Quando O Agente Secreto (2025) conseguiu superar as três indicações ao Oscar de Ainda Estou Aqui (2024) e receber quatro nomeações ao todo, uma categoria
em particular deixou um ponto de interrogação na mente dos próprios realizadores da obra. Além de melhor filme, filme internacional e ator (para Wagner Moura), o longa e o brasileiro Gabriel Domingues foram selecionados para disputar a estatueta de seleção de elenco. Mas o que isso significa, na prática?
Durante o painel E o Oscar Vai para... Casting de Elenco Latino, no Rio2C --evento de inovação que aconteceu no Rio de Janeiro no fim de maio--, Gabriel Domingues admitiu que, mesmo alguns meses após a cerimônia do Oscar, ele ainda não sabe dizer, de maneira precisa, quais critérios o levaram a disputar a categoria da maior premiação do cinema mundial.
"Poderia ser pelo todo, pelo conjunto, que eu acho que é o caso. No final das contas, eu acho que o prêmio, a categoria de casting, ela é uma categoria que valoriza o conjunto da escalação, e não performances individuais. Eu acho que foi um pouco por aí, mas ninguém sabia", revelou ele no evento, ao lado do colega de profissão Walter Rippel e da atriz Valentina Herszage.
O profissional foi indicado ao Oscar na até então inédita categoria de melhor seleção de elenco (best casting) por O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho. O filme brasileiro disputou com obras como Pecadores, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, Marty Supreme e Uma Batalha Após a Outra.
A cerimônia aconteceu em março deste ano, e foi a primeira vez em que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas decidiu premiar o trabalho de encontrar e selecionar os atores de um filme. Quem levou a estatueta para casa foi a representante de Uma Batalha Após a Outra, Cassandra Kulukundis.
Domingues contou que chegou a Hollywood sem saber ao certo o que encontraria --e percebeu que mesmo seus colegas gringos mais experientes também estavam "perdidos" na nova categoria da premiação.
"Eu tive que fazer essa defesa lá no dia, mas sem muita segurança, sem saber muito, porque era o primeiro ano, então nem mesmo a galera de lá sabia. Imagina, se eles que são da indústria não sabiam, que dirá eu, que nunca tinha ido lá (risos). E eu não conhecia ninguém, fiquei assim: 'Nossa, vou falar aqui de O Agente Secreto', falei e fui embora. E aí, depois eles gostaram e indicaram o filme", celebrou.
O trabalho de Gabriel Domingues foi muito além da convocação dos astros e estrelas da trama, como Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido ou até mesmo o protagonista Wagner Moura. O Agente Secreto também ficou marcado por atores até então desconhecidos do grande público e que roubaram a cena, como Tânia Maria.
"Eu tinha muito essa dúvida. Por que demorou tanto para essa categoria existir? Eu perguntava para as pessoas, elas tentavam me explicar vagamente. Assim, cada um tinha uma opinião, mas o que eles falaram é que, primeiro, era uma função que era tida como muito técnica, quase como se fosse uma subfunção dentro do departamento de direção ou de produção", explicou ele.
Para o diretor, a indicação brasileira abre um precedente de valorização da categoria no país --que já é bem organizada nos Estados Unidos. "Era tipo assim: um assistente de direção que faz o casting quando dá, sabe? Junto com as outras coisas, com um pensamento meio assim: 'Ah, sei lá, vai fazendo aí, vai achando os atores aí', sabe? Foi assim durante um bom tempo", falou.
"Mas, por outro lado também, conversando com a galera de lá, eles falavam: 'Nós somos muito organizados, a gente já existe há 40 anos', e tem um sindicato lá, o Casting Society of America. Então assim, eles 'botaram' uma pressão e uma banca, de que a indústria não sobrevive, não anda mais, sem eles. Sem nós, no caso", resumiu.
Além de O Agente Secreto, Gabriel Domingues também é o responsável pelo elenco de Cangaço Novo, série do Prime Video que, assim como o filme de Kleber Mendonça Filho, joga luz e destaca rostos e corpos que fogem do "padrão" --e que surpreenderam o público.
"Acho que aqui no Brasil também não tem como fazer séries, filmes, essa quantidade de coisas que as pessoas estão fazendo hoje em dia... Não é possível fazer isso sem uma pessoa designada especificamente para pensar no elenco. Então, eu acho que a mudança veio um pouco desse lugar: da organização dos profissionais e também da necessidade da gente existir", cravou Domingues.











