A atriz Lorena Comparato buscou ajuda de uma psiquiatra durante a produção do filme Elize: Sombras de uma Mulher, que acaba de chegar à Netflix. A profissional cuidou da saúde mental da atriz, enquanto
ela lidava com os aspectos mais sombrios da mente da personagem que estava interpretando, Elize Matsunaga, condenada por ter assassinado e esquartejado o marido, o empresário Marcos Matsunaga (Henrique Kimura no filme), herdeiro da Yoki, em 2012. A criminosa manteve-se em silêncio até 2021, quando colaborou com a série documental Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime, também da Netflix. Na época, especulou-se que ela havia recebido dinheiro para participar, o que os envolvidos no programa negaram. Na produção em quatro episódios, Elize assume os erros e fala de suas motivações. Segundo ela, o relacionamento abusivo e violento culminaria ou em sua morte ou em uma internação compulsória que a afastaria da filha. Nada disso, evidentemente, justifica o que ela fez. De qualquer forma, o filme ficcional deve trazer de volta o mesmo debate: Elize pode ser vista de uma forma menos cruel após ter exposto seu lado da história? “A gente coloca as sensações na tela e cabe ao público decidir o que pensa sobre o caso”, disse Lorena a VEJA.
A nova perspectiva sobre a criminosa é o sintoma mais curioso da onda de produções do true crime — que adaptam para as telas crimes reais hediondos e, por vezes, misteriosos. São ainda mais atrativas as histórias que repensam julgamentos do passado pela óptica comportamental atual. “Em 2012, a gente não tinha as discussões que temos em 2026 sobre feminismo e violência contra a mulher”, analisa Mariana Torres, que assina o roteiro do filme com o escritor Raphael Montes. Nem por isso, vale ressaltar, a produção isenta a criminosa. “Me pareceu interessante contar essa história e provocar a audiência com mais perguntas do que respostas”, acrescenta Montes, autor de thrillers populares, como Dias Perfeitos e Jantar Secreto.
No júri popular da internet, não foi só Elize que angariou alguma simpatia, a despeito da brutalidade do seu crime. Em 2024, a série Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais, também da Netflix, revisitou o caso dos jovens Erik e Lyle Menendez que mataram os pais na mansão da família, em 1989, em Los Angeles. Condenados à prisão perpétua, os irmãos eram tratados como psicopatas ambiciosos, que cometeram o crime pela herança. Quase quatro décadas depois, a série ofereceu um olhar mais piedoso sobre os rapazes, que teriam sido vítimas de abuso sexual de um pai violento, José Menendez, com a anuência da mãe, Kitty. A ficção contribuiu para uma campanha, que já existia na vida real, pregando a libertação dos Menendez. Em 2025, um juiz da Califórnia reduziu a pena de prisão perpétua para cinquenta anos — eles já cumpriram 35.
O fenômeno do true crime, seguido pela mudança no modo de entender a mente e as motivações dos criminosos, ganhou impulso com Making a Murderer, documentário de 2015, outro da Netflix, sobre Steven Avery: o homem condenado por um crime que não cometeu foi solto para, pouco depois, ser preso novamente acusado de outro assassinato. Ele até hoje alega inocência. O clamor popular por sua soltura, contudo, não resultou em uma absolvição ou revisão de pena.
No Brasil, uma história peculiar provou a inocência de condenados. A investigação feita pelo podcast O Caso Evandro, do jornalista Ivan Mizanzuk, transformado em série pelo Globoplay, revelou que as sete pessoas presas pela morte brutal do menino paranaense confessaram o crime sob tortura, forçando narrativas falsas calcadas em intolerância religiosa: a suspeita defendida pela polícia era a de que o garoto de 6 anos teria sido vítima de um ritual macabro encabeçado por um pai de santo. O circo judicial atrapalhou as investigações e o verdadeiro culpado nunca foi encontrado. A repercussão levou o governo do Paraná a pedir desculpas oficiais aos detidos e o Judiciário a anular as condenações.
Programas do tipo caminham sob o fio da navalha, correndo o risco de relativizar brutalidades. No novo filme sobre o caso Matsunaga, os roteiristas se apoiaram no processo, o que tornou a trama mais imparcial. Destacam inclusive o medo de Elize de ser trocada por uma amante — assim como a própria substituiu a primeira esposa de Marcos. Após cumprir parte da pena, ela está em liberdade condicional e vive de forma discreta no interior de São Paulo, ainda proibida de ver a filha, que tem hoje 15 anos e vive com os avós paternos. O tribunal paralelo do true crime segue em sessão — e algumas vezes o veredicto pode ser surpreendente.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005










