No badalado Studio 54, templo do hedonismo em Manhattan, a pista enchia quando o piloto das vitrolas (ainda não se dizia DJ) punha para tocar Love to Love You Baby, clássico disco de Donna Summer. No cinema,
a começar pelo caminhar malemolente de John Travolta no Brooklyn, as filas serpenteavam para ver Os Embalos de Sábado à Noite. Na Nova York de 1977 havia um rei discreto, que ali desembarcara em 1975 contratado pelo Cosmos, equipe de futebol que ensaiava ganhar o planeta. Pelé, em outubro daquele ano, em partida amistosa contra o Santos — e na presença de Muhammad Ali, o maior de todos —, encerraria 24 meses da passagem de um cometa, ele mesmo. No Giants Stadium, ao fim da partida, choroso, emocionado e feliz, ele faria um rápido discurso, encerrado por três palavras que depois Caetano Veloso musicaria: “Love, love, love”. O Giants foi demolido em 2010 — aquele imenso espaço virou estacionamento do MetLife, agora rebatizado como Estádio Nova York Nova Jersey, palco da Copa do Mundo de 2026.
Não é possível tratar do atual torneio, nos Estados Unidos, sem lembrar da travessia de Pelé — ele representou a primeira tentativa de fazer o soccer popular entre os americanos, e durante dois anos a mágica funcionou. Houve depois a Copa de 1994 e, hoje, a competição dividida com o México e o Canadá — com uma pequena ajuda de Messi, o espetacular jogador do Inter Miami, agora artilheiro de mundiais, com dezesseis gols, ao lado do alemão Miroslav Klose. Contudo, a distância entre o carisma do brasileiro e o do genial argentino é como ir daqui a uma galáxia muito, muito distante, para usar a expressão que abre Star Wars, outro clássico inaugurado naquele tempo de charme e loucura.
Pelé, sem esforço algum, era cobiçado por personalidades como Robert Redford, John Lennon, Andy Warhol e Mick Jagger. Redford, ao ver certa vez a multidão que cercava o craque, suspirou: “Uau, você é famoso mesmo!”. Lennon, que o encontrou numa escola de línguas (o beatle para aprender japonês, o santista para aprimorar o inglês), ficou comovido. Warhol pintou Pelé e reinventou uma de suas frases, ao dizer que já não se tratava de asseverar que todo mundo um dia teria quinze minutos de fama, mas quinze séculos. Jagger, brincalhão, sem deixar que a pedra juntasse limo, ao ver Pelé em baladas, calmo e reservado, e muito charmoso, mandou assim: “Que rei é você, que não bebe, não fuma e não cheira?”.
A reportagem de VEJA recuperou a história daquela aventura. A distância autoriza revelações que antes precisaram ser postas debaixo do tapete. Kely Cholbi Nascimento, a filha de Pelé, chegou com a família aos Estados Unidos aos 8 anos de idade — vive hoje no bairro do Queens. Das conversas posteriores com o pai, de muita pesquisa e do interesse especial por um momento fundamental da carreira de Pelé, ela é categórica: “Quando apareceu a ideia de levar meu pai para desenvolver o futebol nos Estados Unidos, não houve interesse imediato. Mas o presidente Ernesto Geisel conversou com o secretário de Estado Henry Kissinger, que ajudou a costurar a contratação com o presidente dos Estados Unidos, o Gerald Ford”, disse a VEJA. “Era negócio, sim, uma ideia do CEO da Warner, o Steve Ross — mas foi também política, porque o Brasil da ditadura devia favores ao governo americano.” O executivo-geral do Cosmos, Clive Toye, o homem que primeiro abordou Pelé, em 1975, em uma excursão do Santos na Jamaica, minimiza a influência de Kissinger. “O maior desafio não foi contratar Pelé, com uma oferta de 2 milhões de dólares, muito dinheiro naquele tempo, mas convencer Ross de que ele era muito grande”, disse a VEJA Toye, hoje com 93 anos.
Uma consulta aos arquivos da Casa Branca mostra, porém, que Kissinger teve participação fundamental na transação. O chanceler enviou um memorando a Ford em 28 de junho de 1975 — uma semana depois de Pelé assinar contrato com o time de Nova York. Kissinger, amante do futebol, ensina a Ford, que receberia o craque, como pronunciar o nome: “Peh-lay”. Depois informa: “The sport is called football in Brazil”. Na terra do soccer, era bom mesmo avisar que ele era o rei do futebol.
Em seguida, sugere: “Pelé fala um inglês pobre e o embaixador brasileiro é fluente. De qualquer forma, um intérprete ficará de prontidão”. Lista, finalmente, alguns tópicos para a prosa, entre eles a derrota da Inglaterra para os Estados Unidos, em 1950. Tudo muito bem combinado, até que Ford abrisse a porta para Pelé e uma bola. Não demorou um segundo para que o carisma do brasileiro virasse idioma universal, no gramado contíguo ao centro do poder. O vídeo e a foto de Pelé com terno listradinho fazendo embaixadinhas diante de Ford, de olhar embasbacado, girou o mundo. Hoje é nostalgia.
Aquele tempo passou, mas não deveria ser esquecido. Kely, formada pela Parsons School of Design, hoje desenvolve trabalhos relacionados ao futebol feminino, sobretudo um documentário dedicado à jogadora Laís Araújo, Warriors of a Beautiful Game. Leva nas orelhas um par de brincos de bolas de basquete, laranjas, discretas, mas nem tanto. Na semana passada, na cidade que recebeu o rei, seu pai, ela saiu pelas ruas — como se não fosse filha de quem é — comemorando o título do Knicks pela NBA. Trata de Pelé em palestras, e a quem pergunta diz a verdade hereditária — mas zela, de modo inteligente, pela discrição: “Sim, filha do Pelé, mas vida que segue, entende?”.
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000












