Cao Hamburger, diretor experiente da televisão e do cinema nacional, minimizou o suposto "hype" em que os filmes brasileiros estariam surfando após a conquista
do Oscar por Ainda Estou Aqui (2024). Durante painel no Rio2C nesta terça-feira (26), ele valorizou a tradição da nossa produção para muito além da aprovação gringa.
"Eu acho que não foi agora [que o cinema nacional ganhou força]. Eu acho que o cinema brasileiro sempre teve força --às vezes, dentro do Brasil, menos--, mas acho que sempre foi muito forte. Mas é como a educação no Brasil e todas as nossas tragédias: sempre tem uma interrupção por uma Ditadura [1964-1985], ou quando tem um governo de extrema direita. Então, a gente vai aos trancos e barrancos se virando", disse ele.
Cao Hamburger retorna às telas em 2026 com Escola Sem Muros, filme inspirado na trajetória da Escola Campos Salles, referência em inovação pedagógica e integração comunitária. Julio Andrade interpreta o diretor que chega à escola e transforma sua realidade ao lado de lideranças locais (vividas por Flavio Bauraqui e Larissa Bocchino).
O filme, que é apontado como um possível concorrente à indicação brasileira ao Oscar 2027, é uma parceria com a Globo Filmes e o Globoplay --plataforma que também tenta, sempre que pode, puxar para si a "paternidade" de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles.
No painel Os Novos Rumos do Cinema Brasileiro, patrocinado justamente pela Globo, o cineasta valorizou a parceria. "Temos a Globo Filmes e o Globoplay, que são parceiros do cinema brasileiro, não só dos nossos filmes. E trouxeram o Oscar para a gente", disse o diretor, fazendo média com a anfitriã do painel.
Ainda Estou Aqui quebrou um jejum de mais de 20 anos. Antes de o filme protagonizado por Fernanda Torres chegar ao Oscar, o último longa brasileiro a pelo menos figurar na shortlist de filmes internacionais havia sido O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), justamente de Cao Hamburger. O drama foi um dos nove finalistas pré-selecionados, mas não ficou entre os cinco indicados finais.
Longe de negar as intempéries enfrentadas pelo cinema brasileiro --que dificultam, inclusive, novas indicações ao Oscar no futuro--, Hamburger faz questão de homenagear quem veio antes e ajudou a pavimentar a estrada para os atuais e futuros cineastas.
"Mas a força do cinema brasileiro, desde o Cinema Novo, com Glauber Rocha [1939-1981], depois a geração do Arnaldo Jabor [1940-2022], Hector Babenco [1946-2016], Cacá Diegues [1940-2025]... Tem muita força! A Fernanda Torres ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes [em 1986, por Eu Sei Que Vou Te Amar]", relembrou.
Protagonista de Escola Sem Muros, Larissa Bocchino ressaltou que uma "internacionalização" do cinema não deve ser o objetivo principal da produção nacional. A atriz, que também participou do painel ao lado de Carolina Jabor, Alice Braga e Rita Piffer, complementou a fala do diretor.
"Existe um desafio muito grande da formação de público dos espectadores do cinema. Porque eu acho que essa internacionalização do nosso cinema também podem ser uma armadilha. De, às vezes, a gente produzir 'para gringo ver'. A gente tem que garantir que o cinema brasileiro seja feito por brasileiros, sobre brasileiros e para brasileiros", opinou.











