O El Niño é um fenômeno climático temido pois altera os padrões de chuva, temperatura e ventos pelo planeta. Ocorrido pela última vez em 2024, estima-se
que retorne no segundo semestre deste ano e dure até 2027.
Além disso, projeções indicam a possibilidade de um “super” El Niño — versão mais intensa do fenômeno —, embora sua força ainda seja considerada incerta.
No Brasil, o evento costuma favorecer períodos de seca em regiões do Norte e no Nordeste e chuvas intensas no Sul e no Sudeste – condições que são ideais para diversos problemas que podem afetar a saúde da população.
Entre eles, estão a contaminação da água, o impacto do calor extremo e a proliferação do Aedes aegypti, com disseminação da dengue e outras arboviroses (viroses transmitidas por mosquitos e carrapatos).
"Todas as vezes em que tivemos El Niño, vimos um impacto importante das arboviroses", alerta o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Por essa e outras razões, profissionais de saúde demonstram preocupação com o cenário que o país encontrará nos próximos meses.
"Esses eventos trazem importantes repercussões para a saúde da população, incluindo aumento de doenças relacionadas ao calor, problemas respiratórios, doenças transmitidas pela água e por vetores, insegurança alimentar e impactos na saúde mental", resume a médica Isadora Vianna Fernandes, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Planetária da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).
Quais as chances de um 'super' El Niño?
Ainda não há uma resposta fechada. Previsões recentes da NOAA, agência climática dos Estados Unidos, estimam que existe até 96% de chances de que o El Niño se forme este ano, persistindo até fevereiro de 2027.
Mas a classificação da sua força ainda é alvo de controvérsias.
Para entender, vale ter em mente que os meteorologistas dividem as intensidades possíveis desse evento em categorias: fraco, moderado, forte e muito forte.
De um lado, alguns profissionais afirmam que, embora as consequências sejam imprevisíveis, esse pode ser um dos eventos mais fortes das últimas décadas.
É o que comenta a médica patologista e microbiologista Evangelina Araújo, especialista em saúde e sustentabilidade. “Poderá ser até três a cinco vezes maior do que foi em 2023 e 2024”, diz.
Do outro, há previsões mais conservadoras.
Segundo a média de modelos calculada pela NOAA, por exemplo, até agora nenhuma das categorias concentra mais do que 37% de probabilidade, ou seja, as chances estão relativamente distribuídas entre elas.
Ainda assim, as chances de um evento "muito forte" têm crescido nas estatísticas. Isso significa que um "super" El Niño este ano é visto como possível, mas o cenário ainda está em aberto.
“Nas últimas atualizações, os modelos mostraram maior confiança de que vai ser um super El Niño. Ainda não é 100% confiável, mas as probabilidades estão aumentando”, diz a geógrafa Karina Bruno Lima, doutoranda e especialista em climatologia.
Especialistas lembram, ainda, que o aquecimento global já em curso tende a intensificar o fenômeno, levando a alterações de temperatura mais extremas.
A chegada do El Niño ou de sua "versão turbinada" não é, necessariamente, uma sentença de desastres ou aumento de doenças. Mas... “A comunidade científica que estuda as mudanças climáticas e seus impactos na saúde tem acompanhado essa possibilidade [de um super El Niño] com preocupação”, diz Fernandes.
É que, em um cenário de mudanças climáticas intensas, os especialistas preveem as seguintes consequências imediatas e a longo prazo:
Clima perfeito para arboviroses
As arboviroses — grupo que inclui dengue, zika, chikungunya, febre Oropouche e outras — estão entre as principais preocupações dos especialistas diante de um El Niño.
Isso porque calor, mudanças no padrão de chuvas e períodos de seca são perfeitos para a proliferação de mosquitos como o Aedes aegypti, transmissor da dengue e o mosquito-palha, da Oropouche.
