Sons Que Marcam Infância
A jornada musical do autor se inicia em uma viagem noturna, embalada por um samba de Wilson Baptista, interpretado com maestria por Paulinho da Viola. Essa melodia nostálgica, ouvida após um longo período
longe de casa, transporta o narrador para um tempo de cadência suave e reflexão. A letra de "Meu Mundo É Hoje", que fala sobre viver sem arrependimentos e sem se curvar à hipocrisia, ressoa profundamente, especialmente ao recordar a figura paterna. Seu pai, um estivador do porto de Santos, nutria uma paixão pelo samba e por uma vasta coleção de discos de vinil. As manhãs em sua casa eram preenchidas por essa trilha sonora, que permeava o cotidiano. O pai, com seu reco-reco e tentativas de improviso em partido alto, animava a família, arrancando gargalhadas e criando um ambiente de alegria genuína. Os clássicos de Paulinho da Viola eram a trilha sonora ideal para esses momentos de felicidade familiar, um elo forte entre a música e as lembranças mais queridas. Em outras ocasiões, o pai se recolhia em suas próprias evocações, mergulhando em um silêncio contemplativo na sala com as luzes apagadas, e mesmo nesses momentos introspectivos, Paulinho da Viola era uma presença reconfortante e companheira.
Encontros Com Gigantes
Trinta anos após esses momentos, o destino cruzou o caminho da filha daquele estivador com o próprio artista. No palco do Pina Ball, evento promovido pela Pinacoteca, a emoção tomou conta ao receber Paulinho da Viola. A simplicidade do artista, apesar de sua realeza musical, contrastava com a admiração quase paralisante da anfitriã, uma fã de longa data. Sentado em um banquinho, Paulinho presenteou o público com suas canções atemporais, como "Coração Leviano" e "Timoneiro", demonstrando a força de seus clássicos e a diversidade de seu repertório. Sua trajetória artística é marcada por uma linhagem musical impressionante: filho de Benedicto Cesar, um violonista do renomado grupo Época de Ouro, e de Paulina Batista, que conciliou a carreira de cuidadora com a paixão pelo futebol. Desde a infância, Paulinho demonstrou aptidão para a música e o esporte, sonhando em ser jogador e cantor. Cresceu em um ambiente culturalmente rico, ouvindo e interagindo com nomes que moldaram a música brasileira, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim, enquanto acompanhava o pai. O choro e o samba eram a atmosfera de sua casa, moldando seu destino ao lado de grandes mestres. Essa conexão com a ancestralidade musical o acompanhou, inclusive em parcerias marcantes, como a colaboração de anos com Clementina de Jesus, a "rainha Quelé", a quem ele continua a homenagear, perpetuando o canto ancestral.
Paixões Pelas Escolas
A carreira de Paulinho da Viola decolou precocemente, quando, ainda jovem, recebeu seu primeiro cachê diretamente das mãos do lendário Cartola, na cantina do Zicartola. Cartola, a voz inconfundível da Estação Primeira de Mangueira, inspirou Paulinho a compor, em 1968, o icônico samba "Sei Lá Mangueira", em parceria com Hermínio Bello de Carvalho. Esse hino se tornou um símbolo eterno da escola, destinado a ecoar enquanto a verde e rosa existir. Contudo, é na Portela que o coração de Paulinho da Viola reside de forma especial. A capacidade de compor hinos memoráveis para diferentes escolas de samba é uma marca exclusiva de artistas de grande magnitude. No caso de Paulinho, a missão de criar um hino para a Portela, após o sucesso com a Mangueira, representou um desafio significativo, porém, o resultado foi um presente para a história do samba. Lançada em 1970, a canção "Foi um Rio que Passou em Minha Vida" trouxe a alvorada para a majestade do samba, tornando-se um sucesso absoluto em rodas de samba e tocando profundamente os corações até os dias de hoje, um testemunho de seu legado.
Vasco e Música
Além de seu amor incondicional pela música e pela família, Paulinho da Viola nutre uma paixão fervorosa pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. Este time de futebol se destaca não apenas por sua história no esporte, mas também por ter sido pioneiro na luta contra o racismo. Paulinho, um dos torcedores mais ilustres do clube, sempre admirou e foi amigo de craques que marcaram época, como o goleiro Barbosa e o atacante Ademir Menezes, além de ídolos mais recentes como Roberto Dinamite. A admiração que une os torcedores na arquibancada do Vasco encontra um paralelo na atmosfera vibrante das rodas de samba. Em ambos os espaços, a reverência é um elemento fundamental, uma prática comum em nosso povo que carrega consigo a dignidade de uma coroa. Este texto é uma homenagem dedicada ao pai do autor, um dos maiores fãs de Paulinho da Viola. Seja no retorno para casa ou em uma tarde de domingo ao som de um vinil, a música de Paulinho tem o poder de trazer de volta memórias preciosas: a maré, o porto, o abraço. É por esses momentos únicos, que transcendem a simples admiração, que o autor expressa uma imensa gratidão a esse gênio da música brasileira. Vida longa a mestre Paulinho da Viola!












