A indústria automotiva brasileira vive um momento de resgate histórico com um toque de modernidade. No final de maio, a Chevrolet surpreendeu o mercado ao anunciar o lançamento das versões Eco do Onix
e do Onix Plus. Esse termo foi escolhido estrategicamente pela montadora para identificar as novas variantes equipadas de forma exclusiva com motor 100% a etanol. A novidade levanta um questionamento imediato sobre a viabilidade de adquirir um carro que abre mão da flexibilidade do combustível fóssil nos dias de hoje. O retorno desse tipo de propulsão pode parecer um retrocesso para alguns analistas, especialmente porque esses modelos saíram de linha no mercado nacional em meados dos anos 2000, logo após a consolidação dos motores flex. No entanto, existem fortes justificativas econômicas e ambientais por trás dessa decisão.
Incentivos fiscais impulsionam os novos modelos
Atualmente, o governo federal concede isenção total de IPI para automóveis com motor 1.0 aspirado ou turbo que utilizem câmbio manual, uma regra válida dentro do programa Carro Sustentável. Por outro lado, as configurações turbo automáticas convencionais acabaram ficando de fora desse benefício fiscal. Ao adotar a motorização focada apenas no combustível vegetal, a Chevrolet consegue enquadrar o Onix nas diretrizes rígidas do Programa Mover, sigla para Mobilidade Verde e Inovação. Essa engenharia tributária garante um desconto imediato de 0,5 ponto porcentual no IPI sobre a alíquota base de 6,3%. Dependendo da eficiência energética final que for homologada pelos órgãos competentes, esse abatimento pode ser ainda maior, permitindo que a marca ofereça um modelo turbo e automático por um preço final muito próximo ao de uma versão manual aspirada.
Engenharia eleva a eficiência do combustível
As vantagens dessa escolha técnica também se refletem diretamente na parte mecânica do automóvel. “A principal é a melhora da eficiência do motor, que pode ocorrer por exemplo pela otimização da taxa de compressão”, afirma Raquel Mizoe, diretora de Veículos Leves e Emissões da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), ao Estadão. Isso significa que, por rodar estritamente com o combustível derivado da cana-de-açúcar, o motor é calibrado para operar em seu nível máximo de rendimento. O carro se torna, portanto, substancialmente mais econômico do que um motor flex trabalhando em condições mistas.
Esse ganho de rendimento se traduz em benefícios diretos para o meio ambiente. “Considerando o ciclo do poço à roda, que inclui a produção do energético, sua distribuição e uso nos veículos, a emissão de CO2 é bem menor do que o veículo abastecido com gasolina”, diz Raquel Mizoe. A especialista lembra também que a queima do biocombustível gera resíduos menos nocivos para a saúde humana do que os derivados do petróleo.
Logística regional exige atenção do comprador
Apesar dos pontos positivos, o motorista precisa ponderar alguns fatores regionais importantes antes de fechar o negócio. A ausência de flexibilidade na hora de abastecer é a principal desvantagem desse sistema. Embora os postos de combustíveis contem com bombas de etanol na maioria das grandes cidades brasileiras, existem estados onde a oferta é escassa e o valor cobrado não compensa o investimento. O Rio Grande do Sul é um exemplo claro dessa realidade mercadológica, pois a distância geográfica dos grandes centros produtores eleva o preço final do produto, tornando o álcool desvantajoso para frotistas e motoristas comuns.
A forte oscilação de valores provocada pelo período de entressafra da cana também interfere na previsibilidade dos gastos mensais. Na hora de decidir se a compra de um carro movido apenas a etanol faz sentido, Raquel Mizoe recomenda: “Analise o balanço entre seu uso, preço do carro, custo médio do combustível na sua região combinado com consumo em km/litros. [E preciso fazer o que chamamos de custo total de propriedade”, afirma Raquel Mizoe ao Estadão. Por esse motivo, a tendência inicial é que as montadoras direcionem esses novos veículos para o mercado corporativo e empresas de locação de frotas. Essas companhias já possuem políticas rígidas de abastecimento sustentável e metas ambientais agressivas em seus relatórios anuais.











