Além dos problemas já conhecidos do avanço do desmatamento na Amazônia, agora uma nova ameaça preocupa os cientistas: a transmissão de doenças humanas a primatas neotropicais selvagens.
De acordo com uma
pesquisa publicada em abril deste ano narevista EcoHealth — liderada pelas Universidades de Salford , na Inglaterra, e Federal do Amazonas, no Brasil, foi identificado o vírus da hepatite B humana (HBV) em macacos.
Essa “transmissão zoonótica reversa” — quando doenças humanas são passadas para os animais — está ocorrendo por conta do avanço de humanos na área que serve de habitat para esses animais, acompanhado da destruição do meio ambiente.
O professor Jean Boubli, da Universidade de Salford, líder da pesquisa, destacou, em comunicado, que este é um enorme sinal de alerta, mas que ainda há muito o que aprender.
“Nossos resultados foram claros: macacos que convivem muito mais próximos de humanos têm muito mais probabilidade de contrair o vírus da hepatite B (HBV). Sabe-se que o HBV é transmitido apenas por meio de sangue, saliva ou outro contato íntimo. Ainda não sabemos a via de infecção em macacos. Isso é algo que precisamos investigar.”
Pesquisa identifica o vírus HBV em primatas
Para chegar ao resultado, a pesquisa comparou grupos de primatas que vivem em regiões diferentes: uma fortemente impactada pelos humanos, localizada nos estados brasileiros de Rondônia e Mato Grosso, e outra área remota e preservada no interior da floresta, ao longo do alto rio Japurá, no estado do Amazonas. A análise foi feita em 88 macacos, de 28 espécies diferentes.
Os cientistas analisaram amostras de sangue e de tecido hepático desses animais coletadas entre julho de 2009 e novembro de 2013.
Dessa forma, os pesquisadores identificaram que, nas zonas impactadas por interferência humana (Rondônia e Mato Grosso), o VHB foi constatado em 17 dos 49 primatas analisados.
Já na zona mais remota, no alto rio Japurá, nenhuma das 39 amostras de 11 espécies de macacos apresentou a presença do vírus.
Proximidade populacional humana é significativa para as infecções
Após as análises, foi possível perceber, estatisticamente, que a densidade populacional humana é significativamente preditora para a infecção desses primatas, já que os genótipos virais encontrados nos animais (VHB-A e VHB-D) são os mesmos que circulam na população humana local.
Riscos futuros
Apesar dos resultados, os autores apontam que há uma limitação metodológica, pois os tipos de amostras e as abordagens analíticas variaram entre as regiões, o que pode manter uma margem de incerteza biológica.
Outro ponto de alerta dos cientistas é o risco de o VHB ou outros patógenos sofrerem mutações e retornarem de forma ainda mais perigosa para as populações humanas. Assim, eles sugerem vigilância urgente e medidas preventivas na Amazônia.













