A Ford Motor Company acompanha de perto os debates sobre como a estratégia de impor tarifas alfandegárias agressivas para conter o avanço dos carros elétricos chineses nos Estados Unidos pode não funcionar
a longo prazo. De acordo com as informações publicadas pelo Jornal do Carro do Estadão, a indústria automobilística ocidental precisa se preparar para enfrentar as marcas asiáticas de forma direta, sem depender exclusivamente de barreiras governamentais. A análise realista parte da liderança do conselho de uma das montadoras mais tradicionais do planeta, sinalizando que o protecionismo apenas adia um confronto comercial que se mostra inevitável no cenário global.
O presidente do conselho de administração da Ford Motor Company, Bill Ford, que é bisneto do fundador Henry Ford, alertou que as taxas alfandegárias atuais e as regulamentações rígidas não vão durar para sempre. O executivo defende que a indústria norte-americana deve alcançar a competitividade necessária para disputar a preferência do consumidor por mérito próprio. “Temos que enfrentar a China de igual para igual”, declarou o executivo em entrevista ao veículo The Wall Street Journal. Ele complementou o raciocínio demonstrando preocupação com o futuro do setor. “Não podemos esperar mantê-los afastados para sempre, e temos que ser capazes de vencê-los em seu próprio jogo”, afirmou a liderança do conselho da companhia.
Atualmente, o governo dos Estados Unidos barra a entrada de veículos elétricos vindos da China por meio de uma severa taxa de importação de 100%, medida implementada no ano de 2024 sob a gestão de Joe Biden. Esse imposto drástico atinge também componentes essenciais como semicondutores, baterias e painéis solares, criando barreiras econômicas para marcas como a BYD. Apesar disso, conglomerados como a Geely conseguem acessar o mercado norte-americano controlando marcas tradicionais como a Volvo e a Polestar, enquanto a própria BYD opera uma fábrica na Califórnia voltada para a produção de ônibus elétricos e veículos comerciais pesados.
A proximidade com o avanço tecnológico asiático tem gerado reações curiosas nos bastidores da própria montadora americana. No ano de 2024, o diretor executivo global da Ford, Jim Farley, chamou a atenção do mercado ao revelar publicamente que estava utilizando um veículo produzido pela gigante chinesa de tecnologia Xiaomi em seus deslocamentos diários. “A Xiaomi é uma gigante do setor e uma marca de consumo muito mais forte do que a maioria das empresas automobilísticas”, explicou o executivo durante sua participação no podcast Fully Charged. O principal comandante operacional detalhou sua experiência de uso de forma direta. “Não gosto muito de falar sobre a concorrência, mas eu dirijo um Xiaomi. Levamos um de Xangai para Chicago, estou dirigindo-o há seis meses e não quero abrir mão dele”, confessou Farley.
Essa convivência forçada e a observação atenta dos rivais aceleraram os investimentos na fabricação de elétricos da montadora. O portfólio global atual da empresa conta com opções importantes como o utilitário esportivo Mustang Mach-E e a van comercial E-Transit, além do sucesso de vendas da picape híbrida Maverick. O grande desafio das fabricantes tradicionais a partir de agora será encontrar formas eficientes de igualar o nível de tecnologia e os preços competitivos oferecidos pelos concorrentes chineses, uma realidade de mercado que os consumidores em território brasileiro já experimentam de forma rotineira nas concessionárias.











