A América Latina é considerada uma das regiões mais violentas do mundo e as altas temperaturas podem estar contribuindo para isso. É o que afirma um novo estudo realizado por pesquisadores brasileiros
e internacionais.
Segundo o trabalho, o calor torna as pessoas mais suscetíveis ao estresse e, como consequência, mais propensas a atitudes truculentas
. Assim, com o avanço do aquecimento global, o risco de homicídios acompanha o mesmo ritmo.Pioneiro, o trabalho trata de uma associação inédita entre o calor e a violência na porção latina do mapa. O estudo faz parte do projeto Saúde Urbana na América Latina (SALURBAL-Climate), que contou com a participação de especialistas da Universidade São Paulo (USP). Os resultados foram publicados na revista científica Environmental Research em março.
A investigação analisou dados de 307 cidades em sete países — Brasil, Argentina, México, Colômbia, Chile, Peru e Costa Rica – de 2000 a 2019. Foram analisadas mais de 1,19 milhão de notificações de mortes por homicídio para descobrir como as alterações climáticas impactam nos níveis de violência.
O que o calor tem a ver com a violência?
Durante o estudo, foi detectado que cerca de 0,6% dos homicídios analisados podem ser associados diretamente às altas temperaturas. Quando investigados por diferentes atributos, como grupos populacionais, sexo, idade, renda média ou nível, não foram identificadas diferenças consideráveis em relação ao efeito que o calor provoca na violência.
Por outro lado, o trabalho não determinou quais são os mecanismos específicos que causam a associação entre altas temperaturas e o risco maior de homicídios.
Em entrevista ao Metrópoles, a primeira autora do estudo, Sara Lopes de Moraes, explica que há evidências de que as altas temperaturas elevam a irritabilidade, agressividade, impulsividade e estresse fisiológico. Como consequência, o risco de conflitos interpessoais violentos aumenta.
“Existem mecanismos indiretos que também podem contribuir para essa associação. Em dias mais quentes, tende a existir uma maior circulação de pessoas em espaços públicos, aumentando as oportunidades de interação social e, consequentemente, de conflitos. O calor também pode influenciar padrões de comportamento, como o consumo de álcool e outras atividades que podem contribuir para um ambiente mais propício à ocorrência de violência”, afirma Sara.
Clima pode nortear a criação de políticas públicas de segurança
Como é um tema pouco abordado, a relação entre o calor e a violência não costuma ser considerada na criação de novas políticas públicas de segurança. Para os pesquisadores, mudar a tática pode trazer resultados.
“Medidas como planos de ação para ondas de calor, sistemas de alerta precoce, intervenções para reduzir o calor urbano e a incorporação de riscos relacionados à temperatura no planejamento da segurança pública podem ajudar a antecipar períodos de maior vulnerabilidade e apoiar ações preventivas”, avalia Sara.
No entanto, a pesquisadora ressalta que fatores como desigualdade, pobreza, crime organizado, acesso a armas, fragilidade das instituições e violência estatal continuam sendo as principais causas da violência na América Latina.
“O que nossos resultados mostram é que a temperatura pode funcionar como um fator adicional de risco dentro desse contexto”, diz.











