Você já reparou que algumas meninas e mulheres "somem" das redes ou trancam os perfis depois de
ocê já reparou que algumas meninas e mulheres "somem" das
redes ou trancam os perfis depois de virarem alvo de ataques? Por trás desse movimento existe um fenômeno que ganhou nome e você, leitor e leitora de CAPRICHO, cronicamente online, precisa saber qual é: a violência de gênero facilitada pelas tecnologias, ou VGFT. E uma pesquisa do Instituto Minas Programam acaba de mostrar o tamanho do problema no Brasil e como isso pode impactar a vida de quem é jovem e sonha em ocupar espaços em meios entendidos como majoritariamente masculinos como ciência, tecnologia ou até a política.
Realizado entre abril de 2024 e março de 2025, o estudo “Cavando nossos espaços” entrevistou mulheres negras brasileiras — escritoras, políticas, profissionais de tecnologia, estudantes, líderes comunitárias, artistas e jornalistas — que sofreram algum tipo de ataque online por simplesmente existirem e se posicionarem em ambientes públicos.
E não, não precisa ser famosa ou ter muitos seguidores
Esse talvez seja o achado mais impactante do estudo: o ataque não escolhe currículo. “Não é necessário ser uma figura pública para receber ataques, basta ser uma mulher negra que se posicione”, afirma, Bárbara Paes, diretora do Minas Programam e uma das autoras do estudo à CAPRICHO. “Pelas entrevistas, percebemos diversos casos de VGFT contra mulheres negras com sua exclusão de espaços como bibliotecas, universidades, política e de profissões STEM, e uma negação do seu reconhecimento como intelectuais, criadoras de conhecimento e educadoras.”
A pesquisa mostra que a violência atinge mulheres negras independentemente de suas posições, idades e níveis hierárquicos, funcionando como uma extensão do racismo e do machismo que já existem fora das telas. Para Ester Borges, também autora do estudo, “qualquer mulher negra está sujeita a esse tipo de ataque, já que a VGFT busca com frequência reproduzir e amplificar narrativas de que essas mulheres são inadequadas ao debate público e não são aptas a determinados cargos”.
As pesquisadoras explicam à CAPRICHO que esse tipo de violência opera muito por meio da deslegitimação intelectual e moral das mulheres negras.
“Há um esforço contínuo para questionar sua competência, sua autoridade técnica, sua legitimidade política e até sua humanidade. É uma violência que tenta recolocar essas mulheres em lugares historicamente subordinados”, afirmam. Para nomear esse mecanismo, a pesquisa dialoga com o termo misogynoir, criado pela acadêmica Moya Bailey para descrever a mistura específica de racismo e misoginia que recai sobre mulheres negras no ambiente digital.
Acontece na vida real, com pessoas próximas a você
Os casos reunidos no estudo mostram como a violência atravessa gerações e profissões diferentes. Um exemplo é o caso da Beatriz* que, aos 50 anos, sofreu uma série de ataques enquanto atuava como professora substituta em uma universidade pública. Estudantes usavam as redes para difamá-la e estimular outros a fazerem o mesmo.
“Diziam que eu era muito rígida e que, em vez de dar tarefas difíceis para eles fazerem, eu precisava de um homem que tomasse conta de mim. E as pessoas curtiam esses comentários”, relata. Mesmo após denunciar, ela sentiu que o reconhecimento institucional do racismo e da misoginia foi superficial, relatou às pesquisadoras.
Michelle*, 34, começou a ser atacada em 2019, quando liderou a abertura de uma biblioteca comunitária batizada de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018. Os comentários a chamavam de “mulherzinha” e questionavam sua autoridade para tocar o projeto: “O que ela acha que está fazendo?”, indagavam.
Já Maria*, 30, mulher negra e nordestina, planejava disputar as eleições municipais em 2018 quando passou a receber ligações anônimas descrevendo exatamente onde ela estava. A sensação de estar sendo vigiada se tornou insuportável. “Percebi que as redes sociais tinham um papel muito importante, mas também me senti desmotivada para ser influenciadora. Abandonei totalmente o papel de influenciadora política depois disso”, conta Maria, que desistiu da candidatura.
O efeito (in)visível: meninas que desistem antes de tentar
A violência se manifesta muito além das redes sociais, acredite. “Os impactos são profundos porque a violência funciona não apenas como punição, mas como mecanismo disciplinador. Meninas negras e jovens lideranças observam o que acontece com mulheres que se tornam vocais em espaços de tecnologia, ciência, política ou comunicação e passam a entender que existir nesses ambientes pode significar exposição permanente à violência”, explicam.
O resultado aparece cedo. “Muitas jovens começam a moderar sua participação pública antes mesmo de ocupar determinados espaços. Outras abandonam cursos, reduzem presença online, evitam debates públicos ou deixam de se candidatar a oportunidades de liderança”, afirmam as autoras. E há um agravante: em áreas de STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática), onde já existe uma exclusão histórica de mulheres negras, “a violência digital acaba funcionando como uma barreira adicional”.
Sair das redes? A escolha não é tão simples
As pesquisadoras se recusam a falar em “autoexílio”. “As escolhas feitas pelas participantes não são simples nem binárias. Não estamos falando apenas de 'sair das redes' ou 'continuar exposta'. O que encontramos são processos complexos de reorganização estratégica da presença digital”, explicam. "Mais do que apenas remover conteúdo violento, a discussão envolve pensar que tipo de internet está sendo construída e quem participa dessas decisões."
Na prática, isso significa pensar muito mais nos movimentos online: quais plataformas usar, que tipo de conteúdo publicar, quais informações pessoais compartilhar e quais interações evitar. Essa negociação permanente entre visibilidade, segurança, saúde mental e ação política, segundo elas, “tem um custo desigual, porque mulheres negras precisam desenvolver estratégias contínuas de autoproteção para permanecer em ambientes digitais que frequentemente já operam de maneira hostil a elas”.
Apesar de tudo, a análise aponta para uma solucão. “As participantes da pesquisa se recusaram a ficar silenciadas. São histórias de reconstrução coletiva, com mulheres negras definindo novas formas de continuar atuando”, dizem.
O estudo mostra que o caminho de volta muitas vezes passa pelo apoio de outras mulheres. Mariane, 27, maquiadora e líder comunitária, apagou suas redes e se afastou completamente do digital após sofrer uma enxurrada de ataques misóginos, racistas e gordofóbicos. Foi a amizade com uma vizinha e o ingresso em um coletivo feminista que iniciaram seu processo de recuperação.
Para a estudante universitária Letícia, 24, vítima de agressão física e de uma campanha de difamação, a esperança vem justamente dessa rede. “Por mais que esse espaço seja hostil, estou disposta a construir algo mais acolhedor para nós. Para que outras não passem pelo que eu passei”, afirma. “É um lugar onde eu fui vítima de violência, mas é um lugar onde eu vou ficar, porque é uma arena de disputa política e onde a gente precisa estar."
E sobre 2026? As pesquisadoras apontam para uma preocupação legítima com o aprofundamento dessas dinâmicas em ano eleitoral, mas reforçam que o debate urgente é sobre responsabilidade das plataformas e condições reais de permanência das mulheres negras na vida pública digital.
"Achamos que existe uma preocupação legítima com o aprofundamento de dinâmicas de violência online contra mulheres negras. Mas, mais do que prever um cenário específico, a pesquisa aponta para a urgência de discutir responsabilidade das plataformas, proteção específica às mulheres negras e condições reais de permanência na vida pública digital", apontam.
E você aí do outro lado? Como age para construir uma internet melhor para você e para seus pares?











