A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou, nesta terça-feira (5), que há indícios de que as pessoas atingidas por um surto de hantavírus em um navio
atracado em Cabo Verde, na África, tenham se infectado fora do barco.
“Levando em consideração a duração do período de incubação do hantavírus, que pode variar entre uma e seis semanas, supomos que foram infectados fora da embarcação e pensamos que pode ter acontecido uma transmissão inter-humana, entre pessoas em contato muito próximo”, afirmou Maria Van Kerkhove, diretora de Preparação e Prevenção de Epidemias e Pandemias da Organização.
Assim, a OMS trabalha com a hipótese de que o primeiro casal a adoecer tenha contraído a doença durante contato com a vida selvagem antes de embarcar na Argentina.
Em seguida, é possível que tenha ocorrido uma transmissão limitada entre pessoas que mantinham contato próximo, como casais que compartilhavam cabines.
A transmissão entre humanos é incomum para o hantavírus, que normalmente é propagado pelo contato com roedores silvestres, suas fezes, urina ou saliva - um processo um pouco parecido com o contato que leva à leptospirose, causada pela interação com ratos urbanos.
“A transmissão entre pessoas é raríssima; é muito pouco eficiente. A forma mais eficiente [de propagação do vírus] é diretamente dos roedores para as pessoas”, explica o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP) e colunista da VEJA SAÚDE.
Mas a situação não é impossível. Aliás, há um tipo específico de hantavírus, conhecido como "vírus Andes" ou ANDV, que tem registro de casos esporádicos de transmissão de humano para humano, justamente no sul da Argentina, país de onde o barco saiu.
Assim, a OMS não descarta, por exemplo, o fato de que o navio fez paradas em diversas ilhas com aves e roedores silvestres, o que poderia representar outra fonte de exposição. No entanto, por uma questão de precaução, as autoridades estão operando sob a premissa de que o caso se trate de infecções pelo vírus Andes.
Ao todo, até o momento, foram notificados sete casos suspeitos na embarcação. Três pessoas morreram, incluindo uma delas ainda dentro do barco, um paciente está em cuidados intensivos na África do Sul e outros dois, estáveis, seguem no navio.
Hantavírus no Brasil
Os casos de hantavirose são raros no mundo. Ainda assim, eles são importantes, já que a doença tende a ser grave. No Brasil, a taxa de letalidade média da doença é de 46,5% e a maioria dos pacientes necessita de assistência hospitalar.
Vale dizer que essa infecção pode provocar diferentes complicações de saúde, que variam de acordo com o tipo específico de vírus - cada parte do mundo tem um patógeno dominante.
Na América do Sul, incluindo o Brasil, ela é mais associada à síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), que em fase avançada por provocar taquicardia e dificuldade para respirar (potencialmente fatal), além de febre, dores generalizadas, sintomas gastrointestinais e tosse, entre outros sintomas.
Segundo o Ministério da Saúde, entre 1993 e março de 2026, o Brasil registrou cerca de 2,4 mil casos de hantaviroses, dos quais cerca de 960 culminaram em óbitos.
Os anos de 2004 a 2011 foram os que registraram mais casos, com números que flutuaram entre 182 e 116 notificações anuais. Nessa época, houve anos em que a letalidade chegou a 53%.
Já o ano em que houve mais casos que culminaram em mortes foi 1999, quando 14 pessoas adoeceram, mas 12 morreram – 85% de taxa de letalidade.
Ainda de acordo com a pasta, apesar de a doença ser registrada em todas as regiões brasileiras, Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram o maior percentual de casos confirmados.
Das 27 unidades federativas do país, 16 já documentaram quadros de síndrome cardiopulmonar por hantavírus: Pará, Rondônia, Amazonas, Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Maranhão, Rio Grande do Norte, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul.
Ainda assim, por aqui, os registros não são associados à transmissão entre pessoas, mas ao contato com os animais.
A maioria dos casos ocorrem em áreas rurais, em situações ocupacionais relacionadas à agricultura, sendo o sexo masculino com faixa etária de 20 a 39 anos o grupo mais acometido.
De acordo com o MS, a maior parte dos casos está ligada a ações como desmatamento e aragem de terra, contato direto com roeador e limpeza de galpões.
Vírus pode se espalhar?
“É bem improvável que a hantavirose se dissemine”, considera Brandão. Isso porque para que um vírus tenha uma disseminação ampla, especialmente ao ponto de gerar epidemias ou, até, pandemias, é preciso que ela seja facilmente transmissível de humanos para humanos.
“Por exemplo, o coronavírus, que levou à pandemia de covid-19, se transmite bem entre humanos. Mas esse vírus aqui não”, diz o médico.
Segundo o especialista, embora Brasil tenha os reservatórios silvestres (isto é, roedores que carregam o vírus) em sua fauna, a vigilância epidemiológica tem agido de forma eficaz diante de infecções ao longo das décadas.
Por isso, ele destaca que, especialmente para os brasileiros, essa doença é de “baixíssima importância, em termos de ocorrência em saúde pública”, diz. Entretanto, reforça que os casos são graves quando ocorrem e, por isso, a prevenção individual continua sendo importante.
Prevenção
Segundo o Ministério da Saúde, evitar as hantaviroses passa, sobretudo, por reduzir ao máximo o contato com roedores silvestres e com seus dejetos, que podem carregar o vírus. Para isso, medidas simples fazem diferença, como:
- Manter o entorno da casa limpo e com a vegetação aparada
- Descartar corretamente entulhos e lixo acumulado
- Armazenar alimentos em recipientes bem vedados, resistentes à ação de roedores.
Além disso, em áreas onde a presença desses animais é conhecida, o cuidado deve ser redobrado, com estratégias contínuas para evitar a aproximação e, consequentemente, a exposição ao vírus.












