Por que mulheres precisam estar sempre produzidas, vestindo roupa
or que mulheres precisam estar sempre produzidas, vestindo roupas extravagantes e acompanhadas
de grandes cenários, enquanto homens apenas sobem aos palcos com seus microfones e moletons? Se você acompanha o atual cenário musical pop, especialmente as turnês e festivais que vêm acontecendo, sabe que existe um abismo estético e artístico entre homens e mulheres da indústria.
Crescemos assistindo a clipes mega produzidos de divas como Katy Perry, Beyoncé e Madonna, enquanto os homens nos entregavam dançarinas sexualizadas e cenários comuns, deixando bem clara a separação com o imaginário coletivo que era construído na cena feminina.
Se, nos primórdios da arte feminina, ela era vista como vulgar, inadequada e até mesmo exagerada, hoje ela precisa manter esse padrão esperado de quebrar tabus para provar que merece espaço. Estar no palco sendo mulher não é apenas sobre arte, é também mais um momento constante de provação.
O cabelo não pode estar bagunçado. Sempre maquiadas e com roupas, por vezes, desconfortáveis e reveladoras, elas precisam, a todo momento, provar que merecem estar ali, não pela sua capacidade artística. Na verdade, isso pouco importa para alguns, mesmo que cantoras estejam no palco justamente para cantar. Se o palco está vazio, falta algo. Se o palco está cheio, logo, poderia ter menos. Nunca é o suficiente quando se é uma mulher na indústria criativa.
Artistas masculinos recebem o maior cachê dos festivais, se apresentam na companhia singela de luzes piscantes, com um aplicativo espelhado no telão exibindo seus clipes, roupas casuais e, às vezes, utilizam de uma passarela para “inovar”. Ainda assim, isso basta para que sejam os mais bem avaliados de uma premiação ou festival, que sejam considerados revolucionários, afinal, quanto mais longe do padrão feminino, melhor. Enquanto mulheres que utilizam de menos elementos visuais e, ainda assim, erguem multidões, recebem críticas que classificam sua arte como “humilde” e “preguiçosa”, como ocorreu com a artista Marina no Lollapalooza Brasil 2026.
A verdade é que o público não perdoa. Se há muita cenografia, dançarinos, luzes e roupas brilhantes, deveria ter menos, pois um bom artista se prova na simplicidade. E, por outro lado, se há pouco estímulo visual, é falta de capacidade e coragem para se arriscar. A indústria não aprecia a arte, mas aquilo que cumpre expectativas, por vezes irreais.
Este artigo não é uma crítica à simplicidade no ao vivo, mas uma reflexão sobre como nos acomodamos diante do desgaste de cantoras que precisam sempre estar correndo de salto sobre pedregulhos para alcançar aqueles que caminham em pantufas sobre o chão liso, e como nós, consumidores, não igualamos nossa régua. Nos acostumamos a receber o mínimo daqueles que ocupam a maior parte dos festivais, enquanto aquelas que se desdobram para inovar e superar os próprios trabalhos, muitas vezes, são deixadas de fora, diminuídas e criticadas constantemente.
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