O jornalista Pedro Bial, que esteve à frente de documentários que se tornaram virais no Globoplay, como Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho (2023),
comparou a popularidade dos produtos que tratam da vida real ao fenômeno das novelas. Durante painel no Rio2C nesta terça-feira (26), ele confessou que enxerga que a "fofoca" é o motor capaz de capturar o interesse da audiência para as histórias.
O painel Documentário Além da Tela reuniu, além de Bial, Camila Appel --responsável por outro produto popular na plataforma da Globo, O Testamento: O Segredo de Anita Harley (2026)--, o jornalista Paulo Renato Soares, que comanda Territórios: Sob o Domínio do Crime (2026), projeto que fala sobre o crime organizado no Rio de Janeiro, e Patricia Koslinski, head de Curadoria de Conteúdo de Não-Ficção do Globoplay.
"Eu vou dar o crédito de quem falou isso, que foi o [diretor] Aly Muritiba, nosso parceiro na ficção e na não-ficção. Ele classificou [os documentários do Globoplay] no gênero fofoca", revelou a executiva Patricia Koslinski.
"Existe algo em comum no trabalho de edição e na linguagem do Vale o Escrito e d'O Testamento. Que linguagem é essa? Linguagem de novela, gente! A linguagem que o brasileiro domina, conhece, se identifica, acompanha imediatamente. É uma novela, com certeza", defendeu Pedro Bial.
Contudo, Camila Appel não fez coro com os colegas do painel. A documentarista questionou Pedro Bial sobre o que caracterizaria a linguagem da novela. "Bom, é só você assistir ao que você faz, que você vai aprender", provocou ele.
"Personagens, viradas de trama surpreendentes... Você é muito amiga do [autor] João Emanuel Carneiro e ele assiste aos seus documentários como se fossem novela. Ele que é o noveleiro mais genial", respondeu Bial.
O veterano do jornalismo usou a própria experiência na supervisão de Vale o Escrito, que explorou os bastidores do jogo do bicho no Rio de Janeiro, para exemplificar o quanto os limites entre o documentário de viés jornalístico e o interesse pela fofoca ou por histórias melodramáticas já foram ultrapassados.
"O documentário é de um tal envolvimento que ele passa a lidar com pessoas reais como se fossem personagens. A Shanna Garcia, filha do bicheiro Maninho, por exemplo. Quando Vale o Escrito foi exibido, ela recebeu centenas de pedidos de casamento nas redes sociais. Ela virou uma namoradinha do Brasil. E a própria Suzuki, de O Testamento", comparou ele.
Para Bial, o documentário merece o mesmo cuidado artístico que é depositado em obras de ficção. "Eu acho que o documentário, assim como um roteiro de filme de ficção pode demorar anos para ir para o set, exige uma edição demorada. Quanto mais tempo de ilha, melhor", detalhou ele.
"Você tem que dar tempo ao tempo porque, claro, ao começar um documentário você tem uma escaleta, um pré-roteiro, mas o material é soberano. Na ilha, o material vai dizer como e de que maneira quer ser contado, e você tem que estar atento a isso", disse o jornalista.
Segundo Bial, para além de organizar e narrar fatos, o documentário permite uma janela de possibilidades e "experiências", tanto para os realizadores quanto para os espectadores.
"A ideia é oferecer uma experiência ao espectador: usar os recursos da narrativa de ficção para organizar e editar esse material, de maneira que ele possa ser apreciado e envolva o público como se fosse uma ficção, [mesmo] sendo uma não-ficção. Isso produz um efeito extraordinário, que é nos fazer olhar o mundo pelos olhos de outra pessoa e, muitas vezes, nos espantarmos", refletiu ele.
Camila Appel, por sua vez, ressaltou que essa "confusão" feita por parte do público entre o que é vida real e o que é ficção tem causado situações curiosas no cotidiano. "Depois do documentário de O Testamento, tem gente que me pergunta: 'E a segunda temporada?'. Como se a gente fosse sentar e escrever uma segunda temporada", brincou ela.










