam recorrer com mais frequência ao ambiente digital em busca de alívio, distração ou pertencimento.
Isso muda completamente a forma como devemos enxergar a questão.
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Quando o celular vira um refúgio emocional
A adolescência é uma fase marcada por intensas transformações. É um período de construção da identidade, necessidade de aceitação pelo grupo, mudanças hormonais e maior sensibilidade às relações sociais.
Quando o adolescente enfrenta sofrimento emocional, o celular pode funcionar como uma estratégia para lidar com esse desconforto. Nas redes sociais, nos jogos on-line ou nas conversas por aplicativos, ele encontra distração, sensação de companhia ou uma forma temporária de escapar de sentimentos difíceis.
O problema é que esse alívio costuma ser passageiro.
Em alguns casos, o ambiente digital pode até ampliar o sofrimento.
Comparações constantes, cyberbullying, exposição a padrões irreais de beleza, busca incessante por aprovação e acesso a conteúdos que reforçam comportamentos nocivos podem agravar quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima.
Assim, cria-se um ciclo: o adolescente sofre, procura refúgio na tela, encontra algum alívio momentâneo, mas também se expõe a fatores que podem intensificar esse sofrimento.
O comportamento é um sinal de alerta
Isso não significa que o celular seja inofensivo ou que limites não sejam importantes. O uso excessivo pode trazer consequências reais para o desenvolvimento, especialmente quando interfere no sono, nos estudos, nas relações familiares ou nas atividades presenciais.
Mas restringir o aparelho, isoladamente, nem sempre resolve. Quando um adolescente passa praticamente todo o tempo livre diante da tela, é importante perguntar o que está acontecendo além do comportamento visível.
Ele perdeu o interesse por atividades que antes gostava? Está mais isolado? Sofreu bullying? Tem dificuldade para fazer amigos? Demonstra tristeza persistente, irritabilidade ou ansiedade? Como está o sono? E o relacionamento dentro de casa?
Essas perguntas costumam revelar muito mais do que simplesmente medir quantas horas foram gastas no celular.
Na prática clínica, muitas famílias chegam procurando uma solução para reduzir o tempo de tela. Essa é uma preocupação legítima, mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante.
Em vez de perguntar apenas “como tirar o celular da mão do meu filho?”, vale refletir: “o que ele está tentando encontrar ou evitar quando passa tantas horas conectado?”
A resposta pode envolver necessidade de acolhimento, medo da rejeição, dificuldade para lidar com emoções, sensação de inadequação ou até um transtorno mental que ainda não foi identificado.
Quando olhamos apenas para a tela, corremos o risco de tratar o sintoma e ignorar a causa. O uso saudável da tecnologia faz parte da vida moderna e dificilmente desaparecerá. O desafio não é demonizar o celular, mas compreender o papel que ele ocupa na vida de cada adolescente.
Em muitos casos, diminuir o tempo de tela será consequência de algo muito mais importante: um jovem que voltou a dormir melhor, a se sentir pertencente, a cultivar relações presenciais e a encontrar apoio para enfrentar seus desafios emocionais.
*Bárbara Lara é médica generalista, pós-graduada em psiquiatria pelo Einstein Hospital Israelita e membro da Brazil Health
(Este conteúdo foi produzido por meio de uma parceria exclusiva entre VEJA SÁUDE e Brazil Health)













