Quando o jovem Igor Melo começou a postar vídeos no TikTok, a intenção era falar sobre filmes
uando o jovem Igor Melo começou a postar vídeos no TikTok,
a intenção era falar sobre filmes, livros e séries. Mas nada parecia dar certo. As publicações tinham poucas visualizações e ele ainda sentia vergonha de gravar a si mesmo. A mudança no material veio depois de uma conversa despretensiosa durante uma madrugada difícil, marcada por uma desilusão amorosa.
Naquela noite, ouviu dos amigos que muita gente provavelmente se interessaria mais pelo seu jeito espontâneo do que por conteúdos excessivamente planejados. Resolveu testar. Gravou um relato contando sua primeira experiência sexual e postou de madrugada. Quando acordou, a publicação já passava de 150 mil visualizações.
“Eu falava mais de livros, séries e filmes e não dava muito retorno assim, sabe? E um dia eu tava fazendo uma live com os meus amigos e tava meio tristonho porque tinha levado um pé na bunda. E aí meus amigos falaram: ‘Igor, você é muito engraçado, eu acho que você deveria mostrar esse seu lado mais engraçado no TikTok, porque as pessoas querem ver gente real, gente de verdade.’ E aí foi quando me deu a ideia, eu falei: ‘Então quer saber? Eu vou gravar um vídeo contando como foi que eu dei meu c* pela primeira vez’.”
Dias depois, um segundo relato viralizou ainda mais e transformou completamente sua rotina. Em pouco tempo, Igor acumulou centenas de milhares de seguidores com vídeos longos, detalhados e narrados quase como conversas íntimas. O curioso é que nada disso surgiu a partir de uma fórmula pronta e suas gravações sequer têm roteiro: “O que mais me impressionou foi porque o público não vê muito isso na internet e rolou muita conexão porque, cara, é um menino abrindo a câmera do celular dele, contando sem filtro nenhum as histórias dele, sem medo algum do julgamento. E assim, muita gente gostou disso.”
A vulnerabilidade como conexão
Conforme cresce no mundo digital, a experiência na faculdade de publicidade o ajudou a entender melhor o funcionamento das redes sociais e como “reter” o público. Igor acredita que o que mantém os seguidores assistindo é a sensação de proximidade criada pelas publicações. Enquanto boa parte da internet aposta em personagens cuidadosamente construídos, ele decidiu seguir pelo caminho oposto: se expor como é de verdade, inclusive nas inseguranças.
“É uma estratégia minha, porque eu percebo que, em tese, ultimamente os criadores vivem em um mundo muito irreal da maioria da população no Brasil. Eles fazem sucesso justamente por estar muito distante do público e fazê-los viver uma vida que não é a deles. E eu falei: ‘Cara, eu vou ser eu mesmo, eu vou me expor mesmo e eu quero que as pessoas gostem de mim por quem eu sou. Eu não quero fingir um personagem’.”
A vulnerabilidade acabou se tornando um dos pilares das publicações. Além das histórias engraçadas ou caóticas, Igor passou a falar sobre autoestima, frustrações amorosas, medos e sobre o processo de se aceitar como homem gay.
VÍDEO SOBRE COMO ELE SAIU DO ARMÁRIO
Para o criador, existe uma diferença importante entre apenas “sair do armário” e realmente gostar de si mesmo. Muitas pessoas LGBTQIA+ ainda carregam traumas, vergonha e homofobia internalizada, o que torna esse processo mais complexo e grande parte das mensagens que recebe gira justamente em torno disso.
Jovens relatam que começaram a se sentir mais confortáveis consigo mesmos depois de acompanhá-lo nas redes, além de mães que dizem compreender melhor os filhos depois de assistir às suas publicações: “Eu recebo muito texto, tanto de mães quanto de garotos gays que falam que começaram a se sentir mais à vontade consigo mesmos, que falam que começaram a gostar de si quando começaram a ver eu gostando de mim e falando que gosto do meu jeito.”
A exposição fora das redes
Com a repercussão, a exposição trouxe mudanças difíceis de ignorar. Igor diz que começou a perceber a dimensão da fama durante o carnaval em Brasília, quando dezenas de pessoas o pararam na rua para pedir fotos.
