O Museu da Língua Portuguesa, localizado no centro dacapital paulista, decidiu encerrar antecipadamente a exposição sobre funk que estava sendo alvo de políticos do PL por conta de seu conteúdo. O vereador
Lucas Pavanato (PL) e o pré-candidato a deputado estadual Felipe Sertanejo (PL) entraram com uma denúncia no Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra a mostra.
A exposição Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade começou em novembro de 2025 e estava prevista para durar até agosto de 2026. Porém, a administração do museu informou que o encerramento aconteceria ainda no último domingo (31/5).
Em nota, o Museu da Língua Portuguesa informou que o adiantamento do fim da mostra se deu para “possibilitar a realização de duas novas mostras ainda neste ano” e que a exposição em questão “ficou em cartaz por seis meses, tempo médio de exibição das mostras temporárias da instituição”.
A denúncia ao MPSP questionou o conteúdo da exibição sobre o gênero musical funk, com base em um vídeo produzido por Sertanejo, em que o político mostra trechos da exposição em que são vistas mulheres dançando funk com roupas curtas e bailes com homens portando armas.
Pavanato e Sertanejo pediram ao órgão que apurasse possíveis violações ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) por conta da “exposição indevida de menores ao conteúdo considerado impróprio, além de eventual apologia ao crime organizado”.
Em nota, o MPSP confirmou que há um procedimento em andamento sobre o tema em fase preliminar para apurar a denúncia, e que até o momento expediu ofícios ao Museu, à Secretaria Municipal de Educação e à Secretaria da Cultura para solicitar informações sobre o conteúdo da mostra, critérios de classificação indicativa, medidas de controle de acesso, realização de visitas escolares, advertências ao público e orientação de monitores.
“A atuação do MPSP não envolve juízo artístico, curatorial, político ou cultural sobre a exposição. O objetivo é verificar o cumprimento das normas de proteção integral de crianças e adolescentes e de classificação indicativa, sem prejuízo da liberdade de expressão artística e da vedação constitucional à censura. O MPSP também não se pronuncia sobre motivações político-partidárias atribuídas a terceiros”, afirmou.
O órgão destacou ainda que, apesar das recentes polêmicas e do encerramento da exposição, não determinou qualquer alteração, interrupção, censura ou encerramento da mostra em questão e que “eventuais alterações realizadas, caso tenham ocorrido, devem ser esclarecidas pela própria instituição”.
Mostra sobre gênero musical
A mostra Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade foi concebida originalmente pelo Museu de Arte do Rio (MAR), onde ficou mais de um ano em cartaz, com objetivo de debater o papel do funk nos repertórios linguísticos, artísticos e afetivos, segundo o Museu da Língua Portuguesa.
A exposição contou com mais de 470 obras e itens de acervo, como pinturas, fotografias e registros audiovisuais mostrando o caminho percorrido pelo gênero musical tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. A curadoria foi feita por Taísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan, Marcelo Campos e Renata Prado.
Especialistas apontam censura
Após a divulgação do encerramento prévio da exibição, Renata Prado, que participou da curadoria, se posicionou através de uma carta aberta apontando uma clara censura em relação ao conteúdo da mostra. Nela, Renata apontou que foi comunicada pelo museu de que a mostra seria encerrada e que outra seria colocada no lugar, “algo que jamais havia sido apresentado ou discutido ao longo do processo de produção”.
“Manifestei meu entendimento de que o encerramento da exposição, após a pressão política da extrema direita, configurava um ato de censura. Em tempo, reforço que a exposição que hoje está sendo criminalizada e censurada foi construída por artistas cujas trajetórias são amplamente reconhecidas por instituições culturais, curadores, pesquisadores e críticos de arte de todo o país”, disse Renata.
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Em seu perfil nas redes sociais, a historiadora e membra da Academia Brasileira de Letras (ABL), Lilia Schwarcz, manifestou repúdio à finalização antecipada e também apontou censura na decisão. “Eu vi a exposição e a crítica não procede. É censura mesmo. Aliás, 12 de julho é o dia nacional do funk e a mostra dialogaria com essa data — se não tivesse sido proibida. Por sinal, a mostra que permaneceu aberta no Rio sem maiores problemas, por aqui virou cavalo de pau da extrema direita.”
“Não há nenhum crime nela. Ao contrário trata-se de uma celebração histórica acerca do funk que é uma das mais vigorosas expressões culturais brasileiras contemporâneas. Nascido nas periferias urbanas, ele transformou experiência social em linguagem estética, inventando formas próprias de música, dança, moda, sociabilidade e pertencimento. Mais do que um gênero musical, o funk é uma poderosa plataforma de criação coletiva, afirmação identitária e ocupação do espaço público por grupos historicamente marginalizados”, declarou Lilia.