Segundo o Ministério da Saúde, durante períodos de El Niño, há um aumento na infestação por larvas do Aedes, especialmente em regiões com temperaturas acima de 23,3°C e precipitações superiores a 153 milímetros.
As temperaturas mais altas favorecem o desenvolvimento dos ovos e larvas. Ao mesmo tempo, períodos prolongados de seca seguidos por chuvas aumentam o acúmulo de água parada, o que é ideal para a reprodução dessa espécie.
O aquecimento global facilita que o mosquito sobreviva e se reproduza em regiões anteriormente consideradas frias (e desfavoráveis para ele), como o sul do Brasil. Com isso, pode haver mais espalhamento.
Combinação explosiva
Ainda há outras preocupações em relação à dengue, em específico.
Em 2024 (após um ciclo de El Niño iniciado no ano anterior), o Brasil registrou a maior epidemia de dengue da sua história.
Embora hoje as taxas gerais de casos estejam bem menores, os especialistas acompanham com preocupação, já há um tempo, uma outra situação: o avanço do sorotipo 3 da doença.
Para contextualizar, a dengue possui quatro sorotipos (versões diferentes do vírus). Quem já teve a doença por um deles fica protegido contra esse tipo, só que não necessariamente contra os outros. Ou seja, uma pessoa pode ter dengue até quatro vezes.
É aí que entra a preocupação. O sorotipo 3 circulou pouco no Brasil nas últimas décadas – os principais vírus circulantes são o dengue 1 e 2 –, mas tem reaparecido.
Isso significa que, embora ele esteja entre nós, grande parte da população ainda não tem imunidade contra ele. Acrescentar o El Niño a essa equação pode ser um risco.
“Se tivermos um “super” El Niño associado à maior circulação do dengue 3 – que está mais presente no território, mas não circulou com intensidade –, nosso temor é de que o país enfrente uma grande epidemia”, alerta Julio.
Riscos dos eventos extremos vão além do que se pensa
A maior revisão já feita sobre a interação entre clima e doenças cardiovasculares, publicada na revista Jama Cardiology, mostrou que eventos extremos como tempestades tropicais, furacões e ciclones estão associados ao aumento do risco cardiovascular, que persiste por meses após o mau tempo.
Outro grande estudo, publicado no periódico da Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês), mostrou que tanto o calor quanto o frio extremos aumentam o risco de morte por doenças como infarto, Acidente Vascular Cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e arritmias.
Entre os dois, o frio teve um impacto maior: para cada 1.000 mortes cardiovasculares, os dias muito frios estiveram ligados a cerca de nove mortes extras, enquanto os dias muito quentes ainda estiveram associados a cerca de duas mortes a mais.
Com o El Niño, ainda mais se ele for "super", esses picos poderão ser atingidos com maior facilidade. "Os extremos tenderão a ser mais contrastante. Muito calor alternado por períodos de muito frio”, explica o médico Paulo Saldiva, professor de Patologia na Universidade de São Paulo (FMUSP) e pesquisador há mais de 30 anos dos efeitos da poluição do ar ambiente na saúde.
E há diversos motivos para ambos serem prejudiciais.
"O calor extremo aumenta internações e mortes, porque obriga o organismo a fazer um esforço maior para manter a temperatura corporal equilibrada", explica Ligia Trevizan, cardiologista do Hospital M'Boi Mirim, gerido pelo Einstein Hospital Israelita.
Segundo a médica, isso leva à perda de líquidos e eletrólitos e redução do volume sanguíneo. Além disso, a desidratação, favorecido pelo clima quente, deixa o sangue “mais espesso”, aumentando o risco de formação de trombose.
Já no frio, o corpo é sobrecarregado ao ativar mecanismos para conservar calor e manter a temperatura estável, como a liberação de adrenalina, o que acelera o metabolismo.
Ainda, os vasos sanguíneos se contraem — processo chamado de vasoconstrição — para evitar perda de calor pela pele. Com isso, coração precisa fazer mais força para bombear o sangue, o que também pode lhe "cansar".