“Eu falo pros meus amigos que existe um Igor antes e um Igor depois do carnaval, porque foi a primeira vez que eu saí na rua sabendo que as pessoas me conheciam, mas eu não tinha dimensão do quanto. Tipo assim, mais de 70 pessoas pediram para tirar foto comigo no carnaval em Brasília. E assim, foi algo muito novo. Eu levei um susto e ali eu vi que qualquer coisa que eu fizesse ali as pessoas iriam ver e iriam saber quem tava fazendo.”
Depois disso, veio também uma sensação constante de estar sendo observado. Na faculdade, em festas e até em encontros, percebeu que muitos já "o conheciam" das redes antes mesmo de realmente conhecerem o Igor fora da internet. Isso mudou sua relação com as próprias conexões pessoais e fez surgir a necessidade de um cuidado maior ao tentar entender as intenções de quem se aproxima: “Eu acho que o que mudou mais em mim é essa preocupação em saber se a pessoa tá querendo se aproximar de mim porque ela quer ter uma experiência com o ‘Igor do TikTok’ ou se ela quer realmente me conhecer como pessoa.”
Representatividade e família
Com a pressão crescente do público por novas histórias, Igor decidiu diversificar as publicações. Passou a comentar temas ligados à sexualidade, comportamento e debates que surgem nas redes. A mudança dividiu parte da audiência, mas também aproximou seguidores interessados nele para além das fofocas.
VÍDEO FALANDO DA MALÉVOLA
Mesmo com a repercussão, a relação com a família continua relativamente distante. O pai não acompanha as redes sociais e a mãe escolheu não assistir às publicações depois de uma conversa sincera entre os dois. Já parte da família evangélica mantém certa distância do assunto. A situação mais marcante aconteceu quando sua avó assistiu a alguns relatos e demonstrou preocupação com o material publicado.
“A minha avó viu uns dois vídeos meus e aí ela ficou muito preocupada porque, né, outra geração e ela falou: ‘Pelo amor de Deus, olha as coisas que você fala’. Daí, eu disse: ‘Ai, vó, você tem que entender que você não é meu público-alvo’. Mas no geral, a minha família não dá muito pitaco na minha criação de conteúdo, eles ficam mais distantes.”
Apesar das críticas ocasionais, Igor acredita que falar abertamente sobre experiências gays ajuda justamente a tornar essas histórias mais naturais e menos tabu, já que existe uma diferença entre influenciadores que apenas mencionam a sexualidade e criadores LGBT que realmente compartilham essa realidade de forma aberta; e muitas marcas ainda têm receio de se associar a esse tipo de material: “Eu sinto que, infelizmente, no Brasil as marcas têm muito receio de fechar parcerias e publicidades com criadores queer, porque uma coisa é você se dizer gay e não compartilhar essa vivência de forma aberta. E outra coisa é você ser gay, viver isso e compartilhar essa experiência com o público.”
Ele também rejeita a ideia de representar toda a comunidade LGBTQIA+. Afirma que existem inúmeras formas de viver a "experiência gay" e que fala apenas sobre a própria trajetória. Mas considera importante ocupar esse espaço publicamente porque passou anos sem enxergar referências nas quais pudesse se reconhecer.
Pertencimento
Hoje, aos 22 anos, Igor diz que ainda está aprendendo a lidar com tudo o que mudou nos últimos meses. A rotina acelerada de gravações, a exposição constante e o reconhecimento nas ruas vieram junto com uma sensação inédita de pertencimento. Pela primeira vez, sente que não precisa diminuir a própria personalidade para ocupar espaços:
“As coisas que eu já conquistei foram entrando com o pé na porta, sabe? Tomando as rédeas da minha vida e transformando essas oportunidades em algo positivo para alcançar outros lugares. Eu sempre senti que eu não vim pro mundo para ser algo pequeno.”
Se expressando dessa forma, ele não se refere apenas às conquistas profissionais ou aos números nas redes sociais. Existe orgulho em perceber que suas histórias, antes vistas como algo que precisava esconder, agora ajudam outras pessoas a se enxergarem com menos culpa e mais liberdade.
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