Depois de meses dominando as redes sociais e abrindo debates sobre a maneira como vivemos o mundo
epois de meses dominando as redes sociais e abrindo debates
sobre a maneira como vivemos o mundo do trabalho (envolvendo cansaço, burnout e saúde mental), a proposta que acaba com a chamada "escala 6x1" deu um passo importante no Congresso Nacional nesta semana.
Na noite desta quarta-feira (27), a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a PEC 221/19, que reduz a jornada máxima de trabalho no Brasil de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial.
O texto recebeu 461 votos favoráveis e 19 contrários no segundo turno. Agora, a proposta segue para o Senado, onde ainda pode enfrentar resistência antes de virar lei. Mas afinal: o que muda na prática? E por que essa discussão é importante também para quem está chegando agora no mercado de trabalho? A CAPRICHO te explica.
Afinal, o que é a escala 6x1?
Bem, vamos lá: a chamada escala 6x1 é um modelo em que a pessoa trabalha seis dias seguidos e folga apenas um. Ela é comum principalmente em áreas como:
- comércio;
- supermercados;
- farmácias;
- fast-food;
- telemarketing;
- hotelaria;
- serviços em geral.
Na prática, muita gente trabalha praticamente a semana inteira e acaba tendo pouco tempo para descansar, estudar, cuidar da saúde mental ou ter vida social, por exemplo. Sabe aquela sensação de "viver cansado o tempo todo"? Apesar de normalizada, essa é a realidade de muitas pessoas que trabalham neste modelo de jornada que, inclusive, é compartilhada nas redes sociais.
O que a PEC aprovada pela Câmara prevê?
O texto aprovado pelos deputados nesta semana estabelece algumas mudanças importantes na jornada de trabalho brasileira (e isso afeta quem já está no mercado de trabalho, ou até você, leitor e leitora de CAPRICHO, que está no primeiro estágio ou primeiro emprego).
Mas, claro, a principal mudança é a redução da carga horária máxima de 44 horas semanais para 40 horas semanais. E isso sem redução salarial. Ou seja, voltando ao enunciado desta matéria: se a PEC virar lei, trabalhadores continuariam recebendo o mesmo salário, mas trabalhando menos horas.
Segundo o texto aprovado na Câmara - que ainda precisa passar por aprovação no Senado - as novas regras passariam a valer 60 dias após a promulgação da PEC.
A escala 6x1 acaba imediatamente?
Não exatamente. Mesmo com a mudança constitucional, especialistas apontam que empresas e setores econômicos ainda precisariam reorganizar jornadas, escalas e contratos de trabalho.
Áreas que funcionam diariamente, como hospitais, supermercados, restaurantes e transporte público, provavelmente precisariam criar novos modelos de escala e contratar mais funcionários para compensar a redução da carga horária. É justamente aí que começam as críticas de setores empresariais.
Quem votou contra, CAPRICHO?
Apesar da aprovação ampla, 19 deputados votaram contra a proposta. A maior parte dos votos contrários veio de parlamentares ligados a partidos mais alinhados ao setor empresarial, que argumentam que a medida pode:
- aumentar custos para empresas;
- gerar impacto no comércio e nos serviços;
- provocar dificuldades para pequenos empresários;
- afetar geração de empregos.
Já os deputados favoráveis defenderam que a redução da jornada melhora:
- qualidade de vida;
- saúde mental;
- produtividade;
- equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.
Além disso, muitos parlamentares afirmaram que o modelo atual se tornou incompatível com a realidade de trabalhadores que enfrentam longos deslocamentos, estudos e jornadas exaustivas.
Agora, a PEC precisa passar pelo Senado Federal, e é aí que a discussão pode ficar mais complicada. Isso porque propostas que alteram direitos trabalhistas costumam enfrentar: pressão de setores empresariais; lobby econômico; debates sobre impacto financeiro; negociações políticas mais longas.
Senadores ligados ao mercado e ao empresariado já sinalizaram preocupação com aumento de custos operacionais; necessidade de novas contratações; possíveis impactos em pequenos negócios.
Além disso, PECs precisam de aprovação em dois turnos também no Senado, com apoio de pelo menos três quintos dos parlamentares. Ou seja: mesmo após a vitória na Câmara, o texto ainda enfrenta uma caminhada importante até virar realidade.
Por que a galera jovem abraçou esse debate?
Para muita gente, principalmente quem está entrando agora no mercado de trabalho, o debate sobre a escala 6x1 não fala apenas sobre horas trabalhadas. Fala sobre a possibilidade de existir para além do trabalho.
Nos últimos anos, a Geração Z passou a questionar cada vez mais, dentro e fora das redes sociais, a cultura do excesso de trabalho; romantização do cansaço; burnout precoce; produtividade extrema; falta de tempo para viver.
Aqui na CAPRICHO, nós já conversamos com a Galera CAPRICHO - nosso grupo de leitores-colaboradores - sobre o mundo do trabalho.
Emanuele Assereuy, por exemplo, de 17 anos, acredita que a geração z lida não só com carga de trabalho e pressão, mas também com saúde mental de forma diferente já que eles valorizam mais o "equilíbrio entre vida pessoal e profissional", visão sobre o mercado de trabalho, muito diferente da que o pais tinham.
"Meus pais e pessoas mais velhas parecem valorizar mais a estabilidade e a segurança no emprego, enquanto nossa geração tende a buscar mais flexibilidade, propósito e realização pessoal no trabalho", pontua.
Além da carga horária de trabalho, outros pontos como realização pessoal, mobilidade geográfica e habilidades pessoais são lidados com mais cuidado e atenção pela geração z, é o que afirma a Laura Matos, de 15 anos. A própria definição e significado de "trabalho", para ela, é muito mais sobre contribuição social e algo que os motiva a transformar a sociedade. A Ana Beatriz, de 18 anos, também vê o significado de "trabalho" diferente do que uma pessoa de outra geração possa enxergar, mas também não necessariamente pelo lado positivo.
"Ainda não estou trabalhando, mas não tem como não associar trabalho com algo negativo porque quando todo mundo pensa no trabalho, a gente pensa num desgaste e em quanto tempo as pessoas trabalham até se aposentar", explica, ao mesmo tempo que, em contrapartida, sabe que um ambiente de trabalho dos sonhos é flexível, onde ela pode ter uma vida social, que não acabe com sua saúde mental.
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