Alguém já tocou em você de um jeito que te deixou desconfortável e você não soube o que faz
lguém já tocou em você de um jeito que te deixou desconfortável
e você não soube o que fazer? Se você, assim como eu, respondeu que sim, saiba: durante muito tempo, eu também não soube o que fazer com essa sensação. E o que eu aprendi até agora é: não erramos e não estamos sozinhas.
Trago esse tema para a coluna deste mês, porque 18 de maio é o Dia Nacional do Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. E você sabe qual a importância desta data?
No Brasil, 78% das vítimas de estupro têm até 17 anos e 61,3% são menores de 14 anos — o que significa haver seis estupros por hora. Os dados, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são apenas uma fração do que realmente acontece no país, já que só 11% dos crimes de estupro são denunciados.
E, não sei se você sabe, mas a grande maioria dos estupros de vulneráveis, praticamente 70%, acontece dentro de casa, 85% das vítimas são meninas e 92% dos crimes são praticados por pessoas próximas — como um familiar, vizinho ou amigo da família. Ou seja, não é o estranho da rua. Quase nunca é. E isso explica por que é tão difícil falar sobre o assunto.
Quando o abusador é alguém próximo, o silêncio aparece como a única saída. A vergonha surge no lugar da raiva, da indignação. A dúvida aparece onde deveria estar a certeza de que o que aconteceu foi errado.
Como psicanalista, lido com essas questões com frequência — de crianças, adolescentes e adultos que carregam por anos um trauma que nunca conseguiram nomear, porque quem sofreu uma violência sexual, muitas vezes, carrega a sensação de que o erro foi seu.
Nomear é o primeiro passo. E é também nomeando a violência que podemos falar de prevenção. Abordando consentimento e entendendo o que é violência sexual.
Consentimento não é um tema de aula ou um simples “sim é sim, não é não”. É algo que diz respeito ao seu corpo, às suas escolhas, ao seu direito de dizer “sim” ou “não” – e isso vale para qualquer pessoa e em qualquer situação, sem necessidade de explicação.
O livro Precisamos falar de Consentimento: uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não, de Arielle Sagrillo Scarpati, Beatriz Accioly Lins e Silvia Chakian (Amazon R$ 73*), coloca em palavras aquilo que deveria ser ensinado desde cedo: o assunto não precisa envolver conversas difíceis e pode ser discutido com uma linguagem simples.
Essa é uma conversa necessária, até porque, entre o “sim e o não”, existe uma enorme zona em que a violência muitas vezes se esconde. E essa conversa precisa acontecer nas escolas, nos grupos de amigos e em casa. Se quiser começar por algum lugar, o vídeo “Consent: It’s Simple as Tea”, disponível no YouTube, explica o que é consentimento de um jeito leve e descomplicado — e vale assistir com seu grupo de amigas, familiares e parceiros.
No Instituto Liberta, onde trabalho, existe um programa chamado “Tá na Hora” dedicado a jovens do Ensino Fundamental e Médio. Nele, estudantes mergulham no tema da violência sexual, entendem o cenário, conhecem seus direitos e, ao final, criam campanhas de conscientização para impactar suas próprias comunidades. Não como vítimas, mas como agentes de transformação.
Porque adolescentes que entendem o que é violência conseguem reconhecê-la. Em si e nos outros.
E é aí que você entra.
E se uma amiga te contasse que algo assim aconteceu com ela, você saberia o que fazer? A resposta mais importante não é ter todas as respostas — é não minimizar, não questionar e não deixá-la sozinha.
Acredite. Acolha. E, juntas, busquem ajuda.
Se você ou alguém que você conhece precisar denunciar, o Disque 100 é um serviço de utilidade pública disponível 24 horas por dia, gratuito e que pode ser anônimo. Tem informações e funciona como um canal de denúncias de violações de direitos humanos.
E o Instituto Liberta tem materiais e mais informações em liberta.org.br, ou no próprio Instagram @institutoliberta.
O seu corpo é seu. Essa informação deveria ter chegado antes. Mas chegou agora. Se quiser conversar comigo, pode me procurar em @renatagreco.psi. Vamos conversar :)
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