Made in Brazil: o tratamento da obesidade e diabetes tipo 2, agora também em terras brasileiras. A Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, aprovou
o uso do Ozivy, primeira caneta nacional. Mas, qual a diferença desse medicamento para o Ozempic?
Desenvolvido pela EMS, o medicamento se torna a primeira semaglutida sintética aprovada no país, introduzindo uma nova rota tecnológica para a produção de um dos fármacos mais utilizados atualmente na medicina metabólica.
A decisão ocorre em um cenário de crescente demanda por medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, utilizados tanto no controle glicêmico quanto no tratamento da obesidade.
Embora a indicação aprovada para o Ozivy seja destinada a adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado, especialistas avaliam que o registro tem implicações que vão além da chegada de uma nova opção terapêutica.
Para a endocrinologista e PhD Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor, a aprovação representa um momento importante para a medicina metabólica brasileira.
“Não estamos falando apenas da chegada de mais uma caneta, mas da entrada de uma nova modalidade tecnológica para produção de moléculas complexas como a semaglutida. A obesidade e o diabetes são doenças crônicas altamente prevalentes e que geram enorme impacto na saúde pública. Quanto maior a capacidade de produção e acesso a essas terapias, maior o potencial benefício populacional”, afirma.
Diferença Ozivy x Ozempic
O diferencial do Ozivy está na forma de fabricação. Enquanto as primeiras semaglutidas disponíveis no mercado foram produzidas por processos biotecnológicos que utilizam organismos vivos geneticamente modificados, a nova versão utiliza síntese química para construir a molécula.
Segundo a especialista, o avanço das tecnologias de síntese peptídica permitiu tornar esse processo uma alternativa viável para a fabricação de medicamentos complexos.
“As semaglutidas originais foram desenvolvidas por tecnologia biológica, utilizando organismos vivos geneticamente modificados para produzir o peptídeo. Já o Ozivy utiliza síntese química, um processo em que os aminoácidos são montados sequencialmente até formar a molécula final da semaglutida. A grande evolução dos últimos anos foi justamente o avanço das tecnologias de síntese peptídica, que passaram a permitir a fabricação de moléculas complexas com elevado grau de pureza e estabilidade”, explica.
A chegada de uma semaglutida produzida por uma rota diferente também levanta questionamentos sobre possíveis diferenças em relação aos medicamentos já disponíveis no mercado. Para Alessandra, o aspecto central da discussão não está na origem da molécula.
“Do ponto de vista clínico, o objetivo é que não exista diferença relevante. O que importa não é apenas a origem da produção, mas a qualidade da molécula final. Para ser aprovado, o medicamento precisa demonstrar requisitos rigorosos de eficácia, segurança, estabilidade e qualidade farmacêutica”, ressalta.
A endocrinologista destaca ainda que a literatura científica já demonstrou que diferentes métodos de fabricação podem gerar variações na qualidade dos produtos, o que reforça a importância dos processos regulatórios.
“Um ponto importante é que a literatura científica já demonstrou que diferentes processos de fabricação podem gerar diferenças em impurezas, produtos de degradação e estabilidade molecular. Por isso, a discussão científica mais relevante não é ‘sintético versus biológico’, mas sim a robustez do processo produtivo, do controle de qualidade e da farmacovigilância”, afirma Alessandra.
Nesse contexto, a aprovação concedida pela Anvisa é vista como um importante parâmetro de segurança para médicos e pacientes.
“A própria Anvisa destacou que o produto passou por avaliação técnica de eficácia, segurança e qualidade antes da aprovação. Isso significa que o medicamento precisou cumprir critérios regulatórios para demonstrar sua adequação ao uso clínico. A aprovação não elimina a necessidade de monitoramento pós-comercialização, mas mostra que o produto atendeu aos requisitos exigidos pela agência reguladora”, diz Rascovski.
Acesso ao tratamento ampliado
Entre os potenciais impactos da novidade, especialistas apontam a possibilidade de ampliação do acesso ao tratamento. A demanda global por semaglutida tem provocado períodos de escassez em diferentes mercados e impulsionado a procura por alternativas nem sempre regulamentadas.
“Esse talvez seja o aspecto mais relevante. A síntese química pode facilitar a escalabilidade industrial, aumentar a concorrência entre fabricantes e reduzir a dependência de plataformas biotecnológicas complexas. Em teoria, isso pode favorecer maior disponibilidade do medicamento, menor risco de desabastecimento e potencial impacto nos custos ao longo do tempo”, avalia a médica.
A médica acrescenta que uma oferta mais ampla de produtos regularizados pode contribuir para reduzir o mercado irregular.
“Hoje existe uma demanda enorme por medicamentos à base de semaglutida, o que acabou favorecendo importações paralelas, produtos manipulados sem respaldo científico adequado e até falsificações. Quanto maior a disponibilidade de produtos regularizados e fiscalizados, menor tende a ser o espaço para o mercado irregular”, observa.
Efeitos colaterais
Em relação ao perfil de segurança, os efeitos adversos esperados permanecem alinhados aos observados com outros agonistas de GLP-1. Entre eles estão náuseas, vômitos, constipação, diarreia, refluxo e desconforto gastrointestinal, especialmente durante o início do tratamento e o período de escalonamento das doses.
As contraindicações seguem as recomendações já estabelecidas para a classe terapêutica, incluindo pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2) ou hipersensibilidade aos componentes da fórmula.
Apesar da aprovação regulatória, a chegada do Ozivy ao mercado depende da definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). A eventual incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS) também exigirá análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e aprovação do Ministério da Saúde.
“O mais interessante talvez não seja apenas o lançamento de uma nova caneta. Estamos assistindo à expansão de uma plataforma terapêutica que vem transformando o tratamento da obesidade, do diabetes e possivelmente de outras doenças metabólicas. Se a evolução tecnológica vier acompanhada de qualidade, segurança e ampliação do acesso, podemos estar diante de um dos movimentos mais relevantes da medicina metabólica nas próximas décadas”, conclui.
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