Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) é o novo nome da síndrome do ovário policístico (SOP), anuncia novo consenso global que chama a atenção
para características da condição que vão muito além dos cistos nos ovários.
Apresentada nesta terça-feira (12) durante o Congresso Europeu de Endocrinologia (ECE 2026), a mudança também foi publicada pelo renomado periódico The Lancet.
Segundo as autoras, o termo SOP é "inexato, sugere cistos ovarianos patológicos, obscurece diversas características endócrinas e metabólicas e contribui para diagnóstico tardio, cuidados fragmentados e estigma [das pacientes], além de restringir a pesquisa e a formulação de políticas."
O artigo é resultado de décadas de discussão e estudos para definir como melhor representar uma síndrome que afeta 170 milhões de mulheres em todo o mundo. Médicos e pacientes colaboraram para a publicação, que foi liderada por pesquisadoras da Universidade Monash, na Austrália.
Muito além de cistos nos ovários
"A presença dos cistos nos ovários, por si só, não permite que seja feito o diagnóstico da síndrome", explica o endocrinologista Cristiano Barcellos, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (Sbem-SP).
Três critérios são necessários para definir o quadro. "O primeiro diz respeito à irregularidade menstrual, que é causada pela falta de ovulação [anovulação] e pode acabar atrapalhando a fertilidade da mulher", cita o médico. "O segundo é o aumento dos hormônios masculinos, que geram excesso de pelos grossos em regiões do corpo que, tipicamente, só homens tem [como no bigode e no queixo], além de acne e alopecia androgenética".
A presença de cistos nos ovários é, portanto, um desses critérios, observados por exames de imagem como ultrassonografia transvaginal ou pélvica.
Além de poder estar associada a problemas como excesso de espinhas e dificuldade para engravidar, a condição gera desequilíbrios hormonais que aumentam os níveis de glicose e gordura no sangue, elevando o risco de problemas como aterosclerose, infarto e AVC entre as pacientes — a longo prazo.
"A mudança de nomenclatura da SOP para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina parece refletir uma legítima necessidade de destacar a forte associação com a síndrome metabólica", observa José Maria Soares Júnior, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
"Presente em muitos casos, a síndrome metabólica se manifesta por resistência à insulina [que pode evoluir para pré-diabetes e diabetes tipo 2], obesidade central, dislipidemia [alterações como queda do HDL ("colesterol bom") e aumento do triglicérides] e risco cardiovascular aumentado, transcendendo a esfera puramente ginecológica", lista o ginecologista.
As autoras defendem que o novo nome reflete o quão "multissistêmica" é a condição, envolvendo desajustes nos âmbitos metabólicos, endocrinológicos e reprodutivos. Outros especialistas, no entanto, têm defendido outras nomenclaturas, como a Síndrome Ovariana Gineco-Endócrina-Metabólica.
"Considero que o termo 'poliendócrina' não é apropriado, pois ele sugere o envolvimento de múltiplos eixos hormonais independentes, quando, na realidade, a SOP é uma única afecção que se manifesta simultaneamente como ginecológica e endócrina", critica Soares Júnior.
Médicos e cientistas seguem estudando a condição e procurando melhores formas de tratá-la e retratá-la.










