A dor lombar deixou de ser um problema individual para se tornar um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. Hoje, é a principal causa de incapacidade
em todo o mundo, afetando cerca de 619 milhões de pessoas, número que pode chegar a 843 milhões até 2050.
Mais do que a alta prevalência, chama atenção o impacto funcional: desde 1990, a dor lombar lidera os anos vividos com incapacidade, refletindo não apenas sofrimento físico, mas também perdas econômicas e sociais significativas.
Esse cenário é impulsionado por mudanças demográficas e comportamentais. O envelhecimento populacional, aliado ao sedentarismo, ao aumento da obesidade e a hábitos de vida pouco saudáveis, tem ampliado o número absoluto de casos.
Estima-se que cerca de 80% das pessoas experimentarão dor lombar ao longo da vida, com maior incidência em mulheres e em indivíduos acima dos 40 anos. Em regiões como a América Latina, o crescimento tem sido ainda mais acelerado, reforçando a urgência de estratégias de enfrentamento.
No Brasil, a realidade acompanha, e em alguns aspectos intensifica, esse panorama global. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde indicam que entre 18,5% e 23,4% dos adultos convivem com problemas crônicos de coluna. A dor nas costas não apenas é frequente, como também se manifesta precocemente: a média de início dos sintomas gira em torno dos 35 anos, impactando indivíduos em plena fase produtiva da vida.
As desigualdades sociais agravam esse quadro. Fatores como baixa renda, menor escolaridade, sobrepeso, tabagismo e presença de outras doenças crônicas estão associados a maior prevalência.
Além disso, embora cerca de 68% dos brasileiros com dor nas costas recebam algum tipo de tratamento, o acesso não é equitativo, já que pessoas com maior renda e plano de saúde têm mais chances de serem assistidas. Isso evidencia que o problema da coluna, no país, não é apenas clínico, mas também estrutural.
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Avanços tecnológicos transformam o tratamento da coluna
É nesse contexto que eventos científicos ganham relevância estratégica. O congresso da área de coluna, que será realizado de 18 a 21 de abril, reunirá especialistas para discutir avanços que impactam diretamente o cuidado com o paciente.
Entre os principais destaques está a evolução das tecnologias cirúrgicas, como técnicas minimamente invasivas, procedimentos endoscópicos e o uso de navegação e robótica. Essas inovações vêm transformando a prática clínica ao permitir intervenções mais precisas, com menor agressão aos tecidos e recuperação mais rápida.
Outro eixo fundamental é o fortalecimento das abordagens não cirúrgicas. O manejo da dor e o tratamento conservador têm sido cada vez mais valorizados, com o objetivo de evitar procedimentos invasivos sempre que possível. Esse movimento representa uma mudança importante de paradigma, centrada no cuidado integral e individualizado do paciente.
Prevenção ainda é a estratégia mais eficaz contra dor lombar
O encontro também promove uma ampla discussão sobre as doenças mais prevalentes da coluna, como hérnias de disco, condições degenerativas e deformidades, além de abrir espaço para a apresentação de novas pesquisas e inovações terapêuticas. Essa troca de conhecimento é essencial para acelerar a incorporação de evidências científicas na prática clínica e melhorar os desfechos em saúde.
Por fim, é fundamental reforçar que, embora os avanços no tratamento sejam significativos, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz. A adoção de hábitos saudáveis, como atividade física regular, controle do peso, postura adequada e cessação do tabagismo, pode reduzir de forma expressiva o risco de desenvolver dor lombar.
Diante de um problema tão prevalente e impactante, investir em prevenção é não apenas uma escolha individual, mas uma prioridade coletiva.
*Alexandre Fogaça Cristante, presidente do Comitê de Coluna da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBC/SBOT)











