A proximidade do inverno costuma trazer mudanças visíveis na rotina: temperaturas mais baixas, dias mais curtos e maior permanência em ambientes fechados.
O que muita gente não percebe é que o frio também impõe um desafio silencioso ao sistema cardiovascular.
Evidências científicas mostram que os meses frios estão associados ao aumento de infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e descompensações da insuficiência cardíaca, um fenômeno observado em diferentes países, inclusive no Brasil.
O que dizem os estudos
Estudos internacionais publicados no Journal of the American College of Cardiology e European Heart Journal entre 2024 e 2025 confirmam que temperaturas baixas e ondas de frio elevam significativamente o risco cardiovascular.
As pesquisas mostram que os efeitos não são imediatos: eventos como infarto do miocárdio podem ocorrer entre dois e seis dias após a exposição ao frio intenso, o que dificulta a percepção direta da relação entre clima e saúde.
Um grande estudo nacional realizado na Suécia demonstrou que a queda da temperatura esteve associada a aumento aproximado de 10% nas hospitalizações por infarto para cada redução percentual na temperatura ambiente. As ondas de frio, por sua vez, elevaram o risco entre 7% e 10%, independentemente de outros fatores.
Já uma pesquisa chinesa recente apontou que temperaturas extremamente baixas podem aumentar o risco de infarto entre 32% e 58%, especialmente em pessoas com alterações coronarianas ainda não obstrutivas.
A insuficiência cardíaca apresenta uma sazonalidade ainda mais evidente. Estudos mostram crescimento consistente das internações durante o inverno, sobretudo entre idosos. Pacientes acima de 75 anos registram taxas de hospitalização superiores à média anual nos meses frios, acompanhadas também por maior mortalidade hospitalar.
Por que o frio afeta tanto o coração?
A explicação envolve múltiplos mecanismos fisiológicos. Para preservar o calor corporal, o organismo promove vasoconstrição, que é o estreitamento dos vasos sanguíneos, o que aumenta a pressão arterial e o esforço do coração. O frio também ativa o sistema nervoso simpático, elevando frequência cardíaca e níveis de estresse fisiológico.
Além disso, ocorre hemoconcentração, aumento da inflamação vascular e maior instabilidade das placas de gordura nas artérias, fatores que favorecem a ocorrência de infartos e AVCs. Alterações no metabolismo lipídico e na função endotelial também contribuem para esse cenário.
Quem é mais vulnerável
Curiosamente, populações que vivem em regiões de clima mais ameno podem ser ainda mais vulneráveis. A menor adaptação fisiológica ao frio e a ausência de infraestrutura adequada de aquecimento aumentam a exposição ao risco.
No Brasil, pesquisas conduzidas pelo Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, indicam que temperaturas abaixo de 14 °C já estão associadas a aumento de até 30% nas mortes por doenças cardiovasculares.
Mulheres e idosos figuram entre os grupos mais suscetíveis, especialmente aqueles com hipertensão, diabetes, colesterol elevado ou histórico cardíaco prévio.
Frio, vírus e inflamação: uma combinação perigosa
O ar frio inalado fragiliza as defesas do sistema respiratório e favorece infecções virais, que desencadeiam processos inflamatórios em todo o organismo. Essa resposta inflamatória está associada à instabilização de placas ateroscleróticas, podendo precipitar infartos e descompensar quadros de insuficiência cardíaca.
Vírus como o influenza, responsável pela gripe, e o coronavírus, da covid-19, elevam o risco cardiovascular durante esse período.
Por isso, a vacinação surge como uma medida essencial de prevenção: há evidências consistentes de que a vacina contra a gripe, oferecida gratuitamente pelo SUS, reduz o risco de infarto e de morte cardiovascular, reforçando a importância da imunização anual como estratégia de proteção do coração no inverno.
Como se proteger no inverno
Além da vacina, outra boa notícia é que medidas simples ajudam a reduzir o risco. Evitar exposição prolongada ao frio, manter o corpo aquecido, principalmente extremidades como mãos e pés, continuar praticando atividade física com orientação adequada, manter hidratação mesmo sem sensação de sede e não interromper medicamentos são atitudes essenciais.
Também é importante redobrar a atenção a sintomas como dor no peito, falta de ar, sudorese fria ou mal-estar súbito, que exigem avaliação médica imediata.
O tema em debate
O tema é tão relevante que no 46º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, de 4 a 6 de junho, especialistas irão debater dentro de uma Arena ESG as mudanças climáticas, com invernos e verões mais rigorosos, e o impacto na saúde cardiovascular.
O inverno não precisa ser uma estação de medo, mas de atenção. Reconhecer que o coração também sente o frio é um passo importante para prevenir eventos cardiovasculares e atravessar os meses mais gelados com mais segurança e saúde.
*Luiz Antonio Machado Cesar é cardiologista e assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)











