As recém-divulgadas estimativas de incidência de câncer no Brasil, elaboradas pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), revelam que o país deverá registrar
781 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028.
Outra fonte relevante de dados, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), projeta que, até 2050, a incidência aumente mais de 80% entre os brasileiros, enquanto a mortalidade pode crescer aproximadamente 98% — ou seja, vai praticamente dobrar.
Essas estatísticas chamam ainda mais atenção se pensarmos que entre 30 e 50% dos tumores podem ser prevenidos, considerando fatores de risco já bem estabelecidos.
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Uma das principais formas de prevenção é a prática regular de atividades físicas.
Além do câncer, a literatura científica é consistente em apontar sua importância tanto na prevenção quanto no tratamento de diversas condições de saúde, como as doenças cardiovasculares, a obesidade e a depressão.
Felizmente, o tema também tem ganhado grande visibilidade nas mídias sociais, com apoio de múltiplos setores da sociedade, incluindo representantes de diversos espectros políticos e um número crescente de profissionais de saúde que reconhecem a relevância da discussão sobre hábitos de vida como estratégia de promoção da saúde.
O INCA, alinhado à Organização Mundial da Saúde (OMS), à Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês) e à Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), tem reforçado o impacto protetor de ser fisicamente ativo no desenvolvimento de diversos tipos de câncer, especialmente os de mama e de intestino grosso (cólon), que estão entre os mais frequentes no país, inclusive com crescimento do diagnóstico entre os adultos jovens.
Estudos recentes demonstram que a prática de atividade física é poderosa mesmo quando o câncer já foi diagnosticado.
Nesse cenário, ela contribui para a redução da mortalidade. Além disso, auxilia no controle de sintomas inerentes à doença e ao tratamento, como a fadiga, melhora o estado psicossocial e ajuda a preservar a função física.
E isso acontece mesmo quando o exercício começa depois do início das terapias. De modo geral, trata-se de uma medida segura, bem tolerada e com baixo risco de eventos adversos, devendo integrar o plano de cuidados, com incentivo e acompanhamento por parte dos profissionais de saúde.
Mas precisamos ampliar nosso olhar sobre o tema, indo além de uma recomendação superficial e considerando a complexidade envolvida na adoção e manutenção de uma vida fisicamente ativa.
Para além dos efeitos sobre o adoecimento, as práticas corporais e exercícios físicos favorecem a interação social, a convivência e a formação de grupos, entre outros benefícios.
No entanto, o cenário de inatividade física no Brasil ainda é preocupante. Os dados nacionais mais recentes indicam que 70% das pessoas com mais de 18 anos não praticam nenhuma atividade física como lazer. Entre crianças e adolescentes, os níveis de inatividade também são elevados.
Além disso, persistem desigualdades importantes: mulheres, pessoas negras, idosos e indivíduos com menor renda e escolaridade tendem a ser mais inativos.
Nas capitais, embora a porcentagem da população ativa seja relativamente mais alta, o percentual de sedentarismo ainda chama atenção, alcançando 57%, conforme dados de 2024.
Precisamos mudar esse panorama com urgência. Por isso, destacamos a proposta de criação da Política Nacional de Práticas Corporais e Atividades Físicas no Sistema Único de Saúde (PNPCAF), baseada no princípio de que o movimento é parte do direito à saúde, como elemento relevante nessa empreitada.
O SUS já desenvolve, há 35 anos, ações voltadas à promoção das práticas corporais e atividades físicas, desde a implantação de iniciativas pioneiras em Vitória.
Atualmente, destacam-se três frentes principais: o Programa Academia da Saúde; as equipes multiprofissionais (eMulti); e o Incentivo para Atividade Física (IAF).
Essas iniciativas oferecem atividades supervisionadas e orientação à população, contribuindo para a adoção de um estilo de vida mais saudável entre os usuários do SUS.
Também foi elaborado o Guia de Aconselhamento Breve, que já passou por consulta pública e aguarda lançamento pelo Ministério da Saúde.
A criação da PNPCAF conta com o apoio do Inca, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE), da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (Sbafs), entre outras instituições.
A proposta também foi debatida e aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) em sua 357ª reunião ordinária, realizada em agosto de 2024.
O Inca tem produzido dados sobre os efeitos da prática de exercícios, oferecendo subsídios para construir políticas públicas que contribuam para o avanço de programas e ações relacionados à saúde.
Publicamos estudos que analisam o financiamento, o planejamento e a oferta de atividades considerando uma agenda quadrienal, de 2023 a 2026. Mostramos que uma redução de apenas 10% dos níveis de inatividade física proporciona economia de 20,3 milhões de reais em gastos relacionados ao tratamento de câncer.
Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde deu sinal positivo para a criação da PNPCAF e apresentou uma proposta de metodologia para elaboração e um cronograma que prevê seu lançamento até o final do ano.
Apesar do cenário promissor, ainda há desafios importantes à vista.
Acreditamos que uma construção participativa, que fortaleça programas já existentes e amplie o acesso da população a práticas corporais e atividades físicas, seja o melhor caminho para a promoção do bem-estar, além da prevenção e o tratamento de diversas condições de saúde, especialmente o câncer.
*Fabio Carvalho é educador físico, gerente da área técnica de alimentação, nutrição e atividade física do Instituto Nacional de Câncer (Inca); Luciana Maya é nutricionista, gerente da área técnica de alimentação, nutrição e atividade física do Inca; Roberto Gil, é oncologista, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc) e diretor-geral do Inca.











