A Globo vive uma contradição na sua dramaturgia: ao mesmo tempo em que deixou de investir em novelas espíritas inéditas, segue recorrendo a esse tipo de história
para atrair audiência. O movimento expõe uma mudança estratégica questionável da emissora e também uma dependência de um gênero que, historicamente, mostrou forte conexão com o público.
O afastamento desse tipo de produção passa diretamente pela saída da autora Elizabeth Jhin, principal nome associado à temática espiritual na casa entre 2007 e 2019. Ela consolidou um estilo próprio, marcado por reencarnação, carma e segundas chances. Sua última novela foi Espelho da Vida (2018) --depois disso, a Globo não apostou mais no gênero.
Apesar disso, os números recentes mostram que o público continua respondendo bem a esse tipo de história. Em 2024, a reprise de Alma Gêmea (2005) no Vale a Pena Ver de Novo elevou os índices de audiência da faixa, superando, em alguns momentos, até novelas inéditas. No ano seguinte, A Viagem (1994) voltou ao ar e repetiu o bom desempenho, confirmando a força de um folhetim que atravessa gerações.
Em 2026, a emissora repete a estratégia ao escalar Além do Tempo (2015) para a Edição Especial. Trata-se de uma novela com forte apelo emocional e lembrada como uma das mais inovadoras da dramaturgia recente.
Mesmo fora do radar criativo da Globo, o espiritismo segue sendo um tema que segura o público. Em um cenário de disputa com telejornais populares e programas de fofoca, essas reprises funcionam como diferencial para fidelizar a audiência e criar uma transição mais eficiente para o horário nobre.
No entanto, a ausência de novas produções do gênero levanta uma questão direta: por que a Globo abriu mão de investir em um formato que segue comprovadamente eficiente?
Qual é a história de Além do Tempo?
Além do Tempo volta ao ar nesta segunda-feira (27) com uma história que se destacou por dividir a narrativa em duas fases completas, separadas por um salto de cerca de 150 anos.
Na primeira etapa, ambientada no século19, desenvolve-se o romance entre Lívia (Alinne Moraes) e Felipe (Rafael Cardoso). Eles enfrentam resistência familiar e diferenças sociais, especialmente por parte da condessa Vitória (Irene Ravache) e de Emília (Ana Beatriz Nogueira). A história mistura conflitos clássicos com a ideia de destino e consequências que atravessam vidas.
Na segunda fase, já nos dias atuais, os personagens reaparecem com novas identidades, mas ligados por laços do passado. O reencontro entre Lívia e Felipe retoma os conflitos sob novas circunstâncias, consolidando uma estrutura que mistura romance, espiritualidade e reconfiguração de destinos.