Chuvas, inundações e deslizamentos
Um dos primeiros problemas a aparecer — e que pode afetar principalmente o Sul e o Sudeste — costuma ser relacionado ao impacto da chuva, especialmente ao afetar a drenagem urbana.
“Talvez as cidades recebam mais quantidade de chuva do que o seus sistemas de drenagem conseguem suportar", explica Saldiva. E as consequências são inundações e deslizamentos.
De imediato, essas ocorrências podem afetar a população ao favorecer que pessoas sejam arrastadas, sofram traumas ou afogamentos.
Depois, surgem consequências derivadas do contato com a água contaminada (por esgoto, urina de ratos e germes), que pode transmitir hepatite e leptospirose.
“Em cerca de uma semana ou 15 dias depois [de um alagamento ou deslizamento] começam a surgir essas doenças infecciosas”, diz Saldiva.
E tem mais. “Há, ainda, infecções por fungos nas casas com umidade”, lembra Evangelina. Também, em médio prazo, os desastres afetam a saúde cardiovascular e mental das pessoas atingidas.
Seca, queimadas e poluentes
Além dos impactos diretos do calor, regiões que enfrentarão temperaturas elevadas e períodos de estiagem podem sofrer problemas relacionados à disponibilidade e à qualidade da água.
A Amazônia seria especialmente afetada. Recentemente, aliás, houve períodos em que os rios ficaram tão baixos que deixaram de ser navegáveis, afetando atividades essenciais para a população, como a pesca e o transporte.
Quando o nível de rios e reservatórios diminuem, mas o despejo de esgoto e resíduos continua no mesmo ritmo, a concentração de poluentes aumenta. "Isso favorece a disseminação de doenças do trato digestivo, especialmente em locais com saneamento inadequado", completa Saldiva.
Esses eventos também podem favorecer as queimadas e a poluição. “Nós podemos ter uma fumaça intensa, gerada a partir da queimada, que espalha material particulado, um poluente muito danoso para a saúde”, alerta Evangelina.
Como se proteger?
As medidas de proteção variam de acordo com o tipo de evento climático extremo. Confira:
- Durante ondas de calor
É importante reconhecer os sinais de doenças relacionadas ao calor, como tontura, desidratação, confusão mental e exaustão.
A recomendação é manter hidratação frequente, priorizar alimentos leves e ricos em água — como frutas e verduras — e evitar bebidas alcoólicas, excesso de cafeína e bebidas muito açucaradas.
"A atenção deve ser redobrada para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas, transtornos mentais, acamadas, em situação de rua e trabalhadores expostos ao calor", alerta Isadora.
- Durante queimadas
Em caso de fumaça, o ideal é reduzir atividades ao ar livre e evitar a entrada de fumaça nos ambientes internos sempre que possível.
Quando a exposição for inevitável, o uso de máscaras adequadas pode ajudar, principalmente para pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.
- Em chuvas fortes, enchentes e alagamentos
Nesses casos, é importante acompanhar os alertas da Defesa Civil e seguir as orientações das autoridades. Em áreas de risco, deve-se manter documentos e medicamentos de uso contínuo em locais de fácil acesso para uma eventual evacuação.
Evite contato com água potencialmente contaminada e fique atento aos riscos de afogamentos, desabamentos, choques elétricos e fios caídos.
O uso de calçados fechados e atenção ao mexer em entulhos ou locais sem visibilidade ajudam a reduzir acidentes.
- Contra arboviroses
O principal alerta é reforçar o controle do mosquito transmissor, eliminando possíveis focos de água parada.
Além disso, a vacinação contra a dengue está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, além de trabalhadores da saúde com até 59 ano, nas unidades básicas de saúde.
Pessoas fora do público-alvo podem adquirir na rede particular com preços entre R$320 e R$400 por dose (são necessárias duas aplicações com intervalo de três meses).















