Mais de 65 mil pessoas foram resgatadas de condições análogas à escravidão pelo Ministério do Trabalho nos últimos anos. Os casos têm crescido nos centros urbanos, em setores desde a construção civil e administração
pública até o rural e o doméstico. Os empregadores flagrados são autuados, multados e inseridos no Cadastro de Empregadores (conhecido como "lista suja"), o que restringe o acesso a crédito e negócios.
No entanto, especialistas em compliance e gestão de fornecedores afirmam que muitos desses episódios poderiam ser identificados antes por meio de sinais fiscais, financeiros e judiciais que indicam fragilidades na cadeia produtiva. Entre os principais indicadores de risco, estão processos trabalhistas recorrentes, dívidas fiscais, restrições administrativas e incompatibilidade entre financeiro e operação, segundo Lucas Madureira, co-CEO da Gedanken, especializada em homologação de fornecedores e gestão de riscos estão. “O trabalho escravo raramente surge sem sinais prévios”, afirma. “Muitas vezes, já existem diversas evidências de fragilidade que poderiam ser identificadas simplesmente antes”.
Cadeia produtiva
Um dos pontos destacados por ele é a conformidade entre o porte da operação e a estrutura financeira do fornecedor. Lucas explica que a legislação brasileira estabelece requisitos mínimos de capital social para empresas de trabalho temporário e terceirização, justamente para garantir condições de cumprimento das obrigações trabalhistas.
"Quando há uma discrepância muito grande entre a operação e a capacidade financeira da empresa, isso merece atenção”, alerta. “Pontos simples como esses teriam evitado praticamente todos os grandes escândalos envolvendo fornecedores de grandes organizações e marcas que tivemos nos últimos anos no Brasil".
Outro desafio está na cadeia indireta de fornecedores. “Muitas empresas realizam processos rigorosos de homologação com parceiros diretos, mas perdem visibilidade sobre prestadores subcontratados, onde frequentemente surgem situações de vulnerabilidade trabalhista”. Para o CEO, a gestão de risco precisa deixar de ser um processo pontual e passar a funcionar de forma contínua. “O fornecedor não representa o mesmo nível de risco durante toda a relação comercial”, esclarece Lucas. “Sua situação fiscal, financeira, jurídica e operacional muda constantemente. Por isso, o monitoramento deve acompanhar essas mudanças ao longo do tempo”.
Alertas preventivos
O avanço das ferramentas de análise de dados, que ampliam a capacidade das empresas de monitorar riscos ao longo da cadeia de fornecedores, permite cruzar informações públicas para identificar mudanças de perfil e emitir alertas preventivos.
“Com a tecnologia e os indicadores, a ocorrência desses episódios evidencia falhas de governança, monitoramento e gestão de riscos na cadeia de fornecedores”, afirma o especialista, ressaltando que a prevenção de situações graves como essas depende, sobretudo, do comprometimento efetivo da alta liderança e da atuação diligente das áreas de compras, compliance e sustentabilidade. “Mitigar riscos corporativos e humanitários tornou-se uma questão de responsabilidade empresarial e de compromisso com práticas éticas e transparentes”, conclui.











