Não é só a poluição do ar que ameaça a saúde de quem vive nas cidades grandes. O barulho constante do trânsito também pode ter consequências para o cérebro. Segundo um estudo de coorte realizado na Dinamarca
com 3,1 milhões de adultos de 40 anos ou mais, a exposição prolongada a altos níveis de ruído está associada a um maior risco de desenvolver doença de Parkinson.
Os resultados, publicados na revista científica JAMA Neurology, apontam para uma associação entre a exposição crônica ao barulho e o aparecimento da doença. Mas o estudo também identificou um possível fator de proteção: morar em uma casa com um lado mais silencioso parece reduzir esse risco.
Os pesquisadores acompanharam 3.103.577 pessoas por até 18 anos e observaram que aquelas expostas por longos períodos ao ruído do tráfego rodoviário apresentavam maior probabilidade de receber o diagnóstico de Parkinson.
A doença de Parkinson é a segunda doença neurodegenerativa mais comum do mundo, atrás apenas do Alzheimer. A condição é causada pela perda progressiva de neurônios responsáveis pela produção de dopamina, substância essencial para o controle dos movimentos. Tremores, rigidez muscular e lentidão para caminhar estão entre os sintomas mais conhecidos, mas a doença também pode causar alterações no sono, no humor e na cognição.
Na análise, os pesquisadores utilizaram registros nacionais da Dinamarca para acompanhar adultos com 40 anos ou mais entre 2000 e 2017. No início da pesquisa, ninguém tinha diagnóstico de Parkinson. Ao longo do acompanhamento, 20 mil participantes desenvolveram a doença.
Para estimar a exposição ao ruído, os cientistas reconstruíram o histórico completo de endereços dos participantes desde 1990 e calcularam quanto barulho do trânsito chegava a cada residência.
Um dos diferenciais do estudo foi analisar não apenas a fachada da residência mais exposta ao trânsito, mas também a menos exposta, geralmente voltada para os fundos do imóvel, jardins ou ruas mais tranquilas. A ideia era ver se a presença de um ambiente mais silencioso dentro da própria casa poderia fazer diferença.
O que eles descobriram
Após levar em consideração fatores que também podem influenciar o risco de Parkinson, como renda, escolaridade, características da vizinhança, poluição do ar e presença de áreas verdes, os pesquisadores observaram uma associação entre maior exposição ao ruído do trânsito e maior risco da doença.
Além disso, pessoas que moravam em residências onde havia uma diferença de pelo menos 10 decibéis entre a fachada mais barulhenta e a mais silenciosa apresentaram menor risco de Parkinson quando estavam expostas a níveis elevados de ruído externo.
Segundo os autores, isso sugere que contar com um lado mais silencioso da residência pode atenuar parte dos efeitos da exposição crônica ao barulho.
Qual a relação entre a exposição ao ruído e o Parkinson?
Como estudo foi observacional, não é possível afirmar que o ruído causa a doença de Parkinson, apenas que existe uma associação entre os dois fatores. Mesmo assim, os autores destacam que pesquisas anteriores apontam mecanismos biológicos capazes de explicar essa relação.
A exposição contínua ao ruído pode aumentar processos inflamatórios e favorecer o chamado estresse oxidativo, um desequilíbrio que danifica as células. Estudos em animais também já demonstraram que o barulho pode ativar células inflamatórias do cérebro, alterar genes relacionados ao ciclo do sono e provocar alterações semelhantes às observadas na doença de Parkinson.
Os pesquisadores acreditam ainda que a fachada mais silenciosa da residência pode refletir melhor a exposição durante o período de descanso. Dormir em um ambiente menos barulhento poderia reduzir parte desses efeitos.
Apesar do grande número de participantes e do longo período de acompanhamento, o estudo tem limitações. Os pesquisadores estimaram o barulho do lado de fora das residências e não mediram o ruído dentro das casas nem a exposição em locais como trabalho ou deslocamentos. Os autores também destacam que o estudo foi realizado exclusivamente na Dinamarca e que os resultados precisam ser confirmados em outros países.
Ainda assim, eles apontam que o ruído do trânsito pode representar um novo fator de risco ambiental para a doença de Parkinson e defendem medidas para reduzir essa exposição. Elas incluem intervenções urbanísticas já conhecidas, como barreiras acústicas e pavimentos que diminuem o ruído dos veículos, além de projetos arquitetônicos que garantam às residências um lado mais silencioso, especialmente para quartos e ambientes de descanso.







