Seu automóvel atual parece um smartphone gigante com tração nas quatro rodas. A tecnologia embarcada nos modelos recentes transformou os veículos em verdadeiros centros de captação de dados ambulantes.
Essa conectividade constante promete facilidades no cotidiano, mas esconde um monitoramento severo sobre a rotina dos proprietários. O monitoramento silencioso ultrapassa o direcionamento de propagandas comerciais, alcançando a esfera da segurança digital e física dos passageiros que utilizam esses sistemas diariamente.
A conectividade automotiva avança de forma acelerada no mercado global. De acordo com dados coletados pela consultoria McKinsey, metade da frota circulante mundial já possuía algum tipo de conexão com a rede mundial de computadores no ano de 2021. As projeções dos analistas apontam que a fatia de veículos conectados deve atingir a marca expressiva de noventa e cinco por cento até o encerramento desta década. Quem conduz um modelo com essa tecnologia fornece registros detalhados sobre comportamento ao volante de maneira contínua.
Os sensores espalhados pela cabine registram dados minuciosos dos usuários. Os componentes estão instalados nos assentos, no painel de instrumentos e nos sistemas de gerenciamento do motor. Câmeras voltadas para o ambiente interno e externo capturam reações e movimentos constantemente. O hábito comum de parear o smartphone na central multimídia amplia esse recolhimento de arquivos privados de forma automática. As diretrizes das fabricantes automotivas autorizam legalmente a captação de expressões faciais, dados de ocupantes, uso dos cintos de segurança e intensidade das frenagens. "Se você se preocupa com privacidade, não participe dos programas de telemetria das seguradoras", afirma Michael DeLong, pesquisador e ativista da Consumer Federation of America, ao site Canaltech.
Monitoramento de seguradoras eleva custos de apólices
O comércio de registros veiculares gera impactos financeiros imediatos aos consumidores. A gravidade desse cenário ficou evidente após a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos aplicar uma sanção severa contra a General Motors. A montadora foi proibida de comercializar relatórios de usuários pelo período de cinco anos após a descoberta de abusos. A investigação começou quando um condutor localizou um documento extenso com mais de cem páginas que detalhava minuciosamente cada deslocamento realizado com seu automóvel.
As informações de deslocamento alimentam bancos de dados de grandes corporações globais. O arquivo detalhado do condutor norte-americano acabou repassado para a empresa LexisNexis, que revendeu os hábitos de condução para companhias de seguros. A triangulação de dados provocou um reajuste imediato de vinte e um por cento no preço final da apólice de seguro daquele cliente. No cenário nacional, a transferência e o processamento desse tipo de registro encontram restrições legais específicas na Lei Geral de Proteção de Dados, que tenta frear abusos comerciais.
A vulnerabilidade dos sistemas eletrônicos veiculares desperta preocupações em especialistas do setor de tecnologia. Fabio Assoline, analista sênior da empresa de segurança Kaspersky, confirmou ao site Canaltech que o perigo de hackers assumirem o controle de veículos autônomos e conectados não é ficção. O profissional recorda que as invasões remotas deixaram o campo teórico há mais de uma década. Em um teste famoso realizado no ano de 2015, especialistas em invasões virtuais conseguiram interceptar comandos de um utilitário em movimento na rodovia, operando diretamente aceleração e frenagem.
Engenharia de segurança trabalha para conter invasões
As montadoras de veículos investem pesado no desenvolvimento de barreiras digitais complexas. A indústria automobilística reconhece as falhas potenciais e cria arquiteturas de proteção robustas para evitar acidentes provocados por acessos externos criminosos. Os modelos que utilizam sistemas de condução autônoma recebem atenção redobrada das equipes de engenharia de software para mitigar brechas de segurança.
A sofisticação dos ataques exige alto conhecimento técnico dos criminosos virtuais. “Um cibercriminoso que quisesse invadir [o carro] teria de estudar toda a infraestrutura do veículo, os meios de comunicação, e encontrar vulnerabilidades nela. Não seria ficção e, em várias pesquisas feitas no passado, foi demonstrado que esse cenário é possível”, finalizou. O mercado busca equilibrar a comodidade dos sistemas inteligentes com a garantia de anonimato e integridade física dos usuários.











