A ideia de que exercícios aeróbicos podem atrapalhar o ganho de massa muscular é antiga e ainda gera discussão entre praticantes de atividade física. Agora, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade
de São Paulo (USP) sugere que combinar musculação com exercícios cardiovasculares de alta intensidade não reduz a hipertrofia muscular — ao menos dentro das condições avaliadas pelos cientistas.
O trabalho foi publicado em dezembro de 2025 no Journal of Applied Physiology e acompanhou 19 homens jovens, saudáveis e sem experiência recente em treinamento físico.
Durante 16 semanas, os voluntários foram divididos em dois grupos. Um deles realizou apenas treino de força, enquanto o outro combinou musculação com sessões de HIIT, modalidade de treino aeróbico intervalado de alta intensidade.
Segundo os pesquisadores, o objetivo era investigar se o chamado “efeito de interferência” realmente acontece. A teoria, popularizada desde a década de 1980, propõe que unir exercícios aeróbicos e de musculação poderia limitar adaptações ligadas ao crescimento muscular.
Os participantes treinaram musculação duas vezes por semana. Já o grupo combinado também realizou quatro sessões semanais de HIIT em bicicleta ergométrica.
Antes e após o período de treinamento, os cientistas analisaram diferentes marcadores relacionados à hipertrofia muscular. Entre eles estavam a síntese de proteínas musculares, o tamanho das fibras musculares e a quantidade de células satélites — estruturas importantes para recuperação e crescimento do músculo.
Os pesquisadores também coletaram amostras musculares por meio de biópsias do músculo vasto lateral, localizado na coxa. A intenção era observar, em nível celular, como o organismo respondia aos diferentes tipos de treinamento.
Ao final das 16 semanas, os dois grupos apresentaram aumento da massa muscular e crescimento das fibras musculares do tipo II, relacionadas à força e potência.
Segundo o estudo, não houve diferença significativa entre os grupos na resposta de síntese proteica muscular após os treinos. Os cientistas também observaram aumento semelhante no número demionúcleos e de células satélites associadas às fibras musculares.
Para os autores, os resultados indicam que adicionar HIIT ao treino de força não prejudicou mecanismos biológicos importantes para a hipertrofia muscular.
Em contrapartida, o grupo que treinou apenas musculação apresentou ganhos maiores de força máxima em alguns exercícios quando comparado ao grupo combinado.
Já os participantes que fizeram musculação junto com HIIT tiveram melhora da capacidade cardiorrespiratória, adaptação que não ocorreu no grupo da musculação isolada.
O que significa o “efeito de interferência”
O chamado efeito de interferência é uma hipótese criada a partir de estudos antigos que sugeriam conflito entre adaptações provocadas pelo treino aeróbico e pelo treino de força.
Segundo os autores do novo trabalho, muitos estudos anteriores utilizaram volumes elevados de exercícios aeróbicos contínuos, o que poderia aumentar o desgaste físico e dificultar a recuperação muscular.
No novo experimento, o cardio foi realizado em formato HIIT, com estímulos intervalados de alta intensidade. Para os pesquisadores, o modelo pode explicar por que não houve prejuízo relevante na hipertrofia muscular observada no grupo combinado.
Os próprios autores destacam que os achados se referem especificamente ao protocolo analisado no estudo: homens jovens, saudáveis e destreinados submetidos a musculação associada ao HIIT.
Por isso, os resultados não podem ser automaticamente extrapolados para mulheres, idosos, atletas de alto rendimento ou pessoas que realizam grandes volumes de exercícios aeróbicos contínuos.
Ainda assim, o estudo reforça que incluir cardio na rotina pode não ser um obstáculo para quem deseja ganhar massa muscular, principalmente quando o treinamento é planejado de forma equilibrada.











