O Grupo Hyundai está negociando o controle direto das operações da Kia no Brasil, repetindo uma estratégia de consolidação que já adota globalmente. A informação, revelada em primeira mão pelo jornalista
João Anacleto, aponta que a transição envolve cifras elevadas e uma complexa engenharia jurídica junto ao governo federal em Brasília. Caso o acordo se confirme, o tradicional Grupo Gandini deixará de ser o representante oficial da Kia após décadas de atuação exclusiva na importação de veículos. A negociação prevê que, como contrapartida para a liquidação de um passivo tributário e financeiro que se arrasta por cerca de trinta anos, o conglomerado assumirá o compromisso formal de erguer uma nova fábrica em solo brasileiro.
O presidente da Kia Motors Brasil, José Luiz Gandini, que distribui os carros da marca localmente há 34 anos, confirmou que as conversas existem, mas negou que o martelo já tenha sido batido. O executivo explicou ao Jornal do Carro do Estadão que a discussão sobre a dívida da antiga Asia Motors ocorre há duas décadas, mas ganhou um novo contorno devido a legislações recentes que a matriz poderia aproveitar. Gandini alertou que o estabelecimento de uma planta produtiva local precisa ser muito bem avaliado, considerando a forte concorrência no mercado interno com a chegada de montadoras chinesas. Ele reuniu os concessionários na quinta-feira (16) para dar transparência ao processo e reforçou que nenhuma mudança imediata está em vigor.
A herança financeira que motivou a negociação com a Hyundai retrocede aos anos 1990, quando a Kia adquiriu o controle global da Asia Motors. Naquela época, a subsidiária brasileira obteve incentivos fiscais sob a promessa de construir uma fábrica no Nordeste, projeto que faliu após a crise financeira asiática de 1997. Corrigida para valores presentes, a dívida cobrada pela União atinge a impressionante marca de R$ 6 bilhões. Essa pendência jurídica impedia a Kia de realizar investimentos industriais no país, limitando sua atuação como importadora de modelos do México e da Coreia do Sul. O caso passou por diversas instâncias do Superior Tribunal de Justiça (STJ), incluindo recursos em 2023, 2024, 2025 e uma movimentação recente em julgamento virtual ocorrida em 8 de maio de 2026,
A solução desenhada entre a cúpula da Hyundai e o Governo Federal resultaria no perdão definitivo do saldo devedor em troca de um massivo investimento industrial no interior de São Paulo. A meta é que o Grupo Hyundai assuma a totalidade das operações comerciais da Kia até o encerramento de 2026. A nova unidade fabril poderá ser instalada no município de Piracicaba, estrategicamente ao lado da já consolidada fábrica da Hyundai, onde são produzidos os modelos HB20 e Creta. A proximidade geográfica trará uma sinergia logística sem precedentes para fornecedores e engenharia, com potencial para gerar 5.000 postos de trabalho diretos e mais de 15.000 empregos indiretos na cadeia automotiva regional.











