A praticidade na cozinha pode ter um custo alto para a saúde cardiovascular.
As prateleiras dos supermercados oferecem inúmeras opções de temperos prontos,
no formato de sachês ou cubos, que prometem agregar sabor ao preparo dos alimentos. Mas, o que adicionam mesmo é um alto teor de sódio, gorduras saturadas/trans e aditivos químicos.
Os brasileiros consomem o dobro de sal recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de cinco gramas por dia.
Em média, um sachê de sal, têm até 41% desta dose prevista. A ingestão excessiva tende a aumentar a pressão arterial, fator de risco para o sistema cardiovascular.
Entre as consequências, maximiza a possibilidade de ocorrências como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e até problemas renais, uma vez que o corpo retém mais líquido.
O uso exagerado de temperos industrializados contribui para a elevação do colesterol LDL – o colesterol “ruim” – o segundo principal desencadeador de mortes cardiovasculares, atrás da hipertensão.
De acordo com a última Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, uma em cada três pessoas apresenta colesterol total acima de 200 mg/dL, e uma em cada cinco tem LDL acima de 130 mg/dL, com maior prevalência em mulheres.
Além disso, no Brasil, há um paradoxo:
Estimativas indicam que a taxa de mortalidade atribuível à elevação do colesterol "ruim" caiu de 49,6 para 32,1 por 100 mil habitantes entre 2001 e 2021, uma redução que até parece refletir avanços no controle de fatores de risco.
Porém, contextualizando os dados, a notícia pode não ser tão positiva: na verdade, o número absoluto anual estimado de mortes por doenças cardiovasculares atribuídas à elevação do LDL aumentou de 60.716 para 79.604,1.
+Leia também: Temperos prontos: saiba por que você não deveria consumi-los
“Temperando” a saúde cardiovascular
Para garantir que temperos industrializados não desandem sua receita de saúde, algumas dicas provam ser possível adicionar sabor “de verdade” à comida utilizando produtos naturais.
São eles as ervas e especiarias, que ainda ajudam no controle da pressão e do colesterol. Por isso, a SOCESP preparou um verdadeiro guia sobre temperos. Confira dicas:
- Pimentas
Pimentas e especiarias em geral são alternativas eficientes para reduzir o sal sem que os pratos fiquem insossos. E contribuem para manter a pressão arterial nos parâmetros corretos.
As pimentas agregam nutrientes, sem elevar o sódio da dieta. Além disso, aceleram o metabolismo, promovendo a queima de calorias.
Pimentas também têm efeito anti-inflamatório. Outra vantagem é que fortalecem o sistema imunológico, devido à quantidade de vitaminas e compostos fenólicos, grupo de antioxidantes que promovem estes benefícios.
Ao consumir pimenta vermelha, seu composto ativo, a capsaicina, pode estimular a produção do hormônio GLP-1, desempenhando um papel crucial na regulação do apetite, do metabolismo e, consequentemente, do peso.
A capsaicina ainda combate o colesterol total e triglicerídeos, aumentando o colesterol bom (HDL). Nas pimentas preta, verde e branca temos a piperina, que potencializa a absorção de nutrientes, tem ação antioxidante e anti-inflamatória, auxiliando na digestão.
Também potencializam os efeitos da curcumina presente no açafrão da terra e contribuem no combate às doenças crônicas e para o bem-estar geral.
- Ervas e especiarias
Alho, limão, cúrcuma, gengibre, alecrim, tomilho e orégano combinados realçam os alimentos e diminuem o uso excessivo de sal. Eles dão novos paladares e trazem antioxidantes, que ajudam na digestão de gorduras, proteínas, aceleram o metabolismo e protegem o coração.
- Sal de casca de cebola
Mais uma opção para fugir do sal - e dá para preparar em casa. Para fazer, separe as cascas de quatro cebolas, lave-as numa peneira e leve ao forno pré-aquecido para secar/ desidratar a 140°C de 10 a 20 minutos, cuidando para não queimar.
Em seguida, bata com 100 gramas de sal num processador. Você terá um tempero com muito sabor, rico em um antioxidante chamado quercitina, que melhora a saúde da pele, entre outros benefícios.
É importante lembrar que nenhuma dessas substâncias substitui o tratamento medicamentoso indicado pelo médico. Mantenha suas consultas em dia.
The Lancet
Uma edição especial da revista The Lancet, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, apresentou a série “Alimentos Processados e Saúde Humana”. O material foi produzido também por pesquisadores brasileiros.
Sãos três artigos que apresentam as evidências mais atualizadas sobre os impactos desse tipo de alimentação na saúde, na economia e na sustentabilidade, além de apontar caminhos para enfrentar esse desafio global.
O primeiro artigo destaca que o crescimento da penetração dos ultraprocessados nos mercados diminui a escolha por opções alimentícias mais saudáveis. O segundo traz propostas de políticas públicas para conter e reverter a popularização dos ultraprocessados.
Já o terceiro aprofunda a compreensão das causas que levaram à expansão do consumo desenfreado e subsidia a formulação de uma resposta global para a questão de saúde pública.
*Valéria Machado é coordenadora científica do Departamento de Nutrição da SOCESP e mestre e doutora em Ciências Aplicadas à Cardiologia. André “Nutrichef” é nutricionista e chef de cozinha.










